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Nesta semana, uma amiga aqui de Brasília — dessas mulheres maravilhosas e inteligentes que nem se dão conta do tamanho do partidão que são — estava meio cabisbaixa. O problema, ela explicou, era o bofe com quem está saindo há alguns meses.

O cara a trata bem, eles se divertem, têm afinidade. Mas ele nunca manda aquela mensagem meio se entregando ou aquele convite para fazer nada juntos no domingo que a gente sabe que, na verdade, é um eufemismo para dizer que vocês estão virando um casal. E a amiga está frustrada.

Papo vai, papo vem, a gente começa — por solidariedade, parece o correto a se fazer — a meter o pau no sujeito. “Imaturo, não sabe o que quer.” “Como assim cai na rede dele um peixão que nem ela e o bocó vai deixar passar?” “Poxa, tudo que ela queria era ser valorizada, era sentir que ele queria estar com ela…” Foi quando caiu uma ficha importante.

Por que toda vez que a amiga ficou esperando a mensagem fofa do fulano, ela não começou a troca de fofuras ela mesma? Por que ela não convidou ele para ver maratona de “Mindhunter” no domingo? Por que, se ela quer uma definição, não foi lá e pediu o cara em namoro?

Não estou julgando a minha amiga. A verdade é que eu também me vejo, aqui e acolá, me botando na mesma torre de cristal esperando meu marido vir matar uns dragões e escalar montanhas para mostrar que me ama. Eu, lá no topo, imóvel, objeto de desejo. Ele, morrendo por mim. São anos aprendendo que bonito é ser conquistada, né? Que o cara que te valoriza vai chegar lá e “lutar por você”, “mostrar o que quer”.

Mas o problema dessa narrativa é justamente que ela presume que nós sejamos isso mesmo, objeto, e não o sujeito do desejo. As rédeas da situação — e se ela vai ou não ser promovida para próxima fase — ficam nas mãos deles. A nós só cabe sermos amadas ou rejeitadas."

Nos tornamos modernas, livres, independentes, bem-sucedidas, mas ainda não nos livramos totalmente da narrativa da princesa. Na verdade, a trocamos por uma versão atualizada do mito, a da “indiferentona” que faz a cara de blasé mesmo quando no fundo está querendo alguém para dividir a pizza requentada no café da manhã. E que continua sendo a mulher-objeto que espera ser desejada (ou fazer tipo de “não queria mesmo”) em vez de assumir os próprios anseios e desejos.

Ainda não entendemos que tomar as amarras das nossas relações (ou não relações) é assumir um papel empoderador de sujeito. E que deixar claro para o cara com quem estamos saindo o que, de fato, esperamos dele, não é “não se dar ao valor”, mas é acreditar na sua capacidade de impor os próprios desejos — como os homens vêm fazendo há milênios.

O pior que pode acontecer? A gente deixar de perder tempo com troca de mensagens cifradas com quem não nos quer. O melhor? A gente ser aquela pessoa incrível capaz de conquistar o amor.

feminismorelacionamento
 


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