E se o VAR não existisse?

Em mais uma rodada repleta de revisões, o árbitro de vídeo se destacou como salvador dos árbitros

Pedro Chaves/AGIFPedro Chaves/AGIF

atualizado 27/05/2019 19:55

Até a sexta rodada, o Brasileirão já acumula 30 mudanças de decisões com o VAR. Ou seja, se o recurso não existisse, haveria um erro claro a cada dois jogos. Média muito alta. Provavelmente as posições na tabela seriam outras e as reclamações com a arbitragem seriam o grande destaque do início da competição. Para se ter uma ideia, durante a última Copa do Mundo, a cada 10 partidas, três lances foram alterados pelo VAR. No Brasileirão, a média de mudanças sobe para cinco. Mas por que os árbitros estão errando tanto?

A possibilidade de rever a imagem e de trocar a decisão está deixando a arbitragem dentro de campo mecanizada. Os profissionais deixaram de apitar por feeling, instinto e experiência para trabalhar com medo de errar.

Somente nesse final de semana, tivemos sete mudanças de decisão em oito jogos. Isso só mostra a dependência das imagens de vídeo. Parece que quem está apitando é o árbitro dentro da cabine.

Vamos analisar as principais intervenções da última rodada:

Botafogo 0 x 1 Palmeiras
O VAR foi decisivo para a vitória do Palmeiras. O árbitro só marcou corretamente a penalidade do Gabriel em cima do Deyverson devido à imagem à beira do campo. Esse jogo ainda está dando o que falar mesmo após o apito final. O Botafogo alega que a revisão foi indevida e quer a anulação da partida. Isso porque, após o suposto pênalti, o goleiro Gatito já havia reiniciado o duelo, portanto, o lance não poderia ser revisado.

O que diz o protocolo? Que o jogo não pode ser reiniciado enquanto está na revisão. Se o árbitro autorizar a continuação, a revisão só pode ser feita para lances de conduta violenta e identificação de jogadores, o que não foi o caso. Ou seja, a decisão agora é do tribunal. O áudio precisa ser divulgado para dar credibilidade ao VAR. Na Espanha, Diego Costa foi punido com base na divulgação de áudios. Tomara que os jogadores não adotem a tática de reiniciar logo a partida para evitar revisões.

Reviravolta no jogo Grêmio 1 x 0 Atlético-MG
Geromel marcou o gol, mas o árbitro Rafael Traci apitou antes. Ele viu falta a favor do Galo, em cima de Zé Welison. Mas as imagens mostraram que Zé Welison coloca a mão na bola: portanto, penal. A decisão foi corretamente alterada, mas mostra como a visão dentro de campo da mesma jogada pode gerar diversas interpretações. Mais um ponto para o VAR!

Santos 0 x 0 Inter 
As intervenções do VAR também ficaram empatadas. Foi uma para cada lado. Primeiro, a confirmação de que Guerreiro estava impedido no gol do Inter. E o penal, corretamente anulado a favor do Santos, de Cuesta em Rodrygo.

Flamengo 3 x 2 Athletico-PR 
Jogo emocionante, com duas intervenções do VAR. A primeira foi no pênalti do goleiro Santos em cima do Gabigol. O árbitro marcou e o VAR chamou para rever. Na minha interpretação, a ação do goleiro não foi faltosa, pois quem busca o contato é o atacante do Flamengo. Mesmo após rever o lance, o árbitro manteve a penalidade. Na segunda intervenção, o árbitro marcou corretamente o pênalti de Bruno Henrique em Madson. Se até com VAR há erro, imagina sem?

Bahia 3 x 2 Fluminense 
Em uma disputa dentro da área do Bahia, o VAR sugeriu a revisão do lance, e o penal a favor do Bahia foi marcado, por mão de Gilberto. Durante a cobrança, apesar de a equipe baiana ter desperdiçado a penalidade, o VAR mandou voltar. Isso porque o goleiro Agenor se adiantou bastante, tomou o segundo amarelo e foi expulso. Duas decisões acertadas. Se fossem ignoradas, poderiam ter mudado o resultado do jogo.

Corinthians 1 x 0 São Paulo 
Hernanes, do São Paulo, seria expulso se não fosse o VAR. Isso porque o árbitro achou que ele acertou em cheio o rosto de Sornoza, que antes havia feito falta no atleta tricolor. O árbitro corretamente voltou atrás e deu apenas o amarelo.

Essa rodada deixou bem claro a “VARdependência” dos árbitros que estão dentro de campo e a quantidade de decisões equivocadas que eles vêm tomando. Graças à tecnologia, esses equívocos estão sendo corrigidos. Mas não se enganem, o VAR não foi criado para ser usado toda hora. Se isso está acontecendo, alguma coisa está errada.

SOBRE O AUTOR
Fernanda Colombo

Natural de Criciúma (SC), mora no Rio de Janeiro (RJ). Formada em educação física com especialização em jornalismo esportivo. Ex-bandeirinha da CBF aspirante à FIFA. Escritora, apresentadora e comentarista de arbitragem.

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