Sustentabilidade: fast fashion lucra ao reduzir peças em estoque

Empresas como Zara, Asos e Missguided facham ano no verde após comprarem lotes menores e diminuírem a quantidade de produtos alojados

Mikhail JaparidzeTASS via Getty Images

atualizado 23/12/2019 9:43

A notícia de que 6,3 mil lojas fechariam nos Estados Unidos no decorrer de 2019 colocou as gigantes do varejo em atenção redobrada. O risco de fechar o ano no vermelho fez com que as empresas do segmento fast fashion procurassem formas de evitar as perdas que assolaram o mercado em 2018. O resultado encontrado por muitas, além de efetivo, ainda contribuiu para a demanda sustentável que cresce rapidamente na indústria têxtil: o controle de estoque.

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A rede espanhola Zara registrou forte crescimento no terceiro trimestre de 2019. A empresa fechou o período com lucro líquido de 1,17 bilhão de euros, algo bem acima das expectativas dos analistas, com aumento de 14% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O bom resultado se deve à diminuição dos estoques da empresa, que apostou em uma política mais rígida em relação ao controle de seus armazéns. Os dirigentes fecharam novos acordos de fornecimento e mudaram seus hábitos de compra. Se antes a marca investia em grandes lotes, resultando em desperdício de produtos, agora prefere encomendar menos itens, respondendo mais rapidamente às tendências em evidência.

“Nosso baixo nível de estoque nos permite ter mais flexibilidade. A qualquer momento podemos mudar o rumo de nossas decisões sem grandes prejuízos”, disse o presidente da companhia, Pablo Isla, aos analistas do site Business of Fashion.

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A Zara fechou o terceiro semestre de 2019 bem acima das expectativas, graças à reformulação de seu comportamento de consumo

 

Ao contrário do que ocorreu com a Zara, a etiqueta britânica Ted Baker amargou grandes prejuízos por superestimar o valor de seu estoque em 25 milhões de libras, ao passo que a sueca H&M viu seus estoques dobrarem devido à desaceleração das vendas.

E-commerces como Asos, Boohoo, Revolve e Missguided também abraçaram o gerenciamento de estoque para atender aos clientes, cada vez mais atentos aos desperdícios que impactam o meio ambiente. Peças atemporais ainda são compradas em grande escala, mas o investimento em tendências é feito de forma que os itens fiquem alojadas apenas por algumas semanas.

Divulgação/Zara
Tendências de rápida aderência, como os chinelos de salto, são compradas em lotes menores

 

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Já as peças atemporais, como blazers e scarpins, são adquiridas em grandes pacotes

 

A ideia é atrair os consumidores com itens em alta na moda e, no site, apresentar várias ofertas relacionadas aos produtos básicos, que têm uma margem de lucro mais alta. O Boohoo Group, por exemplo, registrou um crescimento de 38% em seus lucros depois que implementou esse modelo de negócio.

Por meio do nearshoring, onde uma empresa terceiriza determinadas atividades em cidades ou países próximos, o Missguided conseguiu diminuir seus estoques e aumentar a velocidade de suas entregas. Agora, pode enviar produtos à China em menos de quatro semanas e ao Paquistão em até duas semanas.

“Entre 2017 e 2018, estávamos segurando o estoque por muito tempo, mas começamos a manter grande parte do nosso orçamento de compras flexível para encomendar tendências aos nossos fornecedores nearshoring. Dessa forma, conseguimos responder às novidades mais rapidamente e sem desperdícios”, explicou Nitin Passi, CEO e fundador da Missguided.

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Nitin Passi, da Missguided, apostou no nearshoring para se livrar de seus estoques

 

A Missguided, que viu sua receita crescer para 200 milhões de euros em seus primeiros oito anos de história, teve uma perda de 46,7 milhões de euros no início de 2018. Após o baque, a companhia mudou seu comportamento de abastecimento.

Hoje, se um item não for vendido, ele será escoado o mais rápido possível, o que, em termos práticos, significa colocar os produtos em liquidação. Para melhorar ainda mais os resultados, a label reduziu os orçamentos de marketing e aperfeiçoou a logística para fazer compras de inventário mais inteligentes, incluindo merchandisings, gerenciamento de fornecedores e algoritmos de tendências.

“A chave é usar o máximo de dados e dar vazão às coisas que não vendem”, destaca Passi. De acordo com o relatório anual da empresa em 2019, divulgado no início de dezembro à Companies House, os ganhos voltaram a crescer, enquanto as perdas foram reduzidas em 91%.

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Dados têm ajudado empresas a diminuírem seus estoques

 

As empresas de fast fashion agora contabilizam dados para entender melhor o processo de compra dos clientes e, assim, adquirir apenas o que realmente funciona no e-commerce. De acordo com Martin Shaw, chefe de pesquisa da RetailX, esses algoritmos de tendências tornaram-se extremamente precisos na última década.

Na revendedora americana Revolve, as ferramentas permitiram que a empresa avaliasse o impacto do influenciador e o engajamento social, para ajudar na escolha do melhor mix de produtos.

“Nos últimos 18 meses, posicionamos estrategicamente o negócio, concentrando-nos nas marcas que realmente queremos levar. Ao reduzir o estoque, vimos enormes benefícios”, afirma a diretora do e-commerce, Raissa Gerona. Esses benefícios incluem crescimento de 15% nas vendas líquidas desde 2018 e retorno à lucratividade, com aumento de US$ 82 milhões no terceiro trimestre.

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A Revolve passou a avaliar o impacto de seus influenciadores e o engajamento social para determinar futuras compras

Segundo a plataforma de consultoria Edited, o número de estilos reabastecidos nesta temporada em comparação com o outono/inverno 2018 aumentou, indicando que os varejistas estão se concentrando em comprar tendências bem-sucedidas.

Ao passo que a aquisição de produtos em alta elevou mais de 100% na Boohoo e na PrettyLittleThing. As empresas observaram redução na venda de itens com desconto – o dado sugere que os consumidores não têm se importado em comprar tendências pelo preço cheio.

As empresas que minimizaram os problemas de inventário, usando dados para prever tendências, estão mais bem posicionadas na perspectiva de sucesso na próxima década. Martin Shaw acrescenta que o desperdício de estoque afeta negativamente os resultados da marca e sua imagem, ao passo que os clientes se tornam cada vez mais conscientes das preocupações ambientais de estoque extra. “Inventários são cruéis com as marcas de fast fashion“, garante à Vogue Business.

Com inventário estrategicamente gerenciado e recursos mais inteligentes, os varejistas on-line de fast fashion de moda rápida estão preparados para alcançar novos públicos e territórios. Para 2020, as marcas britânicas estão de olho na expansão global, principalmente nos EUA, onde obtiveram maior sucesso em 2019, de acordo com a Edited.

Colaborou Danillo Costa

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