Aniversário de vida e morte de Steinbeck

O colunista volta a O Menino e o Alazão, livro do norte-americano John Steinbeck, prêmio Nobel de literatura que morreu há 50 anos

Peter Stackpole/The LIFE Picture Collection/Getty ImagesPeter Stackpole/The LIFE Picture Collection/Getty Images

atualizado 26/02/2019 17:43

John Steinbeck nasceu em 27 de fevereiro de 1902. Constato esta leve efeméride no calendário do celular e ganho uma coluna com cara de autobiografia, para a qual peço licença. Porque o norte-americano Steinbeck é, muito provavelmente, a minha “cena de leitura” primordial. Explico: aos 10 anos, ganhei de presente da minha avó Hilda um exemplar de O Menino e o Alazão, editado pela Record, com tradução de Ruy Jungmann. “Para o Sérgio, da Vovó. Brasília, 80.” Minha vida nunca mais seria a mesma.

Lembrava-me vagamente de pontas de tristeza naquela leitura longínqua. De vez em quando, ao longo dos anos, eu soprava a poeira do livro na estante da casa paterna. A ilustração da capa da edição brasileira indicava, desde sempre, que algo ali dentro daquela história não tinha mesmo dado certo. De olhos fechados, o garoto recosta-se no pescoço do cavalo. Sob a boca, a mão parece dar e receber afago do animal. Cabeça baixa, podemos supor que seus olhos também se fecham. Cabelo de um, crina do outro.

O leitor sabe que não é fácil voltar a leituras marcantes. Medo de se reencontrar. Temor da decepção. A obra “aguenta” a releitura? Melhor deixá-la na caixinha da boa e da má lembrança das reticências… Desta vez, entretanto, a falta de assunto (à moda de um cronista) me levou a The Red Pony, para compartilhar o título original. E a memória mostrou-se implacável já na história que abre o livro, O Presente: atmosfera infinita de dor humana na presença adulta da morte. Obrigado, vó, pelo embrulho, pela lição.

A força das cenas literárias me tirou do fácil para colocar no sério. Vale um trecho de quando o garoto Jody luta com um abutre: “O primeiro golpe quebrou-lhe de lado a lado o bico, jorrando o sangue dos cantos retorcidos da boca coriácea. Bateu novamente e errou. Os vermelhos olhos intimoratos ainda o fitavam, impessoais, indiferentes, desligados. Atacou novamente, e mais uma vez, até matá-la, até transformar-lhe a cabeça em polpa vermelha. Batia ainda na ave quando Billy Buck puxou-o e segurou-lhe firmemente para acalmar-lhe os tremores”.

Que me importava antes e que me importa agora se esse livro é desimportante dentro da obra do autor de As vinhas da ira, prêmio Nobel de literatura? Aquele mundo rural californiano era também a fazenda goiana do menino brasiliense, no tempo infantil da leitura. O mesmo carrapato nojento, o mesmo porco a ser morto, a mesma ave de rapina à espreita, a mesma fidelidade canina. E totalmente distinta e distante, porque linguagem literária. Ainda assim, a angústia do protagonista cresceu na pele alheia.

O realismo de Steinbeck e seu olhar para as relações de trabalho na região da pequena cidade de Salinas estão nos textos que compõem O menino e o alazão, nunca mais reeditado por aqui, infelizmente. Quatro histórias trazem Jody, seus pais (senhor e senhora Tiflin), o vaqueiro Billy Buck, o velho mexicano Gitano e os cães Doubletree Mutt, “de cauda grossa e olhos amarelos”, e Smasher, “que matara um coiote e perdera uma orelha na luta”. O último é um conto ainda mais independente do restante, Junius Maltby.

Nos 50 anos da morte de John Steinbeck (20 de dezembro de 1968), foi bom voltar a essas narrativas breves, publicadas originalmente em periódicos, na década de 1930. São face e coração de um projeto literário “a leste do Éden”, no qual a francesa Claude-Edmond Magny constatou impessoalidade e determinação sociológica e o inglês Malcolm Bradbury enxergou um “biologismo otimista”. Projeto, diga-se ainda, que forjou parte da cultura, da identidade dos Estados Unidos no século 20.

No caso trágico do nosso pônei de nome Gabilan, encravado na memória, o sentimentalismo que até hoje desagrada parte da crítica fez, na verdade, apertar o nó da garganta de um neto convocado à literatura. A galope e lágrima.

SOBRE O AUTOR
Sérgio de Sá

Doutor em estudos literários e autor do livro A Reinvenção do Escritor, o jornalista brasiliense Sérgio de Sá é professor na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Escreve sobre livros e literatura há mais de 20 anos.

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