Fazer o bem: Ana Laura Mazzei apresenta a emocionante Casa do Carinho

Conto de fadas! Conheça a história de amor, cuidado e perseverança da mulher que dedica sua vida em prol de crianças abandonadas

Vinícius Santa Rosa/ Metrópoles

atualizado 04/10/2019 9:30

Acolhimento e amor. Essas são as sensações que vem à tona ao chegar em Ceilândia Norte, nas casas que abrigam o Lar Bezerra de Menezes Cuidado e a Casa do Carinho. Vice-presidente das duas instituições, Ana Laura Toffano Mazzei nos recebeu com seu largo sorriso e nos apresentou às crianças e aos funcionários, além de mostrar detalhes das instituições, que são interligadas.

O Lar Bezerra de Menezes abriga crianças abandonadas de zero a 10 anos de idade. A maior meta é reintegrá-las às próprias famílias. Apesar da realidade delicada, os meninos e meninos acolhidos receberam a equipe do Metrópoles com alegria. Brinquedos distribuídos em diversos locais comprovam que, ali, as crianças se divertem. Como um verdadeiro lar.

Quanto à Casa do Carinho, trata-se do primeiro abrigo do DF a ter sistema home care.  Crianças abandonadas em hospitais, diagnosticadas com síndromes múltiplas e que têm o sistema respiratório, motor ou digestivo comprometidos recebem, por lá, a acolhida e o tratamento adequados. O ambiente é inteiramente adaptado às necessidades de cada uma.

Ana Laura Toffano Mazzei

Ana Laura é paulista, nadadora profissional e campeã brasileira na modalidade.  Em 1998, ela foi aprovada em Matemática no vestibular da UnB e se mudou para Brasília.  Na capital federal, se engajou com trabalho voluntário, atividade que estava na lista de seus desejos. Passou a estudar asilos para entender a dinâmica desse tipo de espaço. Percebeu que todos tinham uma limitação, e começou a pesquisar como seria comandar uma iniciativa própria com essa mesma finalidade.

Como em uma história de conto de fadas,  a atleta conheceu o amor de sua vida no meio desse processo. Um amigo em comum a apresentou a Mc Arthur Di Andrade Camargo, que também queria criar uma ONG. Eles se apaixonaram e se casaram. O Lar Bezerra de Menezes foi o primeiro abrigo fundado pelo casal.

Diante do belo trabalho feito pela instituição, a Vara da Infância e da Juventude, em 2017,  propôs a Ana Laura uma demanda bem desafiadora: a de abrigar crianças que estavam abandonadas em leitos de UTIs de hospitais públicos. Assim nasceu a Casa do Carinho.

 

Lar Bezerra de Menezes

O sonho foi concretizado. Em 2011, foi fundado o Lar Bezerra de Menezes,  que recebeu as primeiras crianças em fevereiro do ano seguinte.

O maior trabalho e grande diferencial é reintegrar as crianças abandonadas aos pais ou a algum membro da própria família, como uma tia ou um avô.

Com ajuda de um corpo técnico liderado pelo psicólogo Denilson Sousa Melo – responsável por investigar e reestruturar a família biológica –  mais de 200 pequenos puderam voltar ao lar. A ONG Resgate auxilia outros abrigos a fazer o mesmo.

“Se você conseguir dar um destino para essas crianças, não há porque ter cinco abrigos. O abrigo não é um fim, e sim um meio para serem plenas”, acredita Ana Laura.

 

Casa do Carinho

Depois de ser destacada pela Vara da Infância para receber crianças com síndromes múltiplas, Ana Laura visitou crianças na UTI do Hospital Regional de Santa Maria para entender como funcionavam os cuidados. Ela aceitou o desafio, mas pediu que começassem com dois leitos, para ter certeza que daria conta do recado.

O espaço necessário para essas crianças é bem diferente do que se imagina. Elas precisam de uma cama de hospital e técnicos 24h.

Passados três meses de cuidados, o casal à frente da ONG constatou que teria possibilidade de receber mais casos. No entanto, com um importante cuidado.  O local precisaria ser exclusivo. Para tirar a ideia do papel, foi feita uma campanha em redes sociais com o intuito de angariar fundos. Depois que atingiram a meta, adquiriram a casa onde hoje funciona a instituição.

“Vimos que não daria para cuidar das crianças doentes junto com as do Lar Bezerra de Menezes. Elas são especiais, e mereceriam isso”, recorda a filántropa.

Como são poucas as chances de adoção, o objetivo é  reaproximar a própria família para que visite os pequenos e tenham algum contato. “Tentamos reaproximar as famílias para que elas possam estar perto de seus filhos, dentro das possibilidades individuais”, conta.

Trabalho dos Voluntários

O voluntário tem um papel essencial, embora as instituições tenham um excelente corpo de funcionários. Há quem realize festas de aniversário para as crianças de acordo com o tema desejado, algo que muitas delas nunca tiveram; ou, ainda, quem leve os pequenos ao teatro, onde podem se encantar com espetáculos como Marsha e o Urso. Por meio deles, o abrigo se torna mais humano e feliz.

“Certa vez, uma voluntária trouxe um cachorro que tem o costume de visitar hospitais. Crianças em que eu nunca vi expressão no rosto choravam. O Caíque, por exemplo, nunca havia emitido som, e se divertiu repetindo ‘au au’“, relatou a solidária, sem esconder a emoção.

 

Histórias

Uma das histórias mais impressionantes é a de um menino, morador de rua, que teve o corpo gravemente queimado. O garoto foi hospitalizado, mas ninguém encontrou a família ou responsáveis.

“O caminho dele era a adoção. Falei com a Vara da Infância que ele precisava ficar no abrigo pelo menos seis meses, porque nunca frequentou a escola nem conviveu em família”, rememora.

“Interagindo, o pai adotivo questionou: ‘O que você mais gosta de fazer?’, ao passo que o menino respondeu: ‘Eu amo empinar pipa’.  O homem que iria ser responsável pela criança tinha uma tatuagem de um menino empinando uma pipa”, relembra a solidária. A sintonia foi imediata, e ela jamais esqueceu desse diálogo permeado de coincidências que, para muitos, é a mão divina ou o destino.

Outro caso que marcou Ana Laura foi a de uma bebê abandonada em uma lixeira no Lago Norte. O corpo técnico fez uma visita à mãe e defendeu que a criança deveria ser reintegrada à família. “Fiz questão de ir lá para entender, conhecer essa mãe. Ela me contou suas mazelas, e eu me senti tão pequena. Pensei: quem sou eu para julgar essa mãe?”, afirma.

A outra história é de uma criança atendida pela Casa do Carinho. Aos 13 anos, ela foi agredida na rua e entrou em coma. Para os médicos, o quadro era irreversível.  Uma vez no abrigo, com amor e atenção, o menino acordou e está prestes a começar os estudos. “O Leandro é uma prova do que o amor e do que a Casa do Carinho podem fazer”, diz.

 

Sustentabilidade do Abrigo

Gerenciar uma ONG não é fácil. O custo é alto e as contas, bem se sabe, chegam todo final do mês. As casas não recebem ajuda do governo. O Instituto Sabin é um parceiro e ofereceu um curso sobre como uma ONG pode se tornar autossustentável. Foram desenvolvidos alguns projetos, como um selo virtual, para dar visibilidade às empresas que ajudam.

Quando visitaram o Hospital do Amor, em Barretos, o grupo se deparou com o projeto de um cofrinho personalizado com a conta da ONG impressa nele. Lá, a própria pessoa deposita as moedinhas e, ao encher, faz o depósito à instituição.

Outra forma de renda é a venda de um hambúrguer gourmet congelado que um chef voluntário confecciona. As carnes são doadas pela Soberana Carnes. “Fabricamos botons, squeezes, canecas, cadernos e outros produtos para diversificar o retorno de rendas, porque todo final do mês é desesperador”, lamenta.

Para quem se sensibilizou com o trabalho e quer ajudar a Casa do Carinho e o Lar Bezerra de Menezes, o contato pode ser feito por meio do site oficial.

 

 

 

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