Ainda falta um ano para o Carnaval. O que será de nós até lá?

Até lá, teremos de nos contentar com os carnavaizinhos dos sambas, das festas, dos bares, de onde houver uma vontade danada de pular

Mulher toca instrumento no Bloco do Galo CegoMyke Sena/ Especial Metrópoles

atualizado 08/03/2020 11:57

O Ministério da Alegria adverte: esta crônica contém doses insalubres de irresponsável e desavergonhada felicidade carnavalesca. Foi um susto perceber que ainda faltam doze longos meses para o próximo Carnaval. Até lá, teremos de nos contentar com os carnavaizinhos dos sambas, das festas, dos bares, de onde houver uma vontade danada de pular e cantar, de tomar banho de gliter e se vestir de qualquer fantasia que não seja você mesma.

As multidões nos humanizam – mas também são potencialmente perigosas, tudo depende do que as move, se o pior ou se o melhor de nossa pobre condição bípede e falante. O Carnaval é da ala do que há de menos pior em nós, a capacidade de ser feliz mesmo contra a nossa vontade e as nossas circunstâncias.

Enquanto escrevo, tem gente chegando à quadra da Aruc para o carnaval da ressaca. A valente azul e branca foi pra rua, mesmo sem o desfile das escolas. As agremiações de Brasília, à exceção de duas ou três, são incipientes, sim. Mas há nelas um desejo comovente de brilhar, e há em algumas delas uma transmissão de saberes carnavalescos que chegaram ao Planalto Central pelas mãos dos cariocas, disso todos sabemos.

Sessenta carnavais depois, o Plano Piloto conseguiu encontrar uma expressão própria para a folia. Aqui, ela passa pelo pilotis, se espalha pelos imensos vazios do canteiro central do Eixo Monumental, tem nomes muito singulares – quem entenderia, a não ser os brasilienses, o Rejunta meu Bulcão? Em nenhum outro lugar do mundo, nem nos demais países de língua portuguesa, nem no Google Tradutor, se conseguiria entender esse nome.

Só nós entendemos o que é o Suvaco da Asa, o Setor Carnavalesco Sul e o Ventoinha na Tesourinha. Glória e tragédia de uma cidade que se pretendia democrática, o carnaval dos blocos quase que se concentra no Plano Piloto e nele todos se conhecem – tão pequena é a burguesia brasiliense. É bom, mas é ruim. Bom porque é uma festa semovente, uma ocupação urbana ambulante e feliz, um encontro de amigos ou de amigos dos amigos. Ruim porque somos muito poucos.

 

 

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Mas nesse muito pouco é que está a cumplicidade dos foliões da cidade-maquete. Como se, num descuido do carcereiro, um Saidão carnavalesco levasse todos os prisioneiros para uma liberdade provisória – e por isso mesmo, intensa, solidária, afetuosa.

De família muito pequena, e de vida um tanto reclusa, o Carnaval é pra mim o Natal, o Ano Novo, o aniversário, o almoço de domingo, a festa de casamento, o baile de formatura, é tudo junto. E no meio da rua. Os bloquinhos de Brasília são a momentânea rua que não temos. No Carnaval, o brasiliense dá bom dia no elevador, sorri no pilotis, cumprimenta no mercadinho, dá passagem na fila da padaria.

No Carnaval, o brasiliense é mais brasileiro, e o brasileiro até parece possível.

*Quem acha que acabou, na sexta, 13, tem o Samba do Peleja das Mulheres, no Outro Calaf.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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