Ricardo Leal operava em outras áreas do GDF, revela ex-diretor do BRB

Delator disse que o arrecadador da campanha do ex-governador Rollemberg "se gabava" de ser o único a resolver coisas no governo

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atualizado 18/06/2019 7:45

Na delação à qual o Metrópoles teve acesso, o ex-diretor de Gestão de Terceiros da BRB Distrituidora de Títulos e Valores Mobiliários (BRB/DTVM) Henrique Leite Domingues revelou que os tentáculos do ex-conselheiro do banco Ricardo Leal alcançavam outras áreas da gestão de Rodrigo Rollemberg (PSB). Segundo Henrique Leite, ele “se gabava de ser a única pessoa do governo que resolvia as coisas”. A defesa de Leal preferiu não se manifestar e Rollemberg nega influência do arrecadador.

As declarações foram dadas no âmbito da Operação Circus Maximus, que investiga suposto esquema de corrupção no BRB. Segundo as apurações, Ricardo Leal, que foi arrecadador de campanha de Rollemberg, era o líder do grupo criminoso. Além do ex-diretor, o pai dele, Henrique Domingues Neto, fechou acordo de colaboração com o MPF. As delações premiadas foram homologadas na quarta-feira (12/06/2019).

Reprodução/MPF
Trecho da delação de Henrique Leite Domingues

Segundo os delatores, Leal comandava o banco extraoficialmente. O ex-diretor da BRB/DTVM disse que a ingerência passou a ocorrer após Rollemberg se consolidar como líder das pesquisas das eleições de 2014. Os colaboradores do MPF, que também respondem à mesma ação penal, disseram que uma “filial” do BRB funcionava no escritório da Nutriz Comercial de Imóveis, empresa do ex-conselheiro.

Reprodução/MPF
Trecho da delação de Henrique Leite Domingues
Entenda

Segundo a denúncia do MPF, houve pagamento de propina para investimentos em, pelo menos, dois empreendimentos: o FIP LSH (antigo Trump Hotel da Barra da Tijuca) e o FII SIA (empreendimento Praça Capital, desenvolvido pela Odebrecht Realizações e pela Brasal Incorporações).

As investigações indicam que Henrique Neto fazia o elo entre as empresas e o grupo BRB. Ele teria cobrado e recebido, em caixa 2 ou ocultamente, valores milionários de cada investimento de ações feito nos dois fundos. Ele é sócio e gerente da corretora BI Asset Management (BIAM DTVM), onde o filho também trabalha.

De acordo com a Circus Maximus, entre 2013 e 2016, Henrique Leite tinha duplo papel. Ele exercia função primordial na autorização dos investimentos requeridos pelas empresas, na qualidade de diretor de Gestão de Terceiros da BRB/DTVM, com decisiva atuação em prol dos fundos. Ao mesmo tempo que atendia a pedidos do pai e as ordens de Ricardo Leal.

Segundo os termos da colaboração premiada homologada pela Justiça, Henrique Domingues Neto terá que pagar R$ 9,2 milhões; e o filho, R$ 8 milhões. Eles também se submeteram à condenação de penas máximas de 16 e 14 anos de prisão, respectivamente.

Acusados pelo MPF dos crimes de manter organização criminosa, corrupção passiva, gerir fraudulentamente instituição financeira, desviar recursos e lavar dinheiro, Henrique Neto e Henrique Leite poderiam pegar 53 anos de prisão, se levadas em conta as punições máximas previstas para os delitos.

O outro lado

Procurado, Rollemberg negou, em nota, a afirmação de que Leal teria influência no governo. “Em todas as empresas públicas do GDF nomeei os presidentes pela qualificação técnica e sem interferência partidária. Além disso, sempre dei liberdade para que formassem as diretorias com base nesses mesmos requisitos. Nunca interferi nas decisões internas dessas empresas. Se algum desses dirigentes, em algum momento, cometeu alguma irregularidade ou ilegalidade, deve responder pelos seus atos”, declarou o ex-governador.

Advogada dos Henriques, Tathiana de Carvalho Costa detalhou ao Metrópoles os motivos que levaram os alvos da Circus Maximus a procurarem o escritório a fim de fazer a colaboração. “O pai, que tem uma condição frágil de saúde, e o filho, por razões de foro íntimo, foram ao escritório decididos a formar os acordos.”

O Banco de Brasília tem reiterado que “apoia e coopera integralmente com todos os órgãos competentes que conduzem as investigações”.

O defensor do Grupo Brasal, Marcelo Bessa, disse que “a defesa aguarda com serenidade o posicionamento do Poder Judiciário, reiterando que a empresa não cometeu qualquer ato ilícito e que confia plenamente em seus executivos”.

O LSH Lifestyle Hotel afirmou, em nota, que os fatos investigados se referem a um período anterior à atual administração. “Os atuais gestores têm colaborado com a PF e o MPF nas investigações. A direção está comprometida com uma gestão técnica, com o objetivo de, cada vez mais, melhorar a taxa de ocupação e o faturamento.”

A defesa de Ricardo Leal afirmou que não se manifestará sobre o conteúdo das delações.

Circus Maximus

A Operação Circus Maximus foi deflagrada em 29 de janeiro de 2019, mirando a cúpula do banco na gestão de Rodrigo Rollemberg. A ação apura irregularidades praticadas no BRB envolvendo fundos de investimentos, com a atuação de agentes públicos, empresários e agentes financeiros autônomos.

Ricardo Leal, Henrique Neto e Henrique Filho e mais 14 pessoas foram denunciadas à Justiça Federal. Os réus responderão por crimes contra o sistema financeiro, corrupção, lavagem de dinheiro, gestão temerária, entre outros.

As investigações apontam para prejuízos de, aproximadamente, R$ 348 milhões ao BRB, participantes de fundos de pensão e Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), poupadores e ao sistema financeiro nacional. O suposto grupo criminoso teria movimentado R$ 40 milhões em propina.

SOBRE OS AUTORES
Lilian Tahan

Dirige desde setembro de 2015 o site de notícias Metrópoles. É formada em comunicação social pela Universidade de Brasília (UnB), com especialização em jornalismo digital e gestão de empresa de comunicação pela ISE Business School, instituição vinculada à Universidade de Navarra, na Espanha. Antes do Metrópoles, trabalhou por 12 anos no Correio Braziliense e dois anos na revista Veja Brasília. Ao longo da carreira, conquistou prestigiados prêmios de jornalismo, como Esso, Embratel, CNT, CNI, AMB, MPT, Engenho.

Isadora Teixeira

Formada pelo Centro Universitário Iesb, atua como repórter do Metrópoles desde 2017. Na editoria de Cidades, cobre assuntos políticos relacionados ao Distrito Federal

Gabriella Furquim

Formada em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), com experiência em redação, assessoria de imprensa e gestão de comunicação. Atua na área desde 2009. Integrou as equipes de reportagem e edição dos jornais Correio Braziliense e Aqui DF. Em 2014, coordenou a comunicação da Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente, Seção Defence for Children Brasil (Anced/ DCI Brasil), e do projeto internacional Red de Coaliciones Sur. De 2015 a 2017, foi assessora de imprensa do governador de Brasília, Rodrigo Rollemberg.

Caio Barbieri

Cursou jornalismo no Centro Universitário de Brasília (UniCeub). Passou pelas redações do Correio Braziliense, Agência Brasil, Rádio Nacional e foi editor-adjunto da Tribuna do Brasil. Ocupou a assessoria especial no Ministério da Transparência e foi secretário-adjunto de Comunicação do GDF. Chefiou o relacionamento com a imprensa na Casa Civil, Vice-Governadoria, Secretaria de Habitação e na Secretaria de Turismo do DF. Fez consultoria para vários partidos, entidades sindicais e políticos da Câmara Legislativa e do Congresso Nacional. Assina a coluna Janela Indiscreta do Metrópoles e cobre os bastidores do poder em Brasília.

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