O homem-fantasma que encontrou a si mesmo no lixo

A história de um catador de lixo que achou um frasco de vidro. E tudo o que aconteceu nos instantes mágicos desse encontro perfumado

Gui Prímola/MetrópolesGui Prímola/Metrópoles

atualizado 07/11/2019 14:39

Ainda não eram sete da manhã. O lixo estava amontoado numa esquina da 40, a quadra do Pólo de Modas do Guará. (“Estava” é um tempo verbal ultrapassado para as atuais condições de limpeza urbana do quadrado. Lixo amontoado é um presente contínuo neste governo).

Mas não será sobre lixo esta crônica. Será sobre perfume.

A manhã já se movia com a pressa dos que correm para o ponto de ônibus. Um homem empurrando um carro de supermercado (sua casa ambulante) está na esquina de uma praça malcuidada, remexendo o lixo que avança do capim para o asfalto. A sujeira encheria dois contêineres, se contêineres houvesse.

O homem, de não mais de 40 anos, abre sacos plásticos, revira caixas de papelão, num movimento atabalhoado e ao mesmo tempo quase desinteressado. Há uma estranha mistura de apatia, desprezo e raiva naquele revirar de despojos. Para os que passam por ele, não é um humano, talvez um fantasma que já faz parte da paisagem.

Algo novo acontece. O homem para. Tem à mão um frasco de vidro, menor que a mão dele. De formato meio ovalado e cor de chá-mate. Levanta o objeto contra a luz do sol e vê que está cheio. Chacoalha, pressiona o spray, e dele sai um jato líquido que provoca um quase imperceptível sorriso naquele homem-autômato.

Tudo nele é o vidro, todo ele é o vidro. Sem perceber, dá as costas a todo o seu patrimônio, o carrinho-casa, e começa a aspergir o perfume em si mesmo. Primeiro nas axilas, depois no pescoço, no tórax, nos cabelos, nos braços e vai descendo até abaixo do umbigo. Um banho cheiroso no meio da rua.

Nada a sua volta parece existir. Não olha pra lado nenhum – nem para seus pertences. Naquele instante, só existem ele e o frasco de perfume.

Quando se dá por satisfeito com o chuvisco cheiroso, levanta novamente o frasco contra a luz, confere o quanto ainda restou do líquido encantado e só então volta a prestar atenção em seu patrimônio ambulante. Guarda o vidro cor de madeira morena dentro de uma sacola preta que emerge do amontoado de panos e objetos indecifráveis que estão dentro do carrinho-casa.

E segue. Toda a montanha de lixo pronta a ser vasculhada perde a importância, não há nada mais a procurar. O homem é o mesmo, mas parece outro, ou o mesmo que voltou a morar dentro de si.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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