Mia Couto, professor Coutinho, o assalto e como a vida é bela

Na vinda a Brasília, o moçambicano ouviu do brasileiro uma inacreditável aventura que une os dois, o escritor e o arquiteto

Mercês ParenteMercês Parente

atualizado 01/10/2019 17:17

O muito querido, lido e admirado Mia Couto ouviu em Brasília pelo menos uma história que misturava ficção e realidade, essa ponte fluida e incerta por onde transitam os artistas e os que se alimentam da arte, os que sonham e os que não suportam a dureza excruciante do real.

A história junta um conto de Mia Couto com uma experiência de José Carlos Coutinho, o arquiteto mais querido de Brasília (que Oscar não nos ouça).

Começa assim:

Há uns 15 anos, noite escura, Coutinho saía de um evento cultural na Asa Sul quando foi abordado por dois rapazes, um mais pra adulto, outro mais pra criança. O mais velho tinha os braços envolvidos por uma jaqueta, com algo apontado para o arquiteto e anunciava:

“É um assalto! Passa a grana e fica quieto, anda, anda”.

Coutinho conseguiu domar o nervosismo, e foi pedindo calma ao bandido, ao mesmo tempo em que andava mais para perto do poste de luz. Lembrou-se que tinha apenas R$ 5 na carteira (na época, o celular ainda não era a moeda mais importante do assalto no meio da rua).

“Anda, cara, me dá logo senão te meto bala, porra!.”

E agora? Fazer o quê? Coutinho se lembrou que tinha um talão de cheques.

“Amigo, não tenho dinheiro. Mas te dou um cheque. Posso pegar a carteira?.”

“Bora, bora, anda logo que já tô ficando puto.”

Enquanto desprevenido arquiteto abria o talão, pegava a caneta, pensava aflito:

“Dou quanto? Se der muito, fico despauperado. Se der pouco, posso levar uma bala na cabeça”.

Decidiu por R$ 100.

“E aí, onde vou descontar essa porra? Tu vai sustar o cheque e eu vou atrás de tu até te achar, seu porra.”

“Você tem a minha palavra de que eu não farei nada. E você pode descontar o cheque na padaria, com um amigo, ou pode depositar, nem precisa ir ao banco”, foi dizendo Coutinho, com seu jeito ao mesmo tempo manso e imponente de falar.

Parecia tudo resolvido, mas não estava.

“E o dinheiro da passagem?”

Coutinho se lembrou dos R$ 5, milagrosos R$ 5. Tirou a derradeira cédula da carteira, a entregou ao assaltante enquanto fazia uma preleção sobre os perigos da vida de bandido, de que ele poderia ser preso, ser morto, ir pra cadeira. Que era jovem, podia mudar de vida…

O bandido ouviu, pegou os cincão e bateu nos ombros de Coutinho:

“Obrigado, e desculpa qualquer coisa”.

Na manhã seguinte, sábado, o arquiteto contou essa história aos amigos que se reuniam todos os sábados na Casa do Livro, do Wilson Hargreveas, lendária livraria do Conic.

Depois de ouvir tão inacreditável e bem-sucedido assalto, Hargreveas pegou uma revista, abriu na página de um conto de Mia Couto, “O assalto”, e mostrou o quanto as duas histórias se pareciam.

No conto, o narrador é assaltado por um velho que quer apenas ouvir histórias, que, já velho, ninguém mais conversa com ele.

Coutinho contou essa aventura para Mia Couto enquanto pedia um autógrafo na revista Ficções, onde foi publicado o conto. Mia respondeu com um delicado sorriso (Mia é um gato que ri. E tem esse apelido porque desde criança gosta muito dos felinos de dentro da casa).

O conto do Mia está na web. E o Coutinho, em todos os lugares legais de Brasília, dia sim e outro também.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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