O dia em que Darcy Ribeiro se apaixonou por Anísio Teixeira

Dois dos mais importantes intelectuais brasileiros do século 20 tinham um pelo outro explícita antipatia. Até se tornarem grandes amigos

Kacio Pacheco/MetrópolesKacio Pacheco/Metrópoles

atualizado 10/04/2019 21:30

Dois dos mais importantes intelectuais brasileiros do século 20 – que mais tarde criariam a Universidade de Brasília – tinham um pelo outro explícita antipatia, conta Darcy em Confissões, autobiografia que escreveu quando estava perto de morrer de câncer.

O baiano Anísio achava o mineiro Darcy um “ente desprezível”, por se dedicar à causa indígena. Considerava um desperdício de energia e de inteligência cuidar de 0,02% da população brasileira. Não sabia nada sobre índios, nem queria saber. E ainda sobrava para o marechal Rondon, a quem Darcy chamava de “santo-herói”. Anísio via nele um militar aloprado na sua obsessão em proteger os índios.

Darcy via Anísio como um homem urbano, letrado, alienado, com posições políticas conservadoras e americanizadas. Reconhecia, porém, “mesmo à distância, uma qualidade de veemência, uma quantidade de paixão que não encontrava em mais ninguém”. O baiano defendia a educação popular, a escola pública, laica, obrigatória e gratuita, com “um ardor comovente”, sempre nas palavras de Darcy, que deixou escrita sua paixão por Anísio.

Um dia, as duas antipatias se encontraram. Um amigo comum percebeu a bobagem que impedia aqueles dois gigantes de se aproximarem e levou Anísio para assistir a uma conferência de Darcy. O antropólogo relatava a convivência com os Ramkokamekra, de organização social muito complexa.
Quanto mais Darcy falava, mais Anísio resmungava: “São uns gregos! Gregos!”. Seria uma desfeita, um desdém do educador baiano?

Até que conseguiu entender que Anísio, de formação clássica, percebeu na organização social dos Ramkokamekra uma sofisticação parecida com a dos atenienses e dos espartanos.

“O certo é que desde aquele primeiro encontro intelectual nos apaixonamos um pelo outro.” Tanto que Darcy diz ter tido dois alter egos, Rondon e Anísio. “Missionários… cada qual com sua causa, que foram ambas causas minhas. Foram e são: a proteção dos índios e a educação do povo.”

Desde então, por muito tempo, não se largaram mais. Durante anos e anos, viam-se diariamente, trabalhando juntos em projetos pela educação pública universal e de qualidade. Participaram intensamente dos debates sobre a Lei de Diretrizes e Bases, espécie de Constituição do sistema educacional brasileiro.

Anísio enfrentava a elite intelectual católica, que via na luta pela escola pública laica, gratuita e obrigatória o propósito secreto e insidioso de transformar as crianças brasileiras em aprendizes do comunismo. “Eu tinha entrado – conta Darcy – no meio da tempestade, na voragem da maior guerra ideológica que o Brasil viveu”. Estamos falando do começo dos anos 1950.

Com a construção de Brasília, Darcy logo imaginou a chance de criar uma universidade que cultivasse o saber e não apenas o conhecimento, e onde ninguém fosse perseguido ou premiado em razão de sua ideologia.

A UnB só foi possível graças à vocação política de Darcy e, por certo, aos seus olhos faiscantes de encantamento e sedução. A Igreja queria uma universidade católica, Israel Pinheiro queria a comunidade universitária bem longe do Plano Piloto, e Juscelino não estava exatamente pensando em ensino superior. Darcy conta que, para conseguir aprovar a lei no Congresso, buscou ajuda de Filinto Müller, o temido chefe da polícia política de Getúlio, mais tarde eleito senador.

Aprovada a lei, Darcy quis que Anísio fosse o primeiro reitor e ele, vice-reitor. “Você está trocando as bolas”, reagiu o baiano. Feito ministro da Educação e depois chefe da Casa Civil de Jango, Darcy entregou a universidade a Anísio.

Viriam anos terríveis, a morte de Anísio Teixeira, em 1971 (a Comissão Nacional da Verdade encontrou fortes indícios de que ele foi assassinado pela ditadura militar), o exílio de Darcy, a volta ao Brasil, a retomada da democracia. E ficou para sempre a paixão florescente – floriu uma universidade – entre esse dois brasileiros.

Darcy teve tempo de concluir Confissões:

Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras. A você que fica aí, inútil, vivendo vida insossa, só digo: Coragem! Mais vale errar, se arrebentando, do que poupar-se para nada. O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora, a nossa parte. Depois, seremos matéria cósmica, sem memória de virtudes ou de gozos. Apagados, minerais. Para sempre mortos.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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