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Se você gosta de livrarias, saia correndo para comprar Livrarias, do espanhol Jorge Carrión. Um espetáculo. Publicada pela Bazar do Tempo, trata-se de “uma história da leitura e de leitores” destinada a viciados, apaixonados e interessados.

Carrión escreveu o guia de viagem perfeito para o turista que se emociona apenas com a visão parcial de letreiros anunciando a existência de um lugar onde livros são expostos e podem ser manuseados e levados embora.

É inevitável a comparação com a biblioteca, de aura mais nobre: coleção pública, pesada, tradição, patrimônio, acúmulo, passado. “A biblioteca é sólida, monumental, está ligada ao poder, aos governos municipais, aos Estados e seus exércitos.”

A livraria: coleção particular, leve, presente, trânsito, passagem. “A livraria, por outro lado, é líquida, temporária, dura o espaço de sua capacidade de manter com mudanças mínimas uma ideia no tempo”, compara Carrión.

As mais de 250 páginas do livro mexem mesmo com a memória emocional do leitor, como aposta Ricardo Piglia. Não apenas o viajante, mas também o habitante, que examina os espaços de formação proporcionados pelos livreiros.

Em Brasília, sinto saudade imensa da Casa do Livro, que nos deu obras importadas quando não havia encomenda fácil, nos deu a inteligência generosa do querido Wilson Hargreaves em conversas de tardes inteiras, nos deu sobrevida.

Amigos lembram da Galilei, também no Conic, ponto de encontro da esquerda local. E Presença, Eldorado, a sempre surpreendente Livraria da Rodoviária. Encontros e achados para o jovem leitor à procura de literatura brasileira contemporânea, em busca da última preciosidade resenhada no suplemento cultural do fim de semana.

Ainda o caos delirante do Chiquinho, cravado no Ceubinho da UnB desde os anos 1980. Mais recentemente, Café com Letras, Rayuela e a disposição para o diálogo travado entre a peculiar colocação dos volumes nas estantes da deliciosa Esquina da Palavra, de Lourenço Flores. Sebinho e Pindorama, porque não se pode deixar de fora livros usados, menos pelo valor de venda do que pelas marcas do leitor anterior.

No momento em que a Livraria Cultura (leia-se também Fnac) ameaça desaparecer, aumenta a apreensão pelo futuro da exposição-circulação do objeto no país. “A livraria é uma crise perpétua, sujeita ao conflito entre a novidade e o acervo, e precisamente por essa razão se situa no centro do debate sobre os cânones culturais.”

Como chegar a esse acervo se dependermos exclusivamente da internet? E como perder a dica fora da decisão de um algoritmo? Cheiro, capa, cor? Carrión observa que as livrarias livrescas “insistem no contato pessoal, na plenitude dos sentidos, na única coisa que a internet não pode nos oferecer”. Uma posse no presente, por observação direta.

Em primeira pessoa, entrelaçando a mais preciosa apuração jornalística com impressões de viagem, Carrión narra e conceitua, descreve e desperta significado, documenta e prova.
Ele entrevista, conversa, recorda passagens de livros de ficção e não-ficção. De quebra, a edição nos oferece citações calorosas sobre o tema. Do Brasil, guarda referência afetuosa à livraria Leonardo da Vinci, no Rio.

Dividido em 15 partes, Livrarias tem um curioso caráter enciclopédico, que aparece no sumário por meio de muitos intertítulos não reencontrados no correr das páginas. São como lombadas que o leitor vê, matuta e decide se puxa ou não o livro para exame mais detalhado. Nesta obra-estante, ao tatear e degustar, o leitor experimenta a possibilidade da livraria total.

Não quero pensar no que diria Jorge Luis Borges. Para fechar, noto apenas o parágrafo final, em que Jorge Carrión recorda o conto “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector, e a personagem invejosa da garota cujo pai era dono de uma livraria. O sentimento de paternidade (ou maternidade) está no livro que muda de lugar. É nosso, mas sabemos: nunca será para sempre. Alegria e dor.



 


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