Donna Leon propõe viagem a Veneza com o comissário Brunetti

Livros do detetive criado pela norte-americana são convite irresistível para andar dentro dos canais imaginários da realidade italiana

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atualizado 16/10/2018 23:50

A tensão e a ressaca das eleições me fizeram dar uma pequena pausa e querer voltar a um lugar confortável que eu vinha frequentando desde o verão passado. Retornei à Itália na companhia do comissário Guido Brunetti. Uma vez mais, mergulhei nas sujas águas venezianas do crime e da corrupção.

Os romances de Donna Leon foram a minha melhor série literária do início do ano até agora. Livro a livro, de lombada colorida em lombada colorida, deixei o automóvel em casa e andei por ruas muito históricas e perenes, pensando na solução para um ou outro assassinato.

Desde Morte no Teatro La Fenice, de 1992, a autora norte-americana entrega com regularidade histórias desse charmoso policial transcorridas na cidade conhecida por palácios, praças, pombos – e gôndolas. Donna Leon oferece a chance de entrar na sua intimidade.

Cada volume coloca a cena entre a questura de Veneza e a casa do comissário, onde encontramos sua mulher, Paola, e os dois filhos, Raffi e Chiara. Numa das mais turísticas paisagens do mundo ocidental, tomada por clichês, não é um feito literário qualquer fazer o leitor se sentir em casa, sensação entremeada por incursões a cidades próximas a Veneza.

No meio do caminho, a pedagogia da história cultural alcança uma naturalidade invejável. Ao contrário de muita ficção brasiliense (para ficar no exemplo mais próximo e óbvio), as marcas urbanas, os monumentos não aparecem o tempo inteiro para suplicar: “Você está em Veneza, viu?”.

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Autora norte-americana Donna Leon

 

Assim, ler as investigações de Brunetti nos permite, sem artificialismos visíveis, fazer passeios de barco para compreender as vicissitudes de indivíduos submetidos a uma cultura bastante tradicional que se vê constantemente ameaçada pelas novidades do contemporâneo mundo terreno.

São navegações em águas de estrutura literária tranquila, estáveis. O importante é seguir o pensamento em direção à solução do enigma, cuja resolução normalmente nasce da compreensão profunda de Brunetti acerca da sociedade italiana, suas máfias, seus mistérios.

Digo “série” porque se trata efetivamente de uma “série de mistério” que faz sucesso no mundo todo, mas também para traçar um paralelo com a experiência audiovisual comum aos tempos atuais. São nove livros publicados no Brasil, de um total de 27. Não dá vontade de desgrudar o olho.

Nessa produção anual, Donna Leon sabe deixar aquele gostinho de quero mais. Muitas vezes, literalmente. Explico: assim como o compatriota Salvo Montalbano (criação do mestre Andrea Camilleri) e demais detetives glutões (Nero Wolfe e outros garfos), Guido Brunetti adora estar à mesa. Andar, beber, comer. Algo melhor para fazer?

Investigar e solucionar, claro. Alimento também para a imprensa, outro ponto de interesse e conflito nas relações estabelecidas pelo nosso policial, homem culto, cultivado na leitura de livros e jornais. Informa-se e lamenta o estado das coisas. Se você acha, por exemplo, que as instituições funcionam mal aqui, experimente a Itália.

Por onde, portanto, começar? Teria seguido a ordem cronológica dos lançamentos originais, se tivesse tido essa ideia antes… Os volumes, de todo modo, “funcionam” em separado. Donna Leon, que viveu em Veneza, tem uma mão ótima para a continuidade interna e externa aos relatos.

Por fim, e voltando metaforicamente ao começo, fiquei pensando se as peripécias de Brunetti não eram leitura de uma só estação: calor para um leitor preguiçoso e melancólico. Encontrei outras perguntas. Por que temer a exposição voluntária ao prazer do reconhecimento na narrativa? Por que toda viagem precisa ser uma experiência insubstituível? Por que o novo é sempre melhor?

Que nada. Dá licença, pois Guido está à minha espera para um cappuccino e uma grappa como desfecho entorpecente e imperfeito para a tempestade que se aproxima.

SOBRE O AUTOR
Sérgio de Sá

Doutor em estudos literários e autor do livro A Reinvenção do Escritor, o jornalista brasiliense Sérgio de Sá é professor na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Escreve sobre livros e literatura há mais de 20 anos.

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