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Há duas semanas, falamos sobre mulheres que, em condição privilegiada, deixam a carreira para ficar mais perto dos filhos. Tal decisão, contudo, coloca essas mães em situação de absoluta dependência de seus parceiros, especialmente se a mudança de rumo não tiver sido bem pactuada, em todas as nuances.

Para quem atua no ativismo materno, é preciso falar, cada vez mais, sobre o assunto e a necessidade de ressignificação do papel da mãe nos tempos atuais. “A desvalorização da maternidade é muito forte na sociedade. Criar uma criança, contudo, é uma das atividades mais extenuantes e criativas que se pode ter. Você está cuidando de uma pessoa nova e isso também convida à renovação”, diz Rita Monte, coaching para mães e mulheres em transição.

A especialista, de 37 anos, é uma dessas ativistas. Ela faz da bandeira materna, também, uma forma de empreender e sustentar-se. Depois de encerrar as atividades na empresa em que era sócia – enquanto gestava o filho, Ivo, hoje com 4 anos –, ela mergulhou na maternidade e suas contradições. Hoje, ajuda outras mulheres a se reencontrarem e se reposicionarem após a chegada dos filhos.

“A maior parte das mulheres não tem apoio financeiro para se reerguer, para aproveitar a potência que a maternidade trouxe”, lamenta. Na entrevista abaixo, ela conta como viveu o processo de “imersão” e por que é importante falar sobre isso.

O que é um coaching para mães? No que ele difere dos demais?
Essa técnica ajuda na elaboração do significado da maternidade na identidade de cada mulher. Queremos ajudar as mães a integrarem isso como parte da vida delas e não como um peso, um acessório ou mesmo uma área paralela. E, a partir desse processo, identificar qual a melhor ocupação profissional e a relação pessoal adequada. Esse tipo de coaching difere dos demais porque coloca a maternidade no centro das questões.

Para boa parte das mulheres, voltar ao mercado de trabalho depois da chegada de um filho é bastante complicado. Como você avalia isso?
Há um descompasso entre o nosso tempo de licença-maternidade e as necessidades da mulher para assentar as rotinas e integrar os filhos na vida e no trabalho. Depois que o Ivo saiu de mim, entendi o quanto é fora de sincronia pedir a uma mulher voltar ao mundo produtivo, enquanto ela vive uma fusão psíquica, com um recém-nascido de quatro meses. Eu estava em outro planeta, com a sensibilidade aflorada, dormindo mal e a minha capacidade de concatenar raciocínios prejudicada.

Como você determinou que ficaria um tempo “só” cuidando do seu filho? Como foi o diálogo na sua casa?
Decidimos que as contas ficariam com meu marido e o cuidado principal do bebê comigo. Mas, apesar de ele trabalhar, acordamos que também dividiria o trabalho de casa. Para nós, cuidar do Ivo era um trabalho invisível e pouco valorizado nos círculos sociais, e nós dois precisávamos fazer isso. Comecei a viver uma dependência financeira pela primeira vez na minha vida.

Arquivo Pessoal

Rita e o marido, Vitor

 

Como encarou esse processo?
Dependência financeira era algo impensável para uma mulher urbana, criada para ser autônoma, por uma mãe feminista, na década de 1980. Foi bem difícil, me senti com a autoestima baixa em um primeiro momento. Às vezes, me perguntava: como uma profissional com o meu histórico acadêmico está vivendo isso? Em alguns momentos, achei loucura. Mas, quando isso acontecia, colocava o pé no chão, olhava para o meu bebê e percebia que estava onde queria estar.

Mas isso não é assim para a grande maioria das mulheres, certo?
Exatamente. No meu caso, foi uma escolha conversada, mas para a maioria das mulheres – que acabam sendo “saídas” de seus empregos – é ainda mais difícil. O poder de decisão, vinculado ao dinheiro, pauta as dinâmicas dos casais, e isso tem consequências muito prejudiciais para a mãe. Provavelmente, ela não tem um investimento familiar para se recolocar no mercado.

Arquivo Pessoal

Rita e o filho, Ivo, hoje com 4 anos

 

Por que isso acontece?
Tem a ver com a própria condição da mulher. Até ser mãe, nunca tinha compreendido que temos uma experiência social diferente. Fui criada para lutar de igual para igual no mercado. Mas não havia entendido o quanto mais eu precisava provar, com argumentos, posicionamentos e estratégias, para ser reconhecida tal qual um homem.

Como assim?
Se a mulher tem uma assimetria no mundo do trabalho em relação aos homens, as que são mães são absolutamente periféricas. Somos catapultadas para fora do mundo produtivo quando temos filhos. O mercado não valoriza o poder da maternidade. Após ter filhos, a profissional torna-se mais eficiente, porque tem que dar conta de tudo – embora essa concepção também seja parte do machismo estruturante.

Percebo que, no chamado “empreendedorismo materno”, muitas mulheres acabam fazendo coisas artesanais ou voltadas para o mundo infantil. Existe esse fenômeno?
Sim. Essas profissionais qualificadas poderiam estar ocupando cargos de tomada de decisão, com muita experiência e de forma madura. Mas elas se veem perdidas e começam a fazer bolo, brigadeiro ou qualquer outra coisa. Não estou desmerecendo essas atividades, mas elas não necessariamente têm a ver com essa mulher e a potência do que ela pode entregar para o mundo. E, consequentemente, ser remunerada à altura.

Qual o problema nesses casos?
Ficamos inertes quando não temos apoio e investimento para elaborar. Ao ser mãe, aumentamos a nossa régua, ficamos mais exigentes em termos de valores. E isso é muito poderoso, mas só é assim se temos uma base para ressignificar isso. Se não temos, o poder da maternidade nos suga para uma única identidade: a de mãe. Maternidade e paternidade são assuntos sociais, deveriam ser discutidos por todos.



 


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