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O senador Cristovam Buarque (PPS-DF) é reconhecido como grande especialista em educação. Desde o cargo de reitor da Universidade de Brasília (UnB), o parlamentar se dedica ao tema com profundidade – seja em projetos desenvolvidos no período como governador de Brasília, como o Bolsa-Escola, seja no trabalho no Congresso Nacional.

As ideias de Buarque para políticas públicas de educação são amplamente conhecidas. Mas ninguém conhece seu lado educador dentro de casa. Como Cristovam educou os filhos? E como tem ajudado na formação dos netos?

O senador enfrentou dificuldades em participar do dia a dia de suas filhas, assim como todos nós, pois seu trabalho sempre exigiu muito dele. Conhecer um pouco de sua visão diante dos desafios enfrentados enquanto pai e educador é esclarecedor. O político vê a tecnologia como um grande desafio para os pais de hoje e avalia que ela também precisa ser compreendida. Confira essa e outras ideias na entrevista abaixo.

 

Como o educador Cristovam educou seus filhos?
Me dediquei tanto à educação geral do Brasil que investi menos tempo do que deveria à educação das minhas filhas. O trabalho como reitor, por exemplo, foi em uma fase na qual elas estavam precisando muito de acompanhamento e eu trabalhava 24 horas por dia. Tive a sorte de elas terem uma mãe muito atenta. Ela frequentava a escola, conversava com os professores, exigia das meninas. Não foi uma educação dessas liberais do ponto de vista de aula, não: teve muita exigência. Buscava complementação, curso de inglês, curso de ginástica… essas coisas. Como não existia horário integral escolar naquela época, precisávamos ter complementação.

Como era a conversa de vocês sobre as notas na escola?
A preocupação maior era antes das notas. Mais com o dever de casa, com a preparação para as provas, do que depois, na hora das notas. Quando vinham as notas, se não eram boas, manifestávamos preocupação. Mas o foco era no momento anterior às provas e às notas, para estarem preparadas. E nem sempre tiravam notas boas. (risos)

Eu ia perguntar isto: eram boas alunas?
Médio. Eu não diria que eram más alunas, mas gostaria que tivessem sido melhores.

Quais são as diferenças entre os desafios dos pais de hoje e os pais de 40 anos atrás?
Os maiores desafios de hoje são a internet e a atração do celular, do computador e da TV. A televisão daquela época tinha três, quatro ou cinco canais. Hoje, você tem centenas de canais e ainda a Netflix; você ainda tem a possibilidade de interagir com o computador e a televisão. De tal maneira que o maior adversário da educação hoje – e deveria ser o maior aliado – é a internet. Ela e a televisão são os adversários, hoje, porque ainda não se conseguiu dominar essa ferramenta de forma a ajudar efetivamente a educação.

Vamos falar sobre o papel da escola e o papel da família. Quais são os limites e as funções de cada um? Alguns pais terceirizam para as escolas parte de suas responsabilidades…
Tem de ser a “Santíssima Trindade da educação”: a escola, a família e a mídia, no sentido amplo (televisão, internet). Isso faz parte. Uma influência muito forte são as amizades das nossas crianças. O que faz uma criança gostar de ler é um amigo, uma amiga, um namorado ou namorada. O que faz cair ou não no cigarro, no álcool ou nas drogas é o amigo. O professor é bom para orientá-los sobre um bom livro, mas quem os influencia a gostar da leitura são os amigos. Por isso, às vezes digo aos meus amigos com filhos em idade escolar: preocupe-se com quem são os amigos do seu filho. Quem encaminha mais ou desencaminha mais são eles.

Os pais influenciam, sobretudo, colocando livros em casa. Mas quem faz gostar mesmo é o amigo ou a amiga. Muitos pais têm forte influência também. Mas o menino com amigos que gostam de ler termina gostando. Se fuma, pode cair no fumo. Aí, na droga. As companhias são fundamentais na educação, que não é igual à instrução. A escola dá instrução! A educação vem desses complementos.

E o quinto [fator de influência] são as igrejas. As igrejas participam, às vezes, para o mal, criando traumas nas crianças, mas fazem parte da educação. Então, eu digo “Santíssima Trindade”, mas na verdade são cinco itens: família, pais, escola, amigos e igreja.

Rafaela Felicciano/Metrópoles

As meninas tinham punições ou castigos por causa de notas baixas?
Sim, a gente proibia alguma coisa ou outra. Mas o comportamento é mais preocupante que a nota baixa. Ele é mais grave. Comportamento de desrespeito com o professor, por exemplo. A relação com o professor precisa ser sempre respeitosa.

Muitos pais recorrem a professores particulares para dar apoio às crianças nos estudos.
Gosto muito disso, sou favorável à complementação por professores, tanto que criei um programa, no meu governo, no qual pagávamos meninos e meninas de ensino médio da escola pública para serem orientadores de crianças do ensino fundamental. Chamava-se Escola em Casa. Era um bom programa, dava uma renda a adolescentes de baixa renda.

As aulas eram no ambiente da escola?
Na escola ou na casa. Era uma maneira de complementar renda, tirar esse jovem da rua e colocar um complemento educacional.

Tirar da rua parece ser um grande desafio aos governantes, certo?
A rua, hoje, é um problema muito sério, por causa da violência em geral e das amizades. A rua não era um lugar negativo antigamente, pelo contrário: era um ambiente onde a gente brincava. Hoje, não. Hoje é um risco. Muitos tipos de risco. A rua é um problema, por isso insisto tanto em horário integral. Ele não é apenas para dar mais horas de aulas, é também para dar menos horas na rua… menos horas de televisão.

Senador, levando a conversa para um tema mais amplo: como o senhor entende o papel de um educador?
Primeiro, eu queria que todo o educador fosse um educacionista. O educador é quem educa aquela criança ou aquele grupo de crianças. O educacionista é aquele que se preocupa com a educação de TODAS as crianças, ou seja, é uma relação mais política, mais ampla. O primeiro tem uma ação técnica, pedagógica, psicológica… O outro, política. Como dar para todas as crianças do Brasil uma boa educação? Eu gostaria que todo o educador fosse um educacionista, e eles não são. A maioria dos educadores se preocupa… os bons, os sérios, com a educação dos seus alunos. Mas não se preocupa com os 50 milhões de alunos brasileiros em idade de educação de base.

Segundo: dentro da sala, como educador, entender que acabou o tempo no qual o professor era dono da sabedoria e o aluno vinha buscar sabedoria na escola. Não é mais assim. Hoje, o professor é uma espécie de antena que capta a sabedoria na “nuvem” e tem de fazer duas coisas: ajudar o aluno a saber entrar na nuvem, o Google e todas essas outras ferramentas, e ajudá-lo a filtrar o que é bom. Esse desafio, os professores de antigamente não tinham – e os de hoje ainda não estão preparados para enfrentar. Eles ainda não se sentem como instrumentos das ferramentas modernas.

Hoje, o aluno chega na escola sabendo mais que o professor, e o professor não deve se sentir inferiorizado com isso. Porque, se o menino, antes de ir para a escola, entra no Google, ele descobre coisas que o professor, se não entrou, não sabe. Entendeu? Cada dia se descobre coisas, e elas se espalham instantaneamente. Antigamente demorava para o aluno ter aquele conhecimento. Hoje, quando ele é descoberto, se espalha. O professor deve entender essa nova realidade. O professor é uma antena de tudo que está está por aí.

O professor precisa usar ferramentas facilitadoras do aprendizado. Todo professor precisará aprender a usar lousa inteligente em vez de quadro-negro. Permitir que a aula seja gravada e espalhada. Há professor contra a educação a distância (EAD), mas tem de aceitar. A gente precisa se preparar para o tempo no qual os alunos vão nos ver através do monitor, e não presencialmente.

Uma coisa é importante todos termos em mente: o professor vai ser sempre a profissão fundamental para a construção do futuro. Nós vamos nos adaptar às ferramentas, não vamos desaparecer. Até porque o computador não dá aula se você não tiver um professor aí por dentro. Não tem jeito, o computador não é humano e não tem a didática interpessoal. O que faz o computador ter inteligência artificial é a inteligência humana.

 

Rafaela Felicciano/Metrópoles

Cristovam e esta colunista, ao fim da entrevista



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