A vida segue no ponto de ônibus de Letícia. Com apreensiva coragem

Célia sabe que corre risco, teme que um dia todas as mulheres sejam assassinadas e já pensa em voltar para morrer na cidade onde nasceu

Andre Borges/Esp. MetrópolesAndre Borges/Esp. Metrópoles

atualizado 29/08/2019 11:47

A hora é a mesma em que Letícia chegou ao ponto de ônibus pela última vez. São 7 da manhã no Arapoanga, bairro de Planaltina, a 44 km da Rodoviária do Plano Piloto. Três mulheres e dois homens esperam o transporte. Da estrutura de concreto aparente, pode-se ver – numa trágica paisagem – o apartamento onde morava a bela jovem vítima de Marinésio.

Exceto pela presença inusual de uma equipe de tevê, a quarta-feira se desdobra como outra qualquer. Manhã de agosto, céu limpo, sol inteiro e uma avenida de duas pistas esticando-se num platô típico do Planalto Central. Nos chapadões parece não haver lugar para esconderijo, mas o mal se esconde até no rosto mais simplório. O mal é invisível, camaleônico, mimético.

Duas mulheres conversam e o assunto é a morte trágica de Letícia. “Ela nem pode mais se defender, coitada. Morto não fala”, diz uma delas. Quando a outra vai embora, me aproximo sem me identificar.

Não é difícil puxar assunto. Célia Santos, 40 anos, negra, maranhense de São Luís do Maranhão, tem a prosa fácil dos nordestinos. Conta que um dos filhos tem a mesma idade do menino de Letícia e que os dois pegavam o mesmo transporte para a escola. Que anteontem (26) a tia da van não trabalhou, atordoada com a notícia.

“Mulher é coisa frágil, né? Se fosse um homem, dava uns murros nele. Eu já disse lá em casa, se me bater, até bate, porque não tenho como me defender na hora. Mas uma hora tu vai dormir e eu tasco água quente no teu ouvido.”

“Que é isso, mulher, tá doida? Acha que vou te bater?”

Pelo sim, pelo não, Célia disse que nunca apanhou do marido, mestre-de-obras, baiano, 44.

Célia está esperando o ônibus para o Lago Sul, onde às quartas-feiras trabalha de diarista. Diz que ganha R$ 150 + transporte só para limpar a cozinha e que o patrão, um juiz, paga outras três – para limpar o restante da casa, para cozinhar e para lavar e passar.

Nos demais seis dias da semana, é “fichada” num restaurante. “Inventei de arrumar mais confusão.”

Já se passou mais de meia hora e o ônibus dela não passa. A prosa prossegue.

“Vi a cara dele na tevê, repunei. Engana fácil. E o carrão? Quem podia imaginar?”

“Ela era bonita, bem apessoada. Eu sou feia…”, ri, meio sem jeito.

“Tem coisa mais difícil que [ser] mulher? Qualquer coisa está apanhando de homem. Não pode separar que morre matada. Daqui [a] uns dias não vai ter mais mulher, só homem. Aí quero ver eles engravidar, vão ver o que é bom. Quero ver se atracar um no outro.”

“Vim pra Brasília com 15 anos, queria enricar. Meu filho de 15 anos voltou pro Maranhão, estuda, faz capoeira, diz que pra cá não volta de jeito nenhum.”

“Em casa a gente racha tudo, aluguel, creche, van, comida. Já sei que não vou enricar mesmo. Vou é voltar pro Maranhão pra ser enterrada lá. Aqui tudo é pago.”

Trinta e cinco minutos de prosa depois, me despeço de Célia, digo que sou jornalista – ela ri, acha bom, diz que a prosa dela não é boa, se deixa fotografar. E ela segue esperando o ônibus para o Lago Sul.

A renda per capita no Lago Sul é de R$ 8 mil; quase 10 vezes mais do que a de Planaltina, R$ 930. Seria apenas injusto, não fosse cruel.

Pego o ônibus para o Plano. Uma hora e vinte de trânsito razoavelmente congestionado. Algo próximo de 70% dos passageiros são mulheres. A maioria delas, as que estão sentadas, dorme. Outras, bem poucas, ficam ao celular, ouvem música, lançam um olhar vago para a paisagem, quase toda ela cerrado cinza, seco, indiferente.

É de silêncio, teimosia, cansaço e indiferença que vai se vivendo quando viver é custoso demais.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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