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No WhatsApp, a foto anuncia uma dupla e tanto: ela, de óculos escuros, divertida; e o menino, usando um boné amarelo, cara de travesso, felicidade estampada nos olhos. “Meu filho, meu tesouro, meu futuro”, diz o status de Luiza Valentim, 27 anos, que aparece na imagem com Hael, de 2 anos e 8 meses.

Seria uma foto como muitas outras, que traduz todo o significado da expressão “amor de mãe”. Essa é ainda mais representativa, contudo, pela história de Luiza, que transformou a maternidade em um ato político, de resistência. Ela é uma mulher trans, não nasceu com vagina ou útero e – antes de fazer a cirurgia de redesignação sexual, em março deste ano – decidiu ter um filho. “Quando criança, eu sempre me imaginava no papel feminino, como a mãe mesmo”, lembra.

Encontrou a parceira para a empreitada na cidade onde vive com a família, na Serra do Cipó, tradicional região turística de Minas Gerais. Graziela Machado, 23 anos, é a outra mãe de Hael, aquela que o gerou no ventre e com quem Luiza divide as dores e as delícias de criar uma criança no mundo de hoje.

As duas viviam um relacionamento, em 2014, quando fecharam o que Luiza chama de “um acordo entre mulheres”. “Talvez não fosse o momento ideal para ter uma criança, mas essa alternativa surgiu a partir da minha necessidade de pensar em um outro caminho para o desejo de ser mãe”, explica Luiza.

Hael foi concebido de forma natural, uma vez que Luiza ainda carregava a genitália masculina. “Eu não tinha dificuldade para ejacular, mas para chegar ao orgasmo”, contextualiza, sobre o processo.

A racionalidade para realizar o sonho de ser mãe de uma forma mais simples faz sentido. No Brasil, a expectativa de vida de pessoas trans gira em 35 anos. E, segundo o Relatório da Violência Homofóbica, publicado pela Secretaria de Direitos Humanos (SDH), 90% desses brasileiros e brasileiras têm a prostituição como ocupação profissional.

“Como faria para, no futuro, adotar uma criança? Qual a minha perspectiva de ter uma renda mínima, sendo que o mercado de trabalho é nada acolhedor para pessoas trans?”, questiona. Hoje, ela é técnica em agrimensura, seguindo o caminho profissional do pai. “Preciso me agarrar onde tenho apoio e encontro isso na minha família”, conta. A trajetória dela foi exibida em um documentário no GNT, no mês passado.

Mamãe Luiza
Hael nasceu em 21 de fevereiro de 2015. Na certidão de nascimento do menino, aparece o nome de Grazi e o nome de batismo de Luiza. O processo para ter o nome modificado em seus documentos se arrasta há dois anos. A expectativa é que seja concluído em dezembro.

Esta semana, durante mais uma audiência sobre o assunto, a juíza perguntou a Hael:
– Quem é essa daqui? (apontando para Luiza)
– É a mamãe Luiza.
– E essa?
– A mamãe Grazi.

Atualmente, Grazi passa boa parte dos dias fora da cidade, fazendo um curso técnico. Ela e Luiza – hoje, grandes amigas – dividem os fins de semana com o menino. As duas também procuram afastá-lo de qualquer situação machista ou preconceituosa, embora, na visão de Luiza, o pior seja o racismo. “Grazi é negra, e meu filho já começou a ouvir coisas sobre os traços dele, o cabelo. Eu corto na hora”, diz.

Luiza também se revolta com a falta de entendimento sobre seu papel na vida do filho. “Eu sou muito questionada pela minha maternidade. As pessoas querem, o tempo todo, me tirar essa função, preciso demonstrar em dobro a minha capacidade”, desabafa. Mas nada a faz esmorecer.

“Ser mãe não é parir, não é trocar fralda ou não só isso. Ser mãe é estar em cima do moleque o tempo todo, atenta ao que ele recebe do mundo. É dar valores, aprender que o nosso planeta é uma casa”, resume.

Maternidadetransmãe
 


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