A moda noiva está passando por reformulações significativas. Confira!

Mudanças no perfil de consumo e novas tendências apontam evoluções importantes no segmento de festas para a próxima década

Christian Oth StudioChristian Oth Studio

atualizado 16/05/2019 11:04

A moda sempre foi um retrato da nossa história e, na era #MeToo, nada mais atual do que romper com antigos padrões. Observamos mudanças culturais, políticas e econômicas surgirem nas ruas e chegarem às passarelas. Silhuetas se afastam do corpo, peças de alfaiataria ganham recortes, e tênis, agora, são um item de luxo. Vivemos a ascensão da moda genderless, o resgate das modelagens estruturadas, e vestir-se com sobreposições virou símbolo de estilo e sensualidade! Além disso, misturar tecidos e estampas nunca esteve tão em alta.

Tantas mudanças afetam também o mercado de noivas, que passa por reformulações: nem muito sexy e nem tão clássicas, as noivas do século 21 escolhem looks com calças e esbanjam feminilidade.

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O segmento não demonstra qualquer crise. Paralelamente à evolução no quesito estilo, o número de casamentos gays tem aumentado a cada ano, assim como cerimônias inter-religiosas; o índice de divórcios, inclusive, diminuiu.

Na atual conjuntura, a previsão é de alta. Nos EUA, o setor de noivas está estimado em US$ 72 bilhões, e globalmente esse número chega à impressionante marca de US$ 300 bilhões, com um aquecimento mais representativo na Ásia e no Oriente Médio.

A pergunta que fica é: as marcas estão preparadas para essas mudanças?

Parece que sim! Nas últimas edições do Bridal Week, que aconteceram em Madrid e Nova York no mês passado, Viktor & Rolf, Carolina Herrera, Oscar de la Renta, Galvan, Cushnie, Lela Rose, Danielle Frankel e até a libanesa Reem Acra ostentaram modelos com calças em suas coleções de primavera.

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Marcas se preparam para acompanhar a evolução no comportamento do consumidor

 

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Oscar de la Renta

 

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Carolina Herrera

 

Lara Jade
Danielle Frankel

 

Marijke Aerden
Viktor & Rolf

 

Stockton Johnson
Cushnie

 

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Galvan

 

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Sahroo

 

Fadi Acra
Reem Acra

 

Para os homens, o smoking preto, peça clássica para uma cerimônia de casamento desde o século 19, hoje figura em apenas 30% dos casamentos, revela Colin Hunter, executivo-chefe e cofundador da Alton Lane. No lugar do traje, ternos são os favoritos deles, em roupagens cada vez mais modernas e novas opções de cor, como azul-cobalto, bordô e cinza-claro.

Também acompanhando o que acontece no ready-to-wear, as silhuetas são mais justas, e os decorativismos começam a ganhar espaço nas lapelas, punhos e bolsos.

“O noivo de hoje está colocando mais esforço, individualidade e personalidade no look do grande dia. As possibilidades são infinitas, e eles adoram”, diz Ernie Ulysses, proprietário da Alexander Nash, ao New York Times.

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Estilo dos noivos também está evoluindo

 

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Azul-cobalto é uma das cores mais usadas por eles hoje

 

Já surgem mudanças também no quesito anéis de noivado. Muitas noivas estão priorizando o design ao tamanho do diamante, como afirmam Jess Hannah e Chelsea Nicholson, da marca Ceremony. Os joalheiros, que se referem a suas peças como símbolos do amor, produzem apenas modelos unissex, com inspirações vintage e linhas limpas.

Curiosamente, os diamantes redondos e brilhantes, os mais demandados no mercado, são os menos populares entre os clientes da marca. Atualmente, os modelos marquise são os que mais saem. “Meu objetivo é que, em 10 ou 20 anos, ninguém olhe para trás e diga: ‘Uau, esse anel é tão 2019’”, diz Hannah.

Inclusive, muitos casais estão optando por comprar dois anéis para que possam trocar presentes, ao contrário do que configura o tradicional pedido de joelhos. “Os relacionamentos evoluíram, mas a forma como as empresas de joias conversam com eles não. No mercado, o marketing ainda gira em torno de um homem que propõe a uma mulher, sendo que hoje cada casal tem sua tradição”, afirma a empresária.

Reprodução/Instagram/@ceremony.us
Noivos estão preferindo design aos quilates

 

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Modelos marquise são os mais vendidos atualmente

 

O comportamento de consumo entra em uma nova fase à medida que as pessoas começam a questionar as regras do matrimônio. Cada vez mais, a antecedência com que as noivas procuram o vestido para a cerimônia diminui, e muitas já optam por adquirir on-line a tão sonhada peça. “As mulheres estão esperando muito mais tempo para tomar essas decisões porque estão expostas a tantas coisas que fica difícil bater o martelo”, disse a designer Danielle Frankel à Vogue.

“A maioria das minhas noivas aparecem três ou quatro meses antes do casamento. Eu consigo lidar com isso porque sou uma pequena empresa e posso dedicar meus recursos, mas nem toda marca se sai bem nesse cenário”, conta a estilista, que adaptou sua produção ao modelo ready-to-wear.

A procura por peças sob medida ainda existe, mas as coleções regulares são um grande trunfo para Danielle, que hoje vende seu bridalwear no Net-a-Porter. Ela, por sinal, foi a primeira designer a oferecer vestidos de noiva nesse e-commerce.

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Vestido Danielle Frankel vendido no Net-a-Porter

 

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Outra peça de Danielle vendida no e-commerce

 

Elizabeth von der Goltz, diretora global de site de compras, relata que, ao contrário do que muita gente pensa, a compra de vestidos de casamento on-line é uma realidade hoje. “Nosso cliente é, provavelmente, um pouco menos tradicional do que aqueles que vão a uma loja, além de querer as coisas mais cômodas”, diz.

A executiva acrescenta que muitas noivas que usam o Net-a-Porter para garantir o vestido aproveitam a oportunidade para comprar os sapatos, a bolsa, a maquiagem e até os grampos de cabelo. “Estamos vendo muitas pessoas adquirindo um segundo vestido branco, para trocar depois da cerimônia, ou lingeries para a lua de mel. A questão é atender todas essas necessidades em um só lugar.”

Em Brasília, as mudanças no mercado de casamentos são mais tímidas, mas já começam a surgir. As empresárias Rafaela Araújo e Daniela Bittar, da Redress, afirmam que os ternos femininos ainda não são muito procurados por aqui, mas o novo sexy da era #MeToo pode ser percebido em sutilezas, como a escolha de tecidos e texturas.

“Os vestidos lisos em zibeline de seda, que fogem dos rendados e bordados, estão de volta. E os modelos princesa e sereia, aos poucos, são substituídos pela alfaiataria. As noivas, hoje, não seguem um padrão como antes. Elas procuram aquilo que combina com sua personalidade e as faz se sentirem bem”, comenta Rafaela.

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Rafaela Araújo e Daniela Bittar

 

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Loja fica no Setor Hoteleiro Sul

 

Porém, se as calças ainda não atraem as noivas brasilienses, as possibilidades práticas dos e-commerces já começam a chamar atenção. “Temos algumas experiências com clientes que compraram on-line. Elas mandaram fotos dos estilos que estavam procurando, e fomos conversando até a prova, Mas a gente ainda incentiva o atendimento presencial, pois, muitas vezes, aquilo que as noivas imaginam pode não ter o caimento adequado”, explica.

Em relação à antecedência com a qual as mulheres procuram o vestido, Rafaela afirma que, realmente, muitas noivas têm deixado para a última hora. “Temos uma cliente que vai casar em 2021 e já garantiu a peça que vai usar, mas muitas outras chegam com três ou dois meses faltando. É mais difícil, mas estamos preparadas para os dois públicos. Até porque a gente entende o nível de estresse envolvido no trimestre que antecede a cerimônia.”

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Redress trabalha com produtos de segunda mão em perfeito estado

 

Há quase 30 anos no mercado de festas de Brasília, Fernando Peixoto entende as calças na moda noiva como um fenômeno voltado aos casamentos LGBT. “As uniões entre pessoas do mesmo sexo são recentes. É um mercado que está se abrindo, e muitas marcas querem participar disso. Mas, obviamente, a tendência deve atingir o público feminino como um todo, pois a moda caminha cada vez mais para um mood andrógino”, acredita.

Para o estilista, no entanto, hoje as mulheres se sentem mais livres para fazer suas escolhas, pois a maioria dos casamentos é financiada pelos próprios noivos. “Antigamente, os pais da noiva faziam o casamento, mas agora, muitas vezes, é ela quem banca – principalmente quando falamos do segundo ou terceiro casamento. Nessas situações, elas querem fugir do tradicional, do princesa, o que abre espaço para a modernidade”, conta Peixoto.

Essa independência dos noivos também abriu espaço para outra característica muito observada pelas noivas de hoje: o conforto. “Elas querem cair na pista, dançar e fazer coreografias. Elas estão pagando, então querem curtir como convidadas. Uma cauda enorme e um bordado pesado impossibilitam isso. É onde entra a troca de roupa ou vestidos que se transformam, muito procurados hoje”, relata o empresário, que não aconselha procurar vestidos de noiva na internet.

“Os e-commerces chamam atenção pelo preço, mas eles vendem imagens editadas e produtos de qualidade duvidosa. Não é uma realidade. Eu já atendi noivas que moram em outro estado ou fora do país, mas eu não abro mão de pelo menos uma prova presencial.”

Para se adequar à demanda por preços baixos, o estilista criou bazares semestrais nos quais vende seus produtos com descontos de até 90%. “O mercado mudou. O vestido nem sempre é o protagonista. Para muitas noivas, a festa é o grande sonho. Elas deixam de investir em tudo, menos na festa. Então, na hora de escolher a peça, elas buscam praticidade, preço e qualidade”, finaliza.

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Vestido vendido no bazar realizado pelo designer

 

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Outra peça que o estilista liquidou na promoção semestral

 

Há séculos, literalmente, associamos noivas à imagem das princesas – coque alto, tiara, cintura marcada e saia volumosa. Mas, na medida em que o mundo se reinventa, buscamos ampliar as nossas opções: a noiva de 2020 também veste ternos, macacões e vestidos-calça, ao melhor estilo Julia Roberts.

Colaborou Danillo Costa

SOBRE O AUTOR
Ilca Maria Estevão

Formada em psicologia pela Universidade Georgetown, em Washington (EUA). É apaixonada por moda e acompanha toda movimentação no universo fashion.

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