Por que o trauma do “sem carteira”? Pior seria “sem trabalho”

Há cada vez mais gente, hoje em dia, que ganha a vida sem ter ligação com um empregador. O Brasil e o mundo vivem numa economia nova

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 01/11/2019 17:24

Mais uma vez, com a regularidade da mudança das estações do ano, um coro mais ou menos horrorizado se levanta entre os especialistas quando o IBGE divulga os dados sobre quanta gente está trabalhando “sem carteira assinada”. Os últimos números mostram que, no momento, há 40 milhões de brasileiros “sem carteira”.

O que nunca se nota, na frase, é a presença do verbo “trabalhar”. Faz diferença. A informação do IBGE comprova, na vida real, que há 40 milhões de brasileiros trabalhando. É trabalho “informal”, sem os direitos da lei trabalhista, sem plano de saúde, no Uber ou no iFood, cobrando por serviço prestado e por aí afora – mas não é a mesma coisa, de jeito nenhum, do que estar desempregado. Experimente exercer uma atividade dessas por 12 horas corridas e veja, então, se é trabalho ou é ficar à toa.

Há cada vez mais gente, hoje em dia, que ganha a vida sem ter ligação com um empregador – por necessidade, por circunstância ou por gosto. E se o emprego que o sujeito tinha não existe mais, e não voltará nunca, por que há um robô no seu lugar? E se a atividade que exercia desapareceu? Ou se a empresa onde estava empregado fechou para o resto da vida?

Mais: e se o cidadão “sem carteira” prefere trabalhar por conta própria, porque ganha mais, ou porque se cansou de encher a própria paciência com patrões, chefes e subchefes? O Brasil e o mundo vivem numa economia nova. O emprego também é novo.

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