Vivemos uma praga histórica: o triunfo da “realidade alternativa”

O esforço do homem, durante séculos e séculos, para aumentar o seu grau de conhecimento está sendo substituído por um esforço contrário

Victor Moriyama/Getty ImagesVictor Moriyama/Getty Images

atualizado 12/01/2020 13:23

Ser ignorante já é um problema e tanto, ainda mais quando se considera que o número de coisas que o cidadão ignora vai se tornando alarmantemente maior a cada dia que passa, por conta dos avanços e mudanças que não param de acontecer no conhecimento em geral – e na tecnologia em particular. Mas é a velha história: não há limite para o pior. Isso ou aquilo pode, de alguma forma, piorar? Então aperte os cintos e ponha o seu assento na posição vertical, porque vai piorar.

No caso da ignorância, essa velha regra é mais do que clara. Trata-se, em suma, do seguinte: você não sabe alguma coisa, faz um esforço honesto para aprender mais e acaba, no fim, sabendo menos do que sabia no começo. Dá o que pensar. Será que não seria melhor cada um tratar de defender o seu nível atual de ignorância em vez de tentar subir da segunda para a primeira divisão e acabar caindo na terceira?

Vivemos, hoje, uma praga talvez sem precedentes na história: o esforço do homem, durante séculos e séculos, para aumentar o seu grau de conhecimento está sendo substituído por um esforço contrário. Isso mesmo: há um movimento cada vez mais potente, em todo o mundo, para diminuir o que o ser humano conhece. Ele se manifesta naquilo que se chama de “realidade alternativa”.

Que diabo é isso? É a repetição maciça de crenças que se apresentam com um atraente uniforme de ciência, mas não passam disso – crenças. Grupos montados na universidade, em institutos de pesquisa, em órgãos de governo que administram a ciência, em ONGs, etc. separam uma ideia, uma convicção ou um princípio do seu agrado, e tratam de transformar esse pacote em verdade científica.

Depois de muita massagem nos fatos, muitos milhões investidos na construção da realidade que lhes interessa e muito barulho na mídia, acabam por anunciar que isso ou aquilo está “provado”. Ponto: o que era fé virou ciência. Os desejos do grupo foram “validados” pela massa de pesquisas que fizeram e passam a ser apresentados como se fossem mais um teorema de Pitágoras.

O sujeito, naturalmente, vê isso tudo exposto dia e noite nos meios de comunicação – e como a maior parte do que vê é falso, pois resulta de ideologias, e não de um real trabalho de cientistas, desaprende o que sabia e aprende o que lhe mandam repetir. É assim que o público é apresentado, por exemplo, a “um estudo” no qual se demonstra que o aquecimento global “pode” destruir “16%” da parte sul da Amazônia – nem 15%, nem 17%, mas 16% cravados; e não nas partes leste, oeste ou norte da floresta, mas na parte sul.

E que estudo é esse? É um estudo, poxa – algum problema? Não, a pergunta é só para saber um pouco mais sobre essa história. Informa-se, então, que é um estudo feito por “cientistas americanos e brasileiros”. Que cientistas? De um campus universitário da Califórnia e de uma ONG brasileira. Foi publicado numa revista que leva a palavra “Ciência” no título. Fim de conversa. Fica provado cientificamente a partir daí, “por pesquisas internacionais”, que 16% da Amazônia vai pegar fogo até 2050. Eis aí, prontinha, mais uma “realidade alternativa”.

Preste atenção: casos como esse acontecem todos os dias, e não só em relação à Floresta Amazônica, mas em todo tipo de assunto. Cuidado com eles, se você quiser ficar apenas tão ignorante quanto é hoje – e nem uma grama a mais.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Metrópoles

SOBRE O AUTOR
J.R Guzzo

É jornalista e colunista do Metrópoles. Na década de 1960, foi subsecretário da edição paulista do jornal Última Hora. Entrou na Editora Abril em 1968 e dirigiu o mais importante título do grupo, a Veja, entre os anos 1976 e 1991, tendo ainda atuado no Conselho Editorial da Abril. Escreveu uma coluna na revista até 2019.

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