Conheça Daniela Nunes, candidata do DF ao Miss Brasil Trans 2020

Ativista, a postulante de 28 anos é assistente social e faz biomedicina para pesquisar redução do sofrimento em métodos de transição de sexo

atualizado 11/07/2020 15:24

Daniela Nunes, a candidata do DF ao concurso Miss Brasil Trans 2020 Material cedido ao Metrópoles

Se a vida da jovem Daniela Nunes, representante do Distrito Federal no concurso Miss Brasil Trans 2020, pudesse ser resumida em uma palavra, talvez resistência seja a melhor opção. Desde o nascimento, em 1991, em Brazlândia – cidade a quase 50km de Brasília – ela enfrenta há pelo menos duas décadas olhares desconfiados de alguns e a intolerância de outros tantos por um simples motivo: querer dar voz à própria identidade e se assumir uma mulher trans.

Com toda a dificuldade que já enfrentava, preferiu confiar nos conselhos da mãe, quem a criou praticamente sozinha, ao repetir que a resposta para tudo são os estudos. Hoje, Daniela colhe os frutos do que plantou durante toda a vida.

Aos 28 anos, é assistente social diplomada e, desde o início da carreira, optou por dedicar a formação à minimização do sofrimento de pessoas em situação de rua no Distrito Federal. Muitas delas, expulsas da própria casa justamente por conta da orientação sexual.

Paralelamente à faculdade, Dani fez inúmeros cursos técnicos – incluindo o de higiene bucal –, mas no  início do ano, teve uma boa notícia: foi aprovada na segunda graduação, desta vez em biomedicina, uma de suas maiores afinidades.

Além da querer atuar na área estética, Daniela planeja conduzir pesquisas para auxiliar outras mulheres trans a terem acesso a métodos de feminilização de forma segura. Hoje, grande parte fica exposta a procedimentos clandestinos ou realizados à base de produtos perigosos.

“Tenho muita vontade de estudar profundamente sobre as células tronco e como elas podem ajudar na transição completa. Hoje, muitas mulheres trans recorrem ao silicone industrial e correm riscos, porque não têm dinheiro para um tratamento adequado com especialistas. Tudo para nós é mais caro e, para piorar, o mercado de trabalho não oferece um espaço democrático para todas. Isso faz com que muitas sigam pelo caminho da noite, da prostituição. Eu sempre segui o caminho do dia, mesmo com tanta dificuldade”, diz.

Numa lembrança pela qual não esconde o desconforto de conviver, a Miss Brasília Trans relata que aos 8 anos sofria bullying na escola, por ter decidido ignorar o esteriótipo masculino ao deixar os cabelos crescerem um pouco, no desejo de se parecer com os das amigas, com quem tinha mais afinidade.

As declarações preconceituosas e as agressões psicológicas permaneceram também no período acadêmico, tendo de conviver com o constrangimento causado na maior parte das vezes por colegas de turma.

“Quando eu era criança, sempre era excluída, sofria ataques e todo dia eu voltava com chiclete colado no meu cabelo. Não tinha ideia do que era, nem entendia os xingamentos. Certa vez, me chamaram de homossexual e não sabia o que significava essa palavra. Hoje, me olho no espelho e sou feliz ao me ver realizada como mulher, e isso não é apenas uma questão física: tem muito a ver com a minha construção social, de ter um emprego, uma formação profissional e, além disso, ter apoio da minha família. Sou uma privilegiada”, declarou.

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Violência e preconceito

O que talvez seja um relato natural para qualquer jovem de 29 anos, que é escolher, estudar e até exercer uma profissão – ou duas, no caso de Daniele –, não é uma realidade da maioria das pessoas que vivem a própria transexualidade, motivo que levou assistente social a usar o termo “privilégio”.

Estudos comprovam que a marginalização ainda devora, infelizmente, a maior parte da fatia dessa população, que têm expectativa de vida baixa e acaba vivendo em guetos. Muitas acabam se rendendo às drogas, usadas como forma de anestesiar os sofrimentos os quais são submetidas, quando percebem a não identificação com o corpo biológico.

“Já fui muitas vezes agredida na rua, quando estava indo trabalhar. Também fui agredida verbalmente por policiais, quando me abordaram na porta da empresa de telemarketing onde eu trabalhava. De tantas pessoas, eu fui a única abordada. Pediram meus documentos e fizeram piadas a meu respeito na frente de colegas. A gente vai querendo evitar situações assim. Hoje, eu prefiro usar um aplicativo de transporte do que o sistema público. É uma forma de nos blindarmos de situações desse tipo. Mas, para isso, precisamos de condições, financeiras inclusive, para escapar de todo o preconceito”, lamenta.

Aos 12 anos, quando iniciou o tratamento de transição com o apoio da família, Dani passou a ter os cabelos bem mais longos e percebeu, neste momento, que o processo de transição física era inevitável, mas que o caminho seria longo, difícil e até doloroso.

“Aos 14, passei a entender as questões de gênero, corporais, que me diferenciam, com as implicações de vivências sociais que acometem uma mulher transgênero. Com 16 anos, iniciei o tratamento hormonal automedicado. Dois anos depois, já tinha adotado o meu nome Daniela e, em 2014, quando tinha 22, conquistei o direito de ser reconhecida como mulher também nos meus documentos pessoais, após um processo judicial”, contou.

Mensagem

Embora cuidadosa com a aparência, realçada pelos longos cabelos morenos, ser miss nunca foi uma ambição para Daniela Nunes. Ela encara a projeção da coroa como mais uma possibilidade de ativismo. De levar uma mensagem de esperança a tantas outras mulheres trans, em situação vulnerável, mas que decidem ser como realmente se enxergam perante a sociedade.

“O que eu tenho para dizer é que cada vez mais a gente vem conquistando direitos e políticas públicas. Por mais que tenhamos um cenário difícil e um governo autoritário, é muito importante lutar para que o Poder Público seja equipado com projetos de apoio às pessoas trans, às travestis, principalmente para as mais vulneráveis.  Essa rede de apoio serve para nos fortalecer e nos enxergar como parte da sociedade. Ser miss, para mim, é isso. Só por conceder esta entrevista, acredito que já valeu a pena. Sei que esta mensagem vai chegar nas meninas mais vulneráveis, e quero que toque a alma delas com esperança”.

Feliz por representar Brasília no concurso Miss Brasil Trans, na edição que deve ser realizada no fim de outubro, em São Paulo, Daniela Nunes é muito cuidadosa quando provocada a prever o resultado da esperada premiação.

Porém, pela resistência aos inúmeros obstáculos impostos pela própria condição, o Metrópoles tem o dever social de antecipar o veredicto: a Miss Trans Distrito Federal de 2020 já é colecionadora das vitórias que importam na vida.

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