Mitos e verdades sobre o bilinguismo na infância

Um ponto bastante debatido é se para ser uma boa escola bilíngue, a entidade precisa contar apenas com professores nativos. Será?

atualizado 03/07/2019 17:54

Eu e minha filha estávamos no parquinho fazendo um bolo na areia quando conhecemos o Miguel e seu pai. Entre uma conversa e outra, falamos sobre as possibilidades de boas escolas para colocarmos nossos filhos. Uma das opções era um colégio bilíngue. O pai do Miguel rapidamente contestou a possibilidade, afirmando que tinha dúvidas em relação a escolas bilíngues aqui no Brasil. Isso porque o português tem origem no latim e o inglês tem origem anglo-saxônica e, na opinião dele, isso geraria confusão na cabeça da criança por causa da lógica das línguas. Afinal, o argumento do pai do Miguel procede? Ou é apenas mais um mito do bilinguismo?

Sobre o argumento usado pelo pai, a coordenadora acadêmica da escola Maple Bear, Amanda Payne, esclarece: “Na alfabetização, o processo se dá inicialmente na língua materna e, em seguida, é ampliado à segunda língua. Como ambas línguas fazem parte da realidade escolar da criança, o processo se dá de forma natural”.

Payne ainda acrescenta que “as crianças são muito sensíveis à aquisição de segunda língua e o ensino verdadeiramente bilíngue acontece por meio da imersão no idioma, fazendo com que o aprendizado no inglês se torne natural, sem comprometer os processos de aquisição linguística e de alfabetização na língua materna”. Segundo ela, diversos estudos mostram as vantagens do bilinguismo na primeira infância. “Essa facilidade maior na infância se dá pela plasticidade do cérebro da criança, uma vez que aprender um idioma ativa as mais diversas funções. A capacidade do nosso cérebro não é explorada em sua totalidade. Oferecer um ambiente em uma segunda língua é ampliar o uso das funções cognitivas da criança, aumentando consequentemente a riqueza de experiências com significado, trazendo assim um impacto positivo para seu desenvolvimento”, finaliza.

Um outro mito bastante debatido entre pais e mães é se eles precisam falar inglês em casa para que a criança progrida em uma escola bilíngue. O diretor pedagógico da Escola Eleva, Marcio Cohen, afirma que não. “Não precisa, mas é óbvio que quanto maior exposição à língua, melhor. Mas quando a gente pensa no nosso programa, a gente não está assumindo que um pai, uma mãe ou um responsável consiga falar inglês com a criança em casa. Mas é claro que quanto mais inglês tiver, quanto mais exposição ao inglês tiver, seja na televisão, seja em viagem, seja na família, melhor”.

A coordenadora do Maple Bear acrescenta: “As leituras e atividades de casa são pensadas dentro da complexidade adequada para cada faixa etária, modeladas e realizadas de forma similar às atividades feitas anteriormente em sala de aula para que o aluno consiga realizar com autonomia”, diz Amanda.

Outro ponto bastante questionado é se para uma escola bilíngue ser considerada boa ela precisa ter em seu quadro de docentes apenas professores estrangeiros. Cohen, da Escola Eleva, discorda. “O principal é que falem a língua inglesa muito bem, inclusive é cada vez mais importante entender os diferentes sotaques do inglês das diferentes regiões do planeta. É claro que acrescenta e muito, do ponto de vista cultural, ter em nosso quadro docente pessoas de outros países.”

Uma ponderação importante feita por Amanda Payne é sobre a qualificação exigida pelo Brasil. “A escola bilíngue segue o currículo brasileiro e as recomendações das secretarias de educação locais, sendo assim, os professores precisam da formação pedagógica exigida no Brasil, além da fluência na língua inglesa e formação na metodologia bilíngue. A escola Maple Bear organiza formação inicial e continuada para a equipe, bem como acompanhamento e avaliação constante para todos os profissionais, sejam eles brasileiros ou estrangeiros, nesse caso, precisando ser qualificados também no Brasil.”

Um dos principais mitos é o que avalia que a escola bilíngue é pedagogicamente mais fraca. Ouço isso de muitos mais que me procuram para debater a escolha da escola dos filhos.

“É pedagogicamente mais forte, porque o inglês permite maiores conexões quando você está aprendendo em duas línguas. Tanto do ponto de vista linguístico quanto cultural. No nosso caso, a gente faz um horário integral justamente para garantir que você tenha uma força pedagógica em português e com inglês igualmente robusto”, explica Cohen.

Amanda Payen esclarece que a escola bilíngue enriquece e desenvolve muitas habilidades, além daquelas tradicionais. “O neuropsicologista Jubin Abutalebi afirma que o cérebro bilíngue desenvolve mais massa cinzenta em uma região associada à aquisição de vocabulário e, como o cérebro bilíngue é constantemente desafiado, ele precisa fazer um esforço maior para reconhecer e negociar significados, estimulando funções executivas, resolução de problemas e fortalecendo a concentração. Dessa forma, o resultado de uma educação bilíngue é significativo não só na aquisição da língua, como também no desenvolvimento de diversas funções mentais e sociais importantes.”

A escolha da escola dos nossos filhos é algo muito particular. É importante que os pais se sintam confortáveis com a escolha que fazem – sendo bilíngue ou não, dentro das possibilidades de cada um, dentro do perfil de cada criança. Devemos estudar bastante sobre o estilo da escola que buscamos para não cairmos em mitos como estes.

SOBRE O AUTOR
Christiane Fernandes

Pedagoga e psicopedagoga, especialista em Dificuldades de Aprendizagem pela Universidade de Brasília (UnB). É fundadora da Filhos – Educação e Aulas, empresa que atua na área de educação oferecendo aulas particulares desde 2005. Possui MBA em Gestão Empresarial com foco em estratégia pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

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