Não é fácil reconhecer o mal. Nem sempre tem cara de mau

Se aquele bandido tinha tanta maldade, por que os adultos ficavam tão excitados quando falavam dele?

Kacio/MetrópolesKacio/Metrópoles

atualizado 10/09/2019 7:11

Sempre tive muita dificuldade de reconhecer o mal. Tento buscar de onde vem essa incompetência e a primeira pessoa que me vem à cabeça é o Cara de Cavalo. Um homem que tem um apelido desses já dá indícios de sua folha corrida. Na Estrada Nova, a rua onde eu morava em Belém, ele era o bandido que saía nas manchetes dos jornais (de papel). Era um homem mau, assaltante. Meu vizinho.

Os adultos estremeciam quando contavam que Cara de Cavalo tinha sido preso ou não tinha sido preso. Havia uma admiração sub-reptícia na novidade. O que confundia minha meninice: se ele era bandido, portanto mau, por que a expressão e a voz de admiração, quase de gozo? Embora eu ainda não soubesse que existia a palavra gozo nem o que ela significava. As palavras, às vezes, vêm depois da experiência.

Cara de Cavalo era um homem carrancudo, forte e curto como são os caboclos da Amazônia. Era de se esperar que tivesse o rosto comprido dos equinos, mas era quadrado e espectral. Talvez eu o tenha visto uma vez ou talvez tenha visto uma foto no jornal, não me lembro. Mas o mal, percebo agora, escrevendo esta crônica, era algo forte e admirável, embora sinistro. Daí que a vida inteira cruzei com o mal sem me convencer de que ele era tão ruim assim.

Fui repórter de polícia durante seis anos, em Goiânia e em Brasília. De cara, eu simpatizava com os bandidos. A absoluta maioria deles fugia ao padrão estético do mundo fora das grades. Eram, e continuam sendo, pretos, miseráveis, adolescentes, vindos de famílias destroçadas. Eram meus semelhantes, só que eu tive sorte.

Talvez por tudo isso até hoje eu tenha dificuldade de reconhecer o mal (antes que alguém grite, não faço o gênero boazinha, nem de longe). O ouvido, sim, ficou um pouco mais sabido. O tom de voz, o tipo de argumento, os silêncios me fazem perceber que ali há algo que me intercepta, me imobiliza. O mal chega a mim como um mal-estar.

Não significa, é claro, que se eu não gosto de alguém esse alguém não presta. Pode significar apenas que essa pessoa não vai com a minha cara. Ou que há algo nela que não gosto em mim. Sempre que consigo, investigo a antipatia – talvez eu esteja sob o efeito de um dos sentimentos mais difíceis de um humano suportar, a inveja. Ela atordoa os sentimentos, transtorna quem a sente, altera a percepção do outro. Ao contrário do que diz o senso comum, a inveja é um bumerangue.

Quando era repórter de polícia em Goiânia, havia um delegado que era o preferido dos repórteres. Um homem de voz mansa, vagamente sorridente, sempre disponível, que mantinha o gabinete de portas abertas. Comentava-se que ele tinha sido torturador ao tempo da ditadura (ainda recente naqueles meados da década de 1980), mas era uma excelente fonte. Um dia, cheguei à delegacia e vi um agente de polícia dar um soco com as duas mãos nos ouvidos de um detido, um telefone, no jargão policial.

Entrei na sala do delegado feito bicho, nem me dei conta de que havia um casal sendo atendido. Calmamente, ele me ouviu e disse alguma coisa do tipo “vou tomar providências”, mas senti no corpo o iceberg que se ergueu diante de mim. Quando cheguei à redação do jornal, estava demitida. Só tive tempo de pegar a bolsa.

Dizem que os psicopatas têm a cara mais afável do mundo, o sorriso dócil, a voz mansa. Aquele delegado era assim, quase paternal. Mantinha sobre a mesa de trabalho fotos dos filhos e da mulher. Quando os atendia ao telefone, era puro afeto. E quem disse que o mal é unanimemente mau? Os humanos são muito mais complexos e dissimulados do que suportamos saber.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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