*
 
 

Estou grávida e não consigo escolher um nome para o meu bebê. Sinto-me paralisada diante das listinhas de alcunhas perfeitamente bonitas que meu marido João e eu montamos.

Nunca tive uma responsabilidade tão grande. Jamais decidi algo que fosse impactar tão profundamente a vida de outra pessoa.

Tudo começou quando, um dia antes do nosso primeiro ultrassom morfológico, assistimos, João e eu, ao filme Lady Bird, um dos finalistas ao Oscar de melhor produção deste ano.

Em suma, a personagem, adolescente, odeia o nome escolhido pelos seus pais, ao ponto de substituí-lo por algo tão estúpido quanto Lady Bird. Na verdade, ela não despreza a alcunha em si, mas tudo que lhe foi dado pela mãe e pelo pai: vida simples, cidade pequena, casa apertada, colégio de freiras e pressão para “ser alguém”.

Lady Bird lembrou-me de mim. Eu, na faculdade, também rejeitei meu nome Mariana, católico demais (somatória de Maria, mãe de Jesus, e sua mãe, Ana) e, com ele, essa religião, que senti como imposta pelos meus pais e a qual sempre me atingiu como algo meio triste, opressivo, cheio de culpas e de medos dos castigos infernais.

Esses dias, briguei com meu pai, porque alguém disse que, se meu bebê fosse menino, devia chamar Bento. Respondi: “Nem a pau vou dar para o meu filho o nome de um papa — muito menos desse”. E ele se chateou, fez um xabu na frente dos outros e me magoou em retorno.

Meu pai é um homem bonito. Ele me escrevia poemas toda vez que viajava. Sempre me olhou como se eu fosse a coisa mais incrível já feita pela natureza. Tem tanta vontade de fazer certo que, às vezes, impõe demais. Ele me pediu desculpas na manhã seguinte à discussão. “Eu te amo, Mariana”. Meu nome. “E seu filho também vai rejeitar as coisas ensinadas por você, filha, e vai doer.”

Ele sempre soube pedir desculpas. Uma vez, chorou escondido porque tinha esquecido meu aniversário de 9 anos. Um homem bonito  — apesar de ser papista e votar no PSDB (risos).

E ainda rejeito tanto ele, porque preciso gritar que sou um ser humano à parte, e faço isso agressivamente porque tenho raiva dele, meu herói, não ter feito tudo perfeito. No fundo, isso significa que eu também não vou fazer. Vou errar. E meu bebê também pode odiar o nome escolhido para ele, assim como todo o resto.

Fico dizendo para o João: “Espera chutar, aí a gente lê os nomes e vê qual o neném aprova”.

Ele sorri e balança a cabeça: “Essa decisão não é dele ou dela, você sabe” — e faz aquela cara de amor com cachos.

Ele está se divertindo com as listas de nomes. Fica lendo origens históricas e desejando um nome bonito para o bebê, pois isso significará que ele ou ela é amado(a). Para o João, ninguém pode se meter, a decisão deve ser só nossa, como uma brincadeira íntima entre nós dois.

Eu estou sofrendo com as listas. Quero que o neném goste do nome para sempre, não seja como eu ou Lady Bird. Isso vai significar, pelo menos na minha cabeça, que ele(a) vai me amar, me aprovar, de certa forma. Não vai ter vergonha de sua mãe e das coisas ensinadas por ela. Mas, no fundo, a única certeza dada pela maternidade é a do absoluto descontrole.

Neném, eu vou te dar um nome. Vou te dar muitas coisas. E vou errar, eu sei. Terei de ser rejeitada para você ser sua própria pessoa. Mas, como meu pai, vou fazer isso sempre de um jeito bonito. Mandão, mas bonito.



 


Filhofilhanomebatizadolady bird