João Gilberto, Brasília e Juscelino, o Presidente Bossa Nova

A morte do músico genial acaba sendo um reencontro desolado com o Brasil que tanto esperamos e de que tanto precisamos – a utopia

atualizado 08/07/2019 21:08

Se Brasília tivesse de escolher um artista brasileiro como síntese de si mesma, seria João Gilberto. Não à toa, Juscelino era chamado de Presidente Bossa Nova, como na música de Juca Chaves:

Bossa nova mesmo é ser/presidente/Desta terra descoberta por Cabral/Para tanto basta ser/Tão simplesmente/Simpático/Risonho/Original./Depois desfrutar da maravilha/De ser presidente do Brasil/Voar da Velhacap pra Brasília/ver a alvorada e voar de volta ao Rio.

A musiquinha singela grudou em Juscelino o epíteto com o qual até hoje é lembrado. Um dos criadores da Bossa Nova, Carlinhos Lyra disse a Ruy Castro, que transmitiu a Claudio Bojunga, biógrafo de JK: “A Bossa Nova só foi possível graças a Juscelino”.

Talvez haja certo exagero, não sem fundamento. Eram os anos dourados. Fazia pouco tempo, Getúlio havia se suicidado e o Brasil parecia mais uma vez afundado no pântano das elites devoradoras. Mas algo se movia – nas artes, na cultura, nos esportes, na política. Subitamente, os brasileiros foram envolvidos por um raro sentimento de inquietude e invenção na literatura, nas artes plásticas, no futebol, no cinema, na arquitetura, na música: Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Rubem Braga, Glauber Rocha, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Pelé, Garrincha, Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Tom, Vinícius e João Gilberto – cito alguns, porque a lista é longa (e eterna).

Finalmente, o Brasil parecia ter acordado, aquele instante que havia muito se esperava. Daquela metade dos anos 1950 em diante, o país mostraria ao mundo a singularidade de sua formação mestiça, tropical e continental.

Do mesmo modo que João Gilberto limpou os excessos melódicos dos grandes cantores da época, os arquitetos modernos livraram os edifícios de tudo o que não fosse estrutural. Queriam a beleza nua, como quem busca a essência das coisas. Os poemas ficaram pura pedra, como os de João Cabral. As construções, puro concreto, como as de Brasília. A paisagem urbana, vazia.

Caetano Veloso, Vladimir Safatle, Braulio Pedroso escreveram que, com a morte de João Gilberto, foi-se o sonho moderno, a utopia de transformar esse território numa Nação. A morte física como representação simbólica da morte de que temos morrido todos os dias, nos últimos tempos.

Naquela segunda metade dos anos 1950, tudo parecia que ia dar certo. Alguém lembrou do chute de Pelé, de antes do meio do campo, para o gol que faria toda a esquerda se esquecer, temporariamente, da ditadura militar e passar a torcer pelo Brasil na Copa de 58. (Juscelino assistiu ao último jogo no Brasília Palace Hotel).

Um país de Pelés, aquele.

“Sim, escreveu Safatle, havia algo de utopia naquela música e seria necessário ouvi-la escutando também a utopia do tempo histórico que ela expressa. Se do ponto de vista arquitetônico o Brasil mostrará sua carga utópica através da instauração geométrica da conquista de seu próprio interior, isso através de um sonho modernista que redundará em Brasília e suas misturas de árvores distorcidas do cerrado e curvas de concreto armado, havia a versão musical dessa carga utópica, e ela se encontrava na bossa nova.”

Braulio Tavares comparou o arquiteto e o músico: “Alguém disse da arquitetura de Oscar Niemeyer que ela demonstrava o quanto o concreto é leve. As harmonizações e as divisões rítmicas de João Gilberto mostravam que era possível haver uma ultra-sofisticação por trás de estruturas aparentemente simples, nuas, despojadas.”

Caetano lembrou que João Gilberto furou a casca do Brasil, até então uma “região ensimesmada”. A arquitetura moderna também tirou o país de dentro de si e o apresentou ao mundo.

A morte de João Gilberto é um reencontro desolado com um Brasil que tanto queríamos e de que tanto precisamos.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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