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“Mamãe, compra uma Amoeba pra mim?” foi a frase que eu mais ouvi ao longo do mês de julho – quando finalmente, meu marido sucumbiu e comprou a tal geleca (que, em poucas horas, virou uma massa cinzenta e fedida, reunindo toda a poeira da casa).

O episódio chamou a minha atenção para algo que, até então, passava despercebido.

Meu filho mais velho sabe da existência do dinheiro, que eu e o pai dele temos algum poder aquisitivo e que, portanto, ele deve concentrar em nós dois (e nos avós, obviamente) o lobby para conseguir ter as coisas coloridas, divertidas e/ou gostosas sonhadas.

 

Essa percepção tem acontecido cada vez mais cedo, por volta dos 2 anos e meio, afirma a especialista em educação financeira Cassia D’Aquino.

Segundo ela, a partir deste momento, a família pode dar início à educação financeira, um processo que vai durar até o início da vida adulta. “A maneira mais fácil de fazer isso é por meio da convivência. As crianças estão, a todo momento, prestando atenção aos pais e aprendendo com esses comportamentos”, explica ela.

Para as crianças menores, a recomendação é ir mostrando, por meio do envolvimento em tarefas domésticas, a diferença entre querer e precisar. “Quando os pais chamam as crianças para ajudá-los na feitura da lista de compras, por exemplo, estão ensinando sobre o uso do dinheiro e a exigência da racionalidade. Antes de ir ao mercado ou shopping, é preciso pensar sobre o que vamos adquirir”, orienta.

 

Também é importante deixar claro às crianças na primeira infância que o dinheiro exige cuidado: não pode molhar, riscar e amassar, e é preciso ter atenção para não perder.

E a mesada?
Segundo Cassia, dar um dinheiro eventualmente às crianças, a partir dos 6 ou 7 anos, para que elas próprias decidam como gastá-lo, é apenas um dos caminhos para a o fortalecimento da educação financeira.

Nesse caso, a recomendação é que a família adote a “semanada”, devido às limitações de meninos e meninas em relação à noção de tempo nessa fase. “E os pais também devem se controlar para não dar palpites. Se tem uma idade boa para cometer erros e ‘ir à falência’, é aos 7 anos”, brinca.

 

Outro cuidado é lembrar de dar a semanada ou mesada com regularidade, conforme o combinado, mesmo que a menina ou menino tenha tido um mau comportamento ou um desempenho ruim na escola. “A ideia da mesada é justamente provocar na criança a decisão de fazer ou não planos para seu dinheiro. Já imaginou como seria se seu chefe decidisse cancelar o salário por que não concordou com a sua postura em uma reunião?”, questiona a especialista.

No ano passado, o governo homologou a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino fundamental. Nela, há a previsão de educação financeira como um dos conteúdos a serem abordados pelos colégios.

Cassia, entretanto, vê a medida com cautela. “Deveríamos ensinar as crianças a ler e escrever com plenitude, até porque esse é o primeiro degrau da educação financeira”, argumenta. “Alguém que faz isso com propriedade será capaz de organizar o consumo de maneira muito melhor.”



 


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