Como a ganância pode destruir o Parque das Sucupiras de Brasília

A área é uma ilha verde que ainda revela, 60 anos depois, como era o Plano Piloto quando se chamava somente Cerrado

Fernando Lopes/Especial para o MetrópolesFernando Lopes/Especial para o Metrópoles

atualizado 15/04/2019 15:00

Cobras, sapos, corujas, lagartos, gambás, periquitos, mariposas, bicho que rasteja, que pula, que voa, que canta. Bichos que habitam a margem sul do Eixo Monumental, entre uma igreja de Niemeyer e um bairro chique de Brasília. Vivem entre pés de cajuzinho do cerrado, araticum, mangaba, pequi, embiruçu, murici, canela de ema.

É uma ilha verde que ainda revela, 60 anos depois, como era o Plano Piloto quando se chamava somente Cerrado e nada mais nele havia a não ser árvore torta, arbusto emaranhado, florezinhas coloridas e, entre centenas de espécies animais, bichos voadores, como a maria-cavaleira-de-rabo-enferrujado, que só sai da solidão para se acasalar e, sofisticada, faz ninho com pelo de mamífero e muda de pele de serpente.

É um pedaço quase insignificante de Cerrado razoavelmente intacto que sobreviveu à voracidade do mercado imobiliário, graças à admirável tenacidade de um pequeno grupo de brasilienses, liderados pelo ilustrador Fernando Lopes, que há mais de 10 anos faz barricadas de cidadania para tentar impedir a expansão do Sudoeste. Insignificante na escala monumental, mas imprescindível para a vida dos humanos, dos bichos e da Terra.

Lá, onde quem tem muito dinheiro quer muito mais dinheiro ainda, quer se lambuzar de dinheiro para esconder o imenso vazio miserável que arrasta dentro de si, lá naquele pedaço de paraíso cerratense vivem, pelo menos, 60 espécies de aves, 10, de mamíferos, seis, de répteis, três, de anfíbios.

Cupinzeiros gigantes, seriemas delgadas, codornas inquietas, corujas olhudas, seres mais que perfeitos da natureza, ameaçados por mais uma insanidade, não dos pobres humanos, mas dos ricos que acreditam que escapam da morte se empanturrando de dinheiro e poder.

O chão que sustenta as mais de 10 mil espécies de árvores do Cerrado está a 1.000/1.200 metros acima do nível do mar, quase no topo do Planalto Central. É uma terra que vai do amarelo-avermelhado ao vermelho-ferrugem, uma cor que sangra se não estiver protegida pela savana mais bela e mais surpreendente do mundo.

O Cerrado é o mais importante monumento de Brasília, tombado pelos deuses da natureza e da vida em estado absoluto. Vida em forma de árvore, paineira-do-cerrado, pimenta-de-macaco, sucupira branca, vassoura-de-bruxa, ou em forma de bicho, jacarezinho do cerrado, inhambu-chororó, periquito-de-encontro-amarelo ou aves migratórias que subindo ou descendo o redondo da Terra pousam no parque.

Fim-fim é uma das espécies de aves que habitam o Parque das Sucupiras. É também chamado de Vim-Vim e Vem-Vem – machos e fêmeas chamam-se no meio da mata para que nunca se esqueçam um do outro. Nenhum caminhão de dinheiro que se quer ganhar com as 500 dá conta de comprar o amor de um Vim-Vim por sua Vem-Vem.

Como são pobres de vida esses ricos de ganância.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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