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Essa aqui é uma história pessoal. Não minha, mas da minha irmã.

Em outubro do ano passado, ela sofreu uma batida de carro boba. Dando ré em um estacionamento, o sujeito forçou passagem e bateu na traseira do carro dela. O rapaz estava evidentemente errado, mas, mesmo assim, foi supergrosseiro. Claro, né? Mulher sozinha, em uma situação dessas, infelizmente, acaba mesmo sendo terreno fértil para que os mais toscos (e como tem toscos por aí!) aproveitem e “cresçam” para cima.

Minha irmã não é casada e, atualmente, nem namorado tem. Vem sendo meio maltratada pela vida (leia-se, por homens) nesse sentido. Então, toda a confusão, especialmente a grosseria do rapaz, acabou doendo nela mais do que o normal.

O prejuízo para consertar o carro não foi tão alto assim, mas ela quis porque quis entrar na justiça. Eu a desaconselhei – não queria vê-la sofrer mais; queria que esquecesse. Ela insistiu, foi atrás, se informou, foi no fórum, protocolou petição. Veio a audiência de conciliação, que a deixou nervosíssima, mas fez questão de ir sozinha. O moço, de novo, a tratou com desdém.

Hoje ela me acorda com um telefonema para dizer que a juíza do caso a tinha entendido, que a sentença tinha sido publicada e ela tinha ganhado a causa! Pensem na felicidade de uma pessoa. Pensem na felicidade de uma mulher que sofre uma situação de humilhação – que não deixou de acontecer ou aconteceu, justamente, por ser ela uma mulher. Não tinha me contado, mas todo dia entrava no site do tribunal para ver se a sentença já tinha saído. Esperava, com ansiedade, pelo o que a juíza diria de tudo aquilo.

Fiquei feliz por ela, que vai ter seu dano indenizado (e não só patrimonial, que foi o de menos), mas fiquei mais foi reflexiva sobre a nossa missão de juiz e de juíza, sobre essa voz que podemos (devemos) levantar e emprestar a quem, em uma dada situação, seja por preconceito, machismo, desigualdade e tantas outras causas, simplesmente não conseguiu falar – e, se conseguiu, não foi ouvido. Essa palavra que nos é concedida para que venhamos a dizer quem nos pareceu, no caso, ter mais razão. Pode não parecer muito, mas às vezes, para alguém, é tudo.

Um caso simples, uma batida de carro, pouco prejuízo. Mas questões muito maiores, muito maiores mesmo, envolvidas. Às vezes nós, juízes, nos embrenhamos tanto nas mil e uma coisas do dia a dia (processo eletrônico para domar, estatística para correr atrás, problemas com servidores…) que perdemos de vista esse essencial tão lindo da tarefa que nos confiaram: fazer justiça (ou se aproximar dela o máximo possível) e aliviar os injustiçados. Eu disse lindo? Lindo é pouco.

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