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Esses dias um homem me mirou com um olhar de desejo no metrô. Ele tinha visto minha barriga de gestante (nada discreta aos sete meses) e continuou olhando mesmo assim. Não era assédio — na delicadeza dos movimentos do corpo e do rosto, ele captou meu consentimento. E eu fiquei feliz — e quase grata. Fazia muitos meses que só me enxergavam feito a Virgem Maria.

Sabe, para mim essa “pureza forçada” do corpo da mulher grávida é quase tão violenta quanto o assédio, pois também me priva do direito de dar significado a minha própria figura para vê-la se tornar objeto de significação alheia. Para as pessoas decidirem quando eu não sirvo para sexo ou fantasias ou quando eu só sirvo para gerar. Não! Este meu corpo grávido é também um corpo sexual! Quando eu decidir assim.

Ele é um corpo que tem prazeres e desejos e quer ser visto também neste potencial de gozo. Mas tantas mulheres, como eu, são jogadas na caçamba da “Santa grávida”, mal tocadas por seus parceiros (ou outros homens, em caso de mães solteiras) durante quase toda a gravidez. É impressionante a quantidade de homens que não consegue descolar-se do arquétipo da Virgem-mãe para olhar as próprias amadas.

Lembro da minha primeira consulta pré-natal. Meu marido foi junto, participativo, e arregalou os olhinhos feliz quando o médico lançou, mais ou menos assim:

— E a vida sexual de vocês, como anda? Sugiro que leiam o Kama Sutra da gravidez (recomendo isso pra você também, leitor e leitora). Muitos casais esquecem de fazer sexo na gestação por conta de medos e preconceitos bobos e isso cria uma barreira enorme de falta de intimidade entre eles, a qual depois dificilmente será superada quando há um bebê chorando madrugada adentro.

Uma de minhas amigas que engravidou solteira costumava reclamar porque passou nove meses feito morta para os homens ao redor mesmo sendo atraente para muito além da média — daquelas mulheres que te fazem torcer o pescoço para dar mais uma olhadinha. Conheço também uns tantos homens que traíram as parceiras enquanto estavam grávidas. “Ela não estava disponível”, justificam — para não admitir serem machistas.

Eles não conseguiam enxergar uma mãe como ser sexual e, mesmo assim, digno de respeito. Descolam a respeitabilidade da sexualidade para nos separar entre santas e putas, mães e meros divertimentos. Não, queremos tudo! Queremos o direito de transitar entre esses papéis!

Há ainda os receios honestos, mas infundados, que aprofundam o afastamento dos casais na gestação. Quanto a estes, trago uma profissional para aliviá-los pra vocês. “Sexo na gestação não machuca o bebê!”, alerta a médica obstétrica Dolores Nishimura. “Alguns homens não se sentem à vontade tendo relação sexual com a mulher na gestação. São várias as razões, mas alguns têm medo de machucar o bebê. Às vezes, mesmo com orientação médica, eles preferem não se envolver.”

Há a ressalva, naturalmente, das gravidezes de alto risco, quando o sexo deve ser evitado: ameaça de aborto, trabalho de parto prematuro, placenta prévia, dentre outros. Seu caso não está na lista e não houve alerta do seu médico? Provavelmente vocês estarão seguros.

É preciso lembrar, algumas mulheres sentem a libido cair por conta da alteração hormonal e não querem mesmo. Outras, já sentem o desejo alcançar picos nunca antes imaginados. O segredo é ouvir o corpo, mas deixar que ela participe ativamente da decisão sobre a presença ou a ausência de sexo na relação, sem enquadrá-la em caixinhas.

“O sexo na gravidez faz bem desde que o casal se sinta bem”, explica Dolores. “A prática faz parte da vida íntima do casal. Se não houver contraindicação na gestação, e ambos desejarem, não terá problema nenhum. O importante é manter o diálogo aberto, e um ser sincero com o outro.”



 


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