O novo feminismo não constrói uma nova mulher e sim um novo mundo

O novo feminismo está quebrando a ordem pétrea que conduziu o mundo dito civilizado ao longo da história

Mulher forte (com braço para cima) e buquê de margaridas no lugar da cabeçaGui Prímola / Metrópoles

atualizado 12/03/2020 19:39

Nasci feminista sem saber. Desde muito menina tive de ir à luta na rua, na escola, no mercado de trabalho.

Não sabia que era feminista quando dizia que não ia casar virgem. Era uma ideia que havia lido numa revista, a Cosmopolitan, que no Brasil se chamava Nova, meados dos anos 1970. Carmen Silva, na Cláudia, também me dizia coisas que nunca havia escutado. As revistas se ofereciam a mim, tão vivas, janelinhas de papel me apresentando o mundo, na banca de revistas que tinha comprado com o pouco dinheiro que o pai havia deixado com sua morte trágica.

As mulheres pobres nascem feministas por necessidade. Não são elas as provedoras de um terço das famílias brasileiras?

Uma das minhas primeiras amigas de infância era operária de uma fábrica de papel em Belém. Não tinha mais de 15 anos.

E eu, com os mesmos 15, vendia de porta em porta livros, enciclopédias e bijous banhadas a ouro, segundo me diziam os fornecedores.

Até então eu era feminista por necessidade de sobrevivência e não apenas financeira.

Nos livros e nas fotonovelas que eu lia, não havia feministas. Eram sempre mulherzinhas fazendo crochê e esperando um marido. No máximo, heroínas traindo o marido. E o feminismo zona sul do Rio era algo muito distante.

Nunca pude pensar em me casar: que homem iria querer uma mulher que já vinha com sogra e cunhado-criança? E pobre e preta?

De nada disso eu tinha consciência. Intuía que precisava dar conta do que me cabia fazer, e seguia às cegas.

Foi a universidade que deu nome ao que eu fazia.

Na faculdade, conheci as primeiras mulheres fora da ordem, as professoras e as militantes do movimento estudantil, tão cheias de livros, tão cheias de ideias, tão sexualmente livres.

Ainda era a menina tosca, romântica, fora de lugar, e continuo sendo, só que agora essas condições são parte da minha força.

O meu primeiro feminismo foi a liberdade da luta política, a reportagem policial (sob a qual hoje tenho graves dúvidas) e o sexo livre. E eu já achava super-mega-demais.

Era só o começo.

A nova onda feminista, de agora, abriu em mim percepções desconhecidas.

Quer dizer então que o incômodo de que fui vítima desde os 11/12 anos nos ônibus indo pra escola e voltando, quer dizer que era abuso? Era crime? Quando entendi, tive vontade de recuar no tempo e denunciar todos aqueles porcos execráveis. Dar um murro, um chute certeiro em cada um deles.

Há alguns anos, entrevistei uma jovem estudante de psicologia que havia sido violentada pelo pai dos 5 aos 12 anos. Ela me disse que durante boa parte do tempo acreditava que era assim mesmo, que todos os pais faziam aquilo com todas as filhas. E não contava pra ninguém. Até que alguém o denunciou e ele foi preso. Tudo pode ser naturalizado se não houver alguém pra apontar a cruel manipulação.

O novo feminismo, às vezes, assusta essa mulher de Atenas que ainda sou (e dela não abro mão posto que não me violenta e me constitui).

Aos solavancos, o novo feminismo vai desnaturalizando cláusulas pétreas: o toque insidioso e não-autorizado no corpo, o julgamento moralista, o desprezo atávico do homem pela mulher, desprezo que se revela com desfaçatez ou com declarada violência ou ignóbil cinismo.

O novo feminismo está quebrando a ordem pétrea que conduziu o mundo dito civilizado ao longo da história.

O novo feminismo não está construindo novas mulheres, está anunciando um novo mundo – ainda são sinais difusos na escuridão, mas quando houver claridade virá delas, de nós. E há, nesse novo feminismo, um afluente poderoso e imprescindível neste país de DNA escravocrata, o feminismo negro. Mas essa é uma outra crônica, para a qual reúno forças.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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