Humanidade é a soma de diferenças, antipatias e intolerâncias

Todos nós temos uma luta solitária para não perder a marca humana. Não nascemos humanos, nos construímos humanos dia após dia

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atualizado 31/12/2019 12:38

“Escute a voz dos fios. Quando você os trança um depois do outro, começam a fluir sentimentos entre você e o fio”, diz a avó para as duas netas, enquanto entrelaça linhas que escorrem dos carretéis. É a cena de um filme japonês, Your Name, um anime lírico, intuitivo, sobrenatural. Conta uma linda história de amor adolescente.

Entrelaçar os fios de nossas humanidades é do que mais precisamos nos próximos três anos, 1.095 dias. É o que mais precisamos sempre, agora mais do que nunca.

Anteontem mesmo, caí na armadilha de interromper o entrelaçamento dos fios de minha humanidade.

Um texto de Fernanda Torres, publicado na Folha de S. Paulo, me chamou a atenção pelo título: “Amor”. Me recusei a ler porque havia discordado, em artigos anteriores da atriz, de suas análises políticas e continuo discordando. Da terceira vez que o texto passou pela minha TL, no domingo passado, decidi ler. Fernanda rememora a convivência com Hector Babenco. Crônica forte, verdadeira, tocante, humana. Por uma razão tola, quase me impedi de compartilhar humanidade com a filha de dona Fernanda.

Dias antes, eu havia feito longa entrevista com uma empresária de Planaltina. Fiquei igualmente tocada com o afeto que ela dedicava a uma amiga e de como soube honrar a amizade num momento trágico. Em determinado momento da conversa, intuí que aquela moça de tão nobres sentimentos e atitudes deve votado em Bolsonaro.

Por certo, Fernanda Torres, a moça de Planaltina e eu somos fios desse mesmo trançado humano. Será essa, a meu ver, neste 2020, a grande tarefa de todos nós que compartilhamos dos mesmos valores humanitários, nos entrelaçar a fios diferentes, quando não divergentes.

Ao contrário do que boa parte da esquerda acredita e vocifera, nem todos os 57,8 milhões de eleitores de Bolsonaro são bolsonaristas como nem todos os que elegeram Lula e Dilma eram petistas, como nem todo petista é democrático.

A essa altura, o Leandro Fortes, a quem muito admiro pela crueza com que analisa o cenário político, a essa altura ele deve estar me chamando de “esquerda namastê”, a esquerda boazinha que acredita na salvação das almas impuras que votaram no ignaro presidente.

Não creio em salvação de alma nenhuma, nem na minha, mas a dimensão política é fluída, o eleitor vota movido por estímulos os mais inesperados e imperceptíveis e o cenário político muda com a rapidez das nuvens no céu.

É certo que essas eleições mostraram ao Brasil o Brasil que o Brasil não conhecia. A vocação autoritária e cruel do povo brasileiro, herança de 300 anos de escravidão e do genocídio dos povos indígenas e negros que, afinal, nos forjaram como Nação. E que, agora, se sente autorizado a revelar os preconceitos e a intolerância até então disfarçados de silêncio.

No começo deste ano, o psicanalista Luiz Felipe Pondé escreveu um texto esplendoroso sobre “Guerra Fria”, filme que conta a trágica história de amor de dois poloneses. Não concordo com nada ou quase nada do que Pondé escreve sobre política. É uma discordância que chega até a garganta. Mas o artigo sobre o filme é uma aguda percepção do que é o amor e de como ele muda ao longo da história da humanidade.

Pondé falava de amor amoroso entre duas pessoas. Fernanda Torres, de amor-amizade, aquele que nos fortalece e que sem ele viramos zumbis de nós mesmos. E humanidade é isso, a soma dos humanos com nossas diferenças e idiossincrasias, nossas antipatias e intolerâncias, a luta solitária de cada um de nós para não perder a marca humana. Não nascemos humanos, nos construímos humanos dia após dia.

Feliz 2020 para quem votou no Haddad e para quem votou no outro ou votou em branco ou anulou ou deixou de votar e já percebeu que deu muito errado.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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