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Uma coisa que um juiz logo aprende é que, na lida com o ser humano, se deparar com muita coisa engraçada é inevitável. Lembro que quando passei no concurso, meu grande medo era chorar em audiência. Rápido descobri que o difícil, difícil mesmo, não é segurar as lágrimas – ou deixar que rolem; o mais terrível é segurar o riso – ou improvisar a partir dele.

A história a seguir aconteceu com minha amiga/colega Thaissa Guimarães. Com a autorização dela, conto aqui por ser uma das mais cômicas que já ouvi nesses anos de Tribunal.

O caso era de reconhecimento de união estável post mortem, ou seja, um pedido de constatação de que um casal viveu em união estável depois da morte de um deles. No caso, quem tinha falecido era a senhora, depois de mais de 50 anos de vida em comum com o senhor ali presente em audiência.

Ouvidas as testemunhas, não havia dúvidas de que os dois realmente tinham vivido juntos durante todos aqueles anos. Caso fácil e sem muito o que estender. A promotora deu o parecer dela pelo reconhecimento da união estável oralmente e a juíza então se animou a dar a sentença também na hora.

Ao final, explicou para o senhor que já estava tudo finalizado na Justiça. Ele poderia ir para casa, pois o problema tinha sido resolvido.

Ele então se emociona dizendo que tudo tinha sido bem mais rápido do que imaginara e que aquilo era muito bom porque ele e sua esposa, Margarida, estavam agora mais tranquilos.

Ao dizer isso, com lágrimas nos olhos, olhou para a cadeira ao lado, vazia (até então), e sussurrou algo incompreensível.

Voltou-se para a juíza e disse: “Doutora, a Margarida está aqui dizendo para eu lhe agradecer em nome dela. Ela se diz muito feliz por ter sido a senhora a juíza do nosso caso e por ter trabalhado tão bem.”

Sem ter ideia de como reagir àquilo, e totalmente desconcertada, minha amiga conta que se concentrou nos olhos do senhor e disse, com a cara séria, que estava muito satisfeita com a alegria e a paz de Dona Margarida.

Em seguida, o senhor acrescentou com o rosto resplandecente: “Pode falar diretamente com ela, doutora. Ela te escuta e quer ouvir a senhora.”

Achando que poderia soar grosseiro não respeitar a crença da parte, a juíza não titubeia. Mira a cadeira vazia, e solta: “Dona Margarida, muito bom saber que a senhora está melhor por causa do nosso trabalho. Pelo o que percebi na audiência, todos sentem muito a sua falta, a senhora deve ter sido uma grande pessoa nesta vida. Espero que esteja muito bem.”

Na sequência, a promotora também quis dar a palavrinha dela com a falecida e, assim, terminada a audiência, o senhor se levanta e sai da sala, dando um tchauzinho para elas, mas não sem antes parar diante da porta, abri-la, olhar para a cadeira e dizer: “Vamos, Margarida, já acabou a audiência.”

Justiça
 


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