Minha noite literária com o delicado discurso de Kazuo Ishiguro

Proferido na entrega do prêmio Nobel, texto revela com quantas descobertas narrativas se faz um tolerante escritor nipo-britânico

Ian Gavan/Getty ImagesIan Gavan/Getty Images

atualizado 23/10/2018 16:25

Caem sob meus olhos, por mãos generosas, as 50 e poucas páginas, em formato pocket, do discurso de Kazuo Ishiguro pronunciado na cerimônia de entrega do Nobel, em Estocolmo, em dezembro de 2017. Como não haverá prêmio este ano, volto no tempo para render-me à limpidez da visão do autor de Os Vestígios do Dia (ou Os Resíduos do Dia, em edição-tradução mais recente).

Sempre fui mais pras bandas de Ian McEwan, Martin Amis e Julian Barnes (nessa ordem) do que Salman Rushdie e Ishiguro, para ficar no quinteto que turbinou a literatura inglesa nos anos 1980 e 1990. Quer dizer, mirei com mais atenção uma literatura mais britânica e menos multicultural. Confessada a falha, acompanho a prosa elegante do mais novo do time, hoje com 64 anos.

No discurso do Nobel, intitulado Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços e publicado recentemente pela Companhia das Letras, Ishiguro revela os momentos cruciais da deliciosa descoberta da capacidade para escrever romances. E ele encontrou essa “força”, “ato urgente de preservação”, essa “energia tão peculiar”, no Japão da mais tenra infância, em Nagasaki, onde nasceu.

Assim surgiu a estreia: Uma Pálida Visão dos Montes. Antes do assim, o escritor conta da integração na Inglaterra, a partir dos cinco anos. O único japonês da escola, o único estrangeiro do bairro. Em casa, outra língua, outra cultura. A ideia de imigrar sempre postergada pelos pais. O Japão transforma-se naturalmente em mundo ficcional, contraste interior com a vida lá fora.

“Quando me lembro desse período, e recordo que isso foi menos de vinte anos depois do fim da Guerra Mundial na qual os japoneses tinham sido seus ferrenhos inimigos, fico surpreso com a generosidade e a receptividade que a nossa família teve nessa trivial comunidade inglesa.” Ishiguro vai se transmutando num inglesinho de classe média. Pontual, educado e… famoso.

Era reconhecido pela diferença. Essa marca parece ter migrado para a literatura que foi aos poucos aparecendo. De data em data, o discurso do Nobel recupera cenas da formação do escritor. Na primavera de 1983, ele descobre que a literatura precisa oferecer uma experiência distinta do cinema e da televisão, “algo que as outras formas não foram capazes de realizar”.

Em março de 1988, ao som de Tom Waits, ele bola Os Vestígios do Dia, passaporte para ganhar o mundo e descobrir o poder da música sobre seu texto literário: a emoção na voz de um cantor captura um sentimento “complexo e insondável” que há de ser demonstrado por uma cena. Com o perdão da sonoridade, ele passa a se sentir menos inseguro. Encontra a escrita na cantoria.

E o discurso segue por encanto, lido de um só fôlego, em noite suavemente alcoólica, atravessada por campos alemães de extermínio que Ishiguro conheceu em outubro de 1999, aos 44 anos. Agora é o momento de se perguntar sobre esquecimento e memória. “Uma nação se lembra ou se esquece da mesma maneira que um indivíduo?” Como escrever sobre isso?, questiona-se.

O autor de Não Me Abandone Jamais passa, então, a pensar nos personagens. Ou melhor, descobre que o melhor é estruturar suas narrativas em torno de relacionamentos entre personagens. É o que ele chama de “reviravoltas” na carreira de escritor. Com o transcorrer do tempo, pequenas epifanias se instalam para espanto daquele que pensava saber escrever.

O desfecho otimista do texto de Ishiguro é um convite à compreensão do que não somos. “Neste instante, parece que não temos nenhuma causa progressiva capaz de nos unir”, descreve. “Ao invés disso, até mesmo em democracias ricas do Ocidente, estamos nos fragmentando em campos rivais que competem amargamente por recursos ou poder.” Alguma semelhança coincidente?

O fim se constitui também num pedido de abertura para outras formas de conceber a literatura e, com isso, outros modos de abarcar culturas diversas e as novas gerações. “Em uma época cuja polarização está aumentando perigosamente, precisamos escutar.” Vamos, assim, ouvir a voz sussurrada de um escritor que canta, de um cantor rouco que espera nos braços de Ruby:

The morning light has washed your face
And everything is turning blue now
Hold on to your pillow case
There’s nothing I can do now

SOBRE O AUTOR
Sérgio de Sá

Doutor em estudos literários e autor do livro A Reinvenção do Escritor, o jornalista brasiliense Sérgio de Sá é professor na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Escreve sobre livros e literatura há mais de 20 anos.

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