“Nostalgia da velhice”: Antônio Fagundes conta como lida com 3ª idade

No ar como o empresário Alberto em Bom Sucesso, ator fala com a coluna sobre vida, morte e o fato de ainda ser considerado um galã

DivulgaçãoDivulgação

atualizado 05/09/2019 22:19

Rio de Janeiro – Aos 70 anos, Antonio Fagundes já está há tempos no Olimpo da teledramaturgia no Brasil. Afinal, personagens marcantes não lhe faltam, como o inesquecível Pedro do seriado Carga Pesada (1979), o inteligente Ivan de Vale Tudo (1988), e o charmoso Atílio de Por Amor (1997), para citarmos apenas alguns.

No ar em Bom Sucesso como o empresário Alberto, proprietário da Editora Prado Monteiro, o ator tem a oportunidade de explorar assuntos  profundos, que passeiam entre literatura, envelhecimento e morte.

Nesta entrevista para a coluna, o eterno galã – que ainda arranca suspiros por todo o Brasil – fala sem reservas sobre a vida, o tempo e a finitude. E mais:  é só elogios para sua grande parceira de cena na novela: Grazi Massafera. Confira!

Resumidamente, quem é o Alberto em Bom Sucesso?
Alberto Prado Monteiro é o dono de uma grande editora. Começou vendendo enciclopédias de porta em porta, comprou uma editora e foi crescendo. Editou enciclopédias, clássicos e livros seguindo uma linha cultural forte. Naturalmente, a cultura começa a decair no país, mas ele, teimosamente, não quer mudar sua linha editorial e a empresa começa a passar por problemas.

E há a questão da morte iminente dele por conta de uma grave doença…
É gozado, porque não falamos de duas coisas: velhice e morte. Se a velhice chegar, é porque nós não morremos. Se não chegar, é porque morremos antes. Essas duas coisas são bastante presentes na vida a partir dos 20 anos.

Depois dessa idade, nossas células começam a envelhecer e a não nos preparamos para isso. Tem até uma frase do Goethe, o escritor alemão, que diz: “A velhice nos pega de surpresa. É uma loucura, porque estamos envelhecendo a cada minuto da vida.”

Como você encara isso?
Eu gosto sempre de citar um livro da Ana Claudia Quintana Arantes, que praticamente está nos estimulando nessa novela, chamado A Morte É Um Dia Que Vale A Pena Viver. Ele fala sobre cuidados paliativos, uma forma diferenciada de encararmos a morte. A morte não como doença, mas como um limite para a vida.

Então, ao invés de tratar a doença até a hora da morte, vamos tratar da pessoa enquanto ela está viva. Essa coisa de que é interessante você estar bem quando morrer. Eu quero estar bem de saúde quando morrer.

De que maneira Antônio Fagundes lida com o envelhecimento?
Sempre lidei muito bem e brinquei que tinha nostalgia da velhice. Queria ser mais velho porque achava que a velhice seria uma coisa interessante. Agora que estou mais velho, estou confirmando isso. É muito bom! Claro que não dá para subir mais a escada de três em três degraus, mas dá para subir de dois em dois. Depois, sobe de um em um, e aí não sobe mais escadas (risos). De qualquer forma, é uma coisa com a qual eu lido bem.

Como você cuida da saúde?
Confesso que sempre fui muito preguiçoso, nunca fiz exercícios. Mas, agora, passei a fazer um pouquinho porque comecei a sentir dor nas costas. Tem uma frase do Oscar Wilde que adoro: “Tudo com moderação, inclusive a moderação”. Essa frase define o que quero para minha vida.

Quero fazer as coisas que tenho que fazer, mas moderadamente. Quero fazer exercícios, mas não ser um atleta. Quero ter um cuidado alimentar, mas não deixar de comer coisas gostosas. Estou me cuidando assim.

Como está sendo a parceria com a Grazi Massafera?
Ela é uma gracinha de pessoa, uma atriz ótima! A personagem dela é muito boa e a relação com o Alberto é superinteressante. A Grazi é querida, simpática, agradável, bem-humorada e uma atriz de mão cheia. Está no auge da carreira e acho que vai crescer ainda mais. Está aproveitando com sabedoria cada segundo que a personagem permite. É um prazer trabalhar com ela.

O universo literário do seu personagem acaba sendo um “parque de diversões” para você, não é?
Eu já falei que vai ficar um buraco na estante, porque vou roubar uns livrinhos de vez em quando!

Você é adepto da leitura. Essa dedicação ao universo dos livros ajuda na saúde mental?
Tudo está na cabeça. Se parar para pensar, o tempo que se leva para limpar o WhatsApp – e tem que fazer, senão fica muito carregado – é de umas duas ou três horas por dia. Se você ler durante duas ou três horas por dia qualquer livro, vai ler dois ou três livros por semana. E vai sobrar muito mais do que uma limpeza do WhatsApp. A leitura vai deixar alguma coisa.

Um ritmo mais calmo é necessário atualmente, não?
As pessoas, ao meu ver, estão precisando de mais tempo, silêncio, calma. Tem até um movimento chamado slow para que tudo seja feito com mais calma: comer devagar e ver um filme mais lento, para deixar o conhecimento sedimentar na cabeça.

E não estamos deixando isso acontecer, é tudo muito rápido. Ganhamos essa velocidade, uma coisa interessante, mas gosto das coisas que nos fazem pensar.

O Atílio, personagem que você interpretou em Por Amor, ainda faz sucesso entre a mulherada?
O Atílio é perfeito com as mulheres. Ele é quase chato e faz até salada! As mulheres querem um Atílio em suas vidas (risos).

Qual é sua relação com as plataformas digitais?
Não tenho nada! Não tenho nem computador. Tenho um Instagram que não é meu, é de uma fã minha de Portugal, que gosta muito de mim e fez. Inclusive, ela coloca: “Antônio Fagundes não tem nenhuma rede social”. É que ninguém lê! Todo mundo acha que é meu, mas está lá escrito. Parece que tem um Facebook também, que é de outra portuguesa.

Seu nome sempre aparece na lista de galãs. Como recebe isso?
Toda vez que o povo diz isso minha filha, Dinah, me liga e fala, aos risos: “Que povo bom, hein, meu pai?”. Realmente, é bondade das pessoas. Na minha idade, eu ainda ser considerado galã… Meu Deus do céu, só tenho a agradecer!

 

Para saber mais, siga o perfil da coluna no Instagram.

SOBRE OS AUTORES
Marcelo Nobre

Formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), começou a trabalhar com jornalismo na Editora Símbolo, em 2002, como repórter e redator. Ao longo de mais de 15 anos de atuação como jornalista, fez trabalhos para editoras como Ediouro, Escala e OnLine, escrevendo, editando e revisando mais de 100 mil textos para revistas, livros, jornais e sites. É sócio-proprietário da Novel Editora.

Marcos Maynart

Formado pelo Instituto Metodista, em São Paulo, há mais de 35 anos vivencia o universo das artes e do entretenimento. Sua carreira foi trilhada em redações como as da TV Manchete, Abril, Ediouro, Símbolo e Novel, da qual é sócio. Participou da criação e edição de dezenas de revistas, como Contigo, Cabelos & Cia, Chiques & Famosos, Tititi, Supernovelas e Tua.

Últimas notícias