A dor do corpo, a dor da alma, e o jogo com Deus, ombro a ombro

Lições de quem aprendeu a lutar pela vida sentando-se à mesa do Divino e aceitando o desafio de jogar a partida com coragem e elegância

Stephanie Arcas/MetrópolesStephanie Arcas/Metrópoles

atualizado 27/08/2019 9:37

Uma amiga por quem tenho imensa admiração enfrenta novamente um câncer. É extraordinária a capacidade dela de encarar objetivamente a doença e, ao mesmo tempo, abrir o coração (objetivamente também) aos amigos.

Ela inventou um jeito muito legal de não ter de contar, um a um, o que está acontecendo e também de facilitar a vida daqueles que não sabem lidar com a vida, a doença, a morte.

A cada novo fato objetivo que contenha informações, as mais precisas possíveis, ela manda uma mensagem aos amigos. Além de escrever com português impecável – e, portanto, ser uma leitura acalentadora –, minha amiga nos presenteia com coragem e elegância extraordinárias (extraordinária é uma palavra que só se deve usar extraordinariamente).

Esclarece em que ponto estão a doença e o tratamento, apresenta as perspectivas, sempre calcadas em pareceres médicos, responde a perguntas que poucos teriam coragem de fazer, mas que gostariam de saber (se ela vai morrer, se vai sofrer muito com o tratamento, se o cabelo vai cair…), e ainda termina agradecendo com muitos coraçõezinhos o afeto de cada um de nós.

Viver é isso, fico pensando depois que leio as mensagens de minha extraordinária amiga. A civilização e a ciência nos arrancaram do contato bruto com a brutalidade da vida — as doenças, os padecimentos, as incertezas, as derrotas, as tragédias, a morte. Minha amiga retoma essa coragem original que os humanos tínhamos antes de, passo a passo, irmos fugindo das questões prementes que acompanharam a espécie por milênios.

Minha amiga aceita o jogo que Deus impõe a ela – o de lidar com uma doença que parecia ter ido embora, mas que voltou e pode voltar a voltar. E joga o jogo quase ombro a ombro com o Todo-poderoso. Não se ilude: sabe que é mortal. Imortal é Ele. Nem implora que o Divino aja sobre ela e a mantenha viva. Ela age e joga a partida de vida ou morte, louca para viver, mas sem o desespero de saber que pode morrer. Ela aceita o desafio e se senta à mesa da luta pela vida com a altivez dos que sabem combater o bom combate – porque a vida, nos disse Rosa, o que quer da gente é coragem (e afeto).

Ficar doente é o modo que Deus encontrou para a gente não se esquecer de que um dia vai morrer. Ficar doente é um modo de perceber que a vida é um milagre tão fantástico e misterioso quanto a escuridão imensurável do universo.

Aproveitei o privilégio de poder acompanhar as mensagens soberanas da amiga, conversamos um pouco sobre as dores da alma e ela me respondeu: “É horrível sentir dor. Especialmente as da alma. Mas já aprendi que é inevitável. Porque ela também nos faz sentir vivos. É bom estar vivo. Essa chance do eterno e infinito também é boa, não é?”.

Não sei como me comportaria ou me comportarei numa doença séria. Mas aprendi com essa primorosa amiga que é possível jogar com destemida elegância o jogo que Deus nos impõe. Por certo, haverá um fundo de pavor na disputa, pois, afinal, é jogar com quem tem o domínio das cartas e de tudo o quanto as rege. Mas suspeito de que Deus, ou os deuses ou o mistério ou o absoluto, como quiserem, dá chances ao jogador que se atreve a aceitar com dignidade e leveza a partida. Até porque deve ser um deleite para Ele ver uma criatura que sabe honrar tão lindamente a sua criação.

Pode ser um jogo extraordinário, não importa quanto tempo dure.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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