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Nesta semana uma pesquisa do Instituto Locomotiva apresentou uma conta que parece não fechar. Afinal, se 94% da população acredita que uma mulher ter o corpo tocado sem autorização é uma forma de violência sexual, por que 13,7 milhões delas passaram por isso apenas em 2017? (Vale lembrar que ainda faltam quatro meses para o ano acabar. Se continuarmos no mesmo ritmo, elevaria a cifra a 20 milhões).

Ou temos uns 6% de população tarada extremamente ativa ou há muita gente que comete tais atos sabendo que eles são errados, achando, inclusive, que deveriam ser crime. Será que esses homens saem por aí, como vilões do “Criminal Minds”, sendo deliberadamente maus? Acredito que não. Ao menos não a maioria.

Eles cometem a violência porque sempre acham que, em seu caso específico, há algo que justifique ou atenue o próprio comportamento. E dizem: “Encoxar é errado, sem dúvida, mas com essa saia curta, ela está pedindo, então tudo bem”. Ou: “Passar a mão na bunda é mancada, mas é carnaval, quem vem pro bloco quer farra e sexo”. Vejo na minha mente pelo menos uma dúzia de homens que conheço em quem esse tipo de desculpa cairia como uma luva. Quase os visualizo dizendo algo do tipo.

É muito fácil condenar um ato vago, sem rosto. É mais difícil se colocar na pele do possível assediador e pensar em como jamais ocupar este papel. E a verdade é que grande parte dos homens que conhecemos, provavelmente, já cometeu alguma violência sexual em alguma medida ao menos uma vez na vida. É assim, porque senão a conta não fecha. Passou a mão na bunda de uma desconhecida na balada; forçou um beijo numa micareta; “chegou chegando” quando a mulher não deu sinal algum de que queria aquilo. Ele era adolescente e imaturo, estava bêbado, era uma ex sobre a qual achava que tinha direitos. Vai ter sempre uma explicação, um jeito pra ele se colocar pra fora da turba de caras sacanas.

“Imagine, eu, abusador?! Você está exagerando! Feminismo é uma loucura e você é uma feminazi odiadora de homens, quer defender que somos todos seres inferiores!”, alguns dirão (aliás, quantas vezes já li esses comentários aqui nesta coluna?). Mas digo isso justamente porque acredito no poder dos homens de serem parte da solução deste problema, que é social.

Somos todos criados em uma cultura que defende que as mulheres sejam punidas por sua sexualidade – “tava pedindo, mereceu ser estuprada”. E tomar consciência de como somos, cada um de nós, parte do problema e causadores diretos do problema é doloroso, mas é o único caminho pra fora da merda. É reconhecer os erros, emendá-los na medida do possível e nunca mais repetir, transformar-se.

Querem um mea culpa meu também? Também sou culpada pela nossa epidemia de encoxamentos. Sabem por quê? Porque eu também já julguei mulheres por vestirem roupas muito reveladoras; eu também já me peguei participando de conversas em que outra mulher era criticada por usufruir de sua liberdade sexual. Eu também já culpei, inclusive, a mim mesma por vestir-me de forma provocante e tomar uma mão não desejada por baixo da minha saia. E se eu, que sou mulher e uma dessas 13 milhões, sou parte do problema, como algum homem pode ler esta coluna e achar que não tem que olhar pra trás e analisar os próprios comportamentos?



feminismoestupro#Assédio
 


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