Apanho todos os dias da gramática. Ela não é tão importante assim

A língua portuguesa é bem complicadinha. Saber as regras não quer dizer muita coisa. E pode ser até mais um divisor de classe social

Kacio Pacheco/MetrópolesKacio Pacheco/Metrópoles

atualizado 02/09/2019 23:06

Verissimo, filho do Érico, tem uma crônica saborosa sobre a língua portuguesa. Que as feministas mais aguerridas não nos leiam, ele diz que a gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.

Eu apanho dela todos os dias.

Nunca consegui decorar regras gramaticais. Tudo que é muito explicadinho me confunde. Sorte minha é que a memória visual das boas leituras tem me ajudado desde sempre a não tropeçar nos erros mais grotescos. Sei que paralisação é com S, que cônjuge se escreve assim, que cafta é uma receita da culinária árabe e Kafka é o genial escritor austríaco.

Mas não caio na esparrela de considerar o conhecimento das regras gramaticais um divisor de águas entre quem é humanista e quem não é; quem é canalha e quem não é; quem é sábio e quem não é; entre quem presta e quem não presta.

O conhecimento da língua portuguesa não é um valor moral e nem mesmo distingue quem é inteligente de quem não é. O rigor na obediência às regras gramaticais é um divisor de classe – os cultos e os supostamente incultos; os inteligentes e os burros; os graduados e os sem graduação.

O Verissimo escreveu o que quero dizer de um jeito delicioso.

“… a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer ‘escrever claro’ não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, comover… Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com a Gramática). A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí de interesse restrito de necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua, mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.”

Impura, sigo apanhando da gramática mesmo tendo de lidar com elas todos os dias, há tanto tempo que nem é bom contar.

Não consigo decorar, por exemplo, quando devo usar “senão” ou “se não”.

(“Senão” significa “do contrário”. Como no exemplo: “Me escute, senão vou embora”.

“Se não” quer dizer “caso não”. Assim: “Se não vier logo, perderá a vez”. Mas como a língua portuguesa não facilita pra ninguém, se for trocar o “se não” pelo “caso não”, muda a conjugação do verbo: “Caso não venha logo, perderá a vez”.)

Nem adianta escrever uma crônica sobre o “senão”. Da próxima vez, terei de “googlar” de novo. Desconfio que há uma razão freudiana nessa minha dificuldade com o “se” e o “não”. Talvez porque não me dê bem com dubiedades.

Se for pra contar vantagem, posso dizer que tiro de letra o uso do porque, porquê, por que e por quê. Também sei de cor, desde criancinha, todas as preposições simples: “A, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, per, perante, por, sem, sobre, sob, trás”. Talvez tenha sido a única lista que decorei no tempo da escola.

Como ouvi há muito tempo de um psicanalista: “Não existe memória, existe desejória”. Por isso, só guardo o que é essencialmente importante.

Se não morri até agora, disso não morro mais.

Será que acertei? (Se errei, senhor revisor, me diga, que incluo suas considerações. Grata).

Senão, posso perder os leitores que pacientemente venho tentando conquistar. (Acho que agora acertei!)

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

Últimas notícias