Eleições na UnB: confira como foi o 1º debate entre candidatos à Reitoria

Os quatro candidatos ao comando da instituição de ensino de 2020 a 2024 participaram da mesa-redonda realizada nessa quinta-feira (6/8)

atualizado 07/08/2020 11:57

UnB RAFAELA FELICCIANO/METRÓPOLES

Os quatro candidatos à Reitoria da Universidade de Brasília (UnB) participaram, nessa quinta-feira (6/8), do primeiro debate eleitoral. No encontro, que durou pouco mais de duas horas, os postulantes ao cargo de reitor da instituição apresentaram as propostas de cada chapa e discutiram temas sensíveis à comunidade acadêmica, como segurança dentro dos campi e a retomada das atividades em meio à pandemia do novo coronavírus.

Integraram a mesa-redonda, mediada pela jornalista e diretora-executiva do Metrópoles, Lilian Tahan, os cabeças de chapa Fátima Sousa, Jaime Martins de Santana, Márcia Abrahão Moura e Virgílio Caixeta Arraes (veja perfis no fim desta matéria), além dos candidatos à vice-reitoria, exceto o número dois do grupo liderado pela atual reitora, Márcia Abrahão Moura.

No bloco de abertura do encontro, cada candidato teve sete minutos para expor suas considerações. O primeiro a falar, em ordem definida por sorteio, foi o diretor do Instituto de Ciências Biológicas da UnB, Jaime Martins de Santana. “Sou um produto da inclusão social. Se não fosse o Restaurante Universitário e o alojamento, eu não estaria aqui”, afirmou o candidato, ao destacar as políticas de apoio aos discentes em situação de vulnerabilidade como um dos principais projetos do grupo que representa a chapa UnB Pode Muito Mais.

Em seguida, foi a vez do ex-presidente da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB) Virgílio Caixeta Arraes. O professor destacou a formação da chapa encabeçada por ele – Unifica UnB – com representantes dos quatro campi. “Acreditamos na igualdade e na interação entre o campus Darcy Ribeiro e as faculdades do Gama, Ceilândia e Planaltina”, pontuou.

A professora Fátima Sousa, que disputou a eleição para o Palácio do Buriti em 2018, foi a terceira a se apresentar. Ex-diretora da Faculdade de Saúde (FS) da UnB, a candidata elencou prioridades da chapa Tempo de Florescer. “Resgate da autonomia com uma gestão baseada na liderança e no diálogo. Investimento do dinheiro público com transparência e colocar as pessoas em primeiro lugar”, listou.

A quarta candidata a se apresentar foi a atual reitora da UnB, Márcia Abrahão. Ela representa a chapa Somar UnB. Primeira mulher a ocupar o cargo mais alto da instituição, a docente elencou ações de sua gestão e afirmou que o grupo liderado por ela está empenhado em avançar. “Modernização dos sistemas da UnB, redução de ocorrências nos campis, entrega de obras e ações para enfrentar os desafios da pandemia”, elencou.

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Perguntas diretas

No segundo bloco, cada candidato teve a chance de fazer um questionamento a um adversário na disputa eleitoral. A definição de quem perguntaria e quem responderia foi acertada em sorteio prévio. O primeiro foi realizado por Santana e respondido por Márcia. “Durante a última campanha, a senhora prometeu que não iria nomear pessoas de fora, mas não cumpriu. Qual a sua posição sobre a nomeação de pessoas externas para cargos na reitoria em detrimentos de quadros da casa?’, questionou.

Márcia destacou ter buscado preencher a administração utilizando pessoas de dentro da estrutura da UnB. “Não distribuímos cargos com base em critérios não técnicos. Privilegiamos técnicos da UnB. Pela primeira vez, um técnico ocupa um dos mais altos cargos, que é o de decano”, afirmou.

Na réplica, Jaime apontou “incoerência entre a campanha e o que foi feito”. E, na tréplica, Márcia destacou ser importante comparar com as gestões anteriores. “Tivemos um aumento expressivo na quantidade de técnicos nos principais cargos de gestão”.

A segunda pergunta foi feita pela atual reitora para Arraes. “As ocorrências no Darcy Ribeiro caíram 80% e quase zeraram nos outros campi. Retomamos o vestibular indígena. Oferecemos mais bolsas, auxílio transporte para estudantes do Entorno, implementamos cotas na pós-graduação. O que fazer para manter e ampliar esse cuidado?”

O ex-presidente da AdUnB afirmou que “programas avaliados positivamente pela comunidade serão mantidos. “A universidade é permanente: os gestores passam e ela continua. Nossa proposta é acolher e aperfeiçoar”, afirmou.

Na réplica, Márcia destacou que “com a pandemia, tem ficado evidente a importância da UnB para a sociedade” e citou futuras ações, como a implementação de plano de saúde para técnicos e servidores. Na tréplica, Arraes retomou a necessidade de igualdade entre as unidades da UnB. “Queremos ampliar e aperfeiçoar os programas com foco nos quatro campi”.

Em seguida, Arraes indagou Fátima. Ele destacou a vasta experiência da professora na área de saúde e perguntou: “Como a senhora avaliaria o retorno das aulas dentro de alguns dias. Houve um planejamento apropriado?”.

“Estamos deixando muitos para trás. A forma que foi feita foi autoritária, atrasada. Era preciso que esse diálogo fosse feito de maneira tranquila, cuidando da saúde de todos”, respondeu a ex-diretora da FS.

Na réplica, Arraes citou o desabastecimento do Hospital Universitário de Brasília (UnB) e questionou “como garantir um retorno seguro?”. Na tréplica, Fátima destacou projeto de monitoramento de doenças implementado por ela na gestão da FS.

A última pergunta foi feita pela ex-postulante ao Palácio do Buriti a Santana. “O senhor falou em investir na formação dos técnicos administrativos na apresentação. Mas o senhor foi decano de pesquisa. Por que na época não fez o que propõe agora?”

“Tenho muito orgulho de ter participado da gestão do Ivan Camargo, mas não a represento”. Santana também afirmou que quando ocupou o cargo, atuou para garantir formação aos técnicos. “Negociei com cada departamento”, disse.

Fátima, na réplica, destacou que ouviu queixas dos servidores da UnB que ocupam carreiras técnicas. “Não vamos dar as costas”, afirmou. Na tréplica, Santana disse: “Os números estão aí. Foi um trabalho árduo e o resultado foi feliz. As pessoas me agradecem, recebo cartas”.

Vez dos eleitores

No terceiro bloco, os candidatos responderam perguntas enviadas pela comunidade acadêmica. A atual reitora foi a primeira a explanar sobre propostas para cuidados da saúde mental dos integrantes da instituição. “Vamos ter uma central de acolhimento do estudante. A saúde mental envolve, também, esporte, cultura, arte. Estamos reformando as pistas de atletismo do Centro Olímpico. Para os demais campi, estamos fechando uma parceria para reformar as quadras”, afirmou na resposta.

Fátima foi a segunda a responder. Ela foi questionada sobre a presença, em sua chapa, de “docentes que estavam alinhados ao atual governo”. “Como defender a universidade dos ataques do governo federal?”, continuou o questionamento. A pergunta foi respondida pela candidata a vice-reitora, Elmira Simeão. “A UnB é um espaço plural e não podemos deixar que uma narrativa contra a ciência desconstrua a história da universidade. Não podemos permitir que a UnB entre em um processo de desconstrução de seu patrimônio”.

Arraes foi questionado sobre o seu posicionamento em relação à abertura de processos administrativos (Pads) como instrumento de gestão. “Está previsto em lei. Claro que resguardando o amplo direito ao contraditório e à defesa. Tanto os processos administrativos como as sindicâncias estão previstos e nada tem a ver com diretrizes de uma chapa ou outra, são instrumentos técnicos”, destacou.

A pergunta seguinte foi feita a Santana: “A administração demorou quatro meses para orientar a comunidade acadêmica sobre o retorno. O que o senhor fará?”. O diretor de Ciências Biológicas da UnB diz ter feito estudos de melhores práticas no mundo em relação a estratégias para conter a disseminação do novo coronavírus. “Propomos um protocolo de higienização, acesso seguro e readequação dos ambientes”, pontuou.

Foi, então, a vez da atual reitora responder novamente: “Medidas controversas como a derrubada da agrofloresta, pintura das paredes de cinza, retirada dos portões do ICC e fim das pracinhas foram colocadas na conta da prefeitura. Como se deu e como será o diálogo com a prefeitura?”. Márcia reconheceu a poda das árvores como um equívoco. “Já resolvemos com os estudantes para tombarem o espaço e ampliarem a agrofloresta”, disse.

Em seguida, Fátima foi questionada: “A professora Márcia criou o Conselho de Direitos Humanos, Qual sua opinião sobre o trabalho? Qual seu posicionamento sobre os ataques do ex-ministro da Educação?” Fátima afirmou que “o MEC não fez um ataque pessoal à professora Márcia, mas ao projeto de universidade pública. A UnB precisa mais do que de uma gestora, mas de uma liderança que vá para espaços de debate”.

Arraes também foi questionado sobre os embates entre a atual reitora e o ex-ministro Abraham Weintraub: “Qual seu posicionamento sobre os ataques sofridos pela professora Márcia?” “Somos solidários, defendemos o diálogo, o respeito e a tolerância. Nenhuma instituição moderna pode admitir qualquer ofensa a qualquer servidor. Não temos partido”, afirmou Arraes.

Em seguida, foi a vez de Santana responder aos questionamentos da comunidade acadêmica: “Se a chapa não for eleita, o senhor apresentará o nome ao Consuni e aceitará a nomeação pelo [presidente Jair] Bolsonaro?”. A eleição para reitoria não é definitiva, o nome do escolhido compõe lista tríplice para escolha do presidente. “Não. Lutei pela redemocratização da UnB. Defendo o processo democrático”, respondeu.

Encerradas as perguntas, cada candidato teve cinco minutos para finalizar sua participação. Ao encerrar o debate, Lilian Tahan destacou a importância da adesão dos técnicos, professores e alunos ao processo de escolha. “Entre as instituições de ensino mais respeitadas no mundo, a UnB exerce papel fundamental na sociedade. Produz conhecimento que repercute dentro e fora do Distrito Federal. Que o destino dessa prestigiada universidade esteja sempre em boas mãos”, afirmou.

Próximos debates

O primeiro turno da eleição contará com mais três debates, marcados para os dias 12 (10h30), 18 (18h30) e 24 de agosto (14h).

Pela primeira vez na história da UnB, a votação para a escolha de reitores e vice-reitores será feita por meio virtual. A consulta será realizada nos dias 25 e 26 de agosto pela internet, por causa da pandemia do novo coronavírus.

Alunos, técnicos e docentes podem opinar no processo de definição de reitor e vice-reitor. Os critérios para participar constam no site consultaunb.com.br.

A previsão é de que o resultado seja divulgado em 11 de setembro, após o segundo turno, marcado para 8 e 9 do mesmo mês. A indicação final é realizada pelo Ministério da Educação.

Caso ocorra 2º turno, serão realizados novos debates. O primeiro será em 1º de setembro, às 18h30. O segundo, no dia 7 do mesmo mês, às 15h.

Chapas

Quatro chapas participam da corrida eleitoral pela reitoria da UnB para o quadriênio 2020/2024.

Confira:

81: Unifica UnB, dos professores Virgílio Arraes e Suélia Fleury

83: Tempo de Florescer, das professoras Fátima Sousa e Elmira Simeão

86: Somar, da atual reitora, Márcia Abrahão, e do vice-reitor, Enrique Huelva

89: UnB Pode Muito Mais, dos professores Jaime Santana e Gilberto Lacerda

Conheça os candidatos

Fátima Sousa é professora associada do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências da Saúde (DSC/FS) e atua na pós-graduação em Saúde Coletiva e Ciências da Saúde. Pelo PSol, disputou o Governo do Distrito Federal (GDF) na eleição de 2018. Teve 65.648 votos.

Foi diretora da FS de 2014 a 2018. Criou e coordenou o Mestrado Profissional em Saúde Coletiva. Participou da implantação do campus da UnB em Ceilândia.

 

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Jaime Martins de Santana é diretor do Instituto de Ciências Biológicas da UnB e foi decano de Pesquisa e Pós-Graduação da instituição. É biólogo com mestrado em biologia molecular pela Universidade de Brasília e com doutorado em patologia molecular, pela UnB e Universidade de Poitiers-França.

Martins prestou serviço gratuitamente à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em dois projetos. Em um participou do grupo de trabalho para análise e classificação dos cursos de pós-graduação e, no outro, atuou em iniciativas de internacionalização de parcerias.

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Márcia Abrahão Moura é a primeira mulher a ocupar o cargo de reitora da Universidade de Brasília. Foi decana de Graduação e coordenou o Reuni, programa de reestruturação das universidades federais, na instituição. No período, foram criados 36 cursos de graduação na UnB, muitos deles noturnos.

Atualmente, Márcia coordena a retomada das aulas na UnB, no modelo remoto. Durante sua gestão, a universidade puniu com expulsão, anulação de créditos e cassação de diplomas 25 estudantes acusados de fraudar o sistema de cotas raciais.

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Virgílio Caixeta Arraes é graduado, mestre e doutor em história pela UnB e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Sua produção tem ênfase nos Estados Unidos.

Ocupou o posto de presidente da Associação dos Docentes da UnB (ADUnb) entre 2016 e 2018, sendo vice-presidente da instituição no biênio anterior.

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