Fazer o Bem: a família Passarinho e a Casa do Pequeno Polegar

"Um gesto de amor multiplica os amigos". Com esse lema, legado de Ruth Passarinho resiste depois de 52 anos

Vinícius Santa Rosa/Metrópoles

atualizado 04/11/2019 16:41

Júlia Passarinho e Marina Abdo receberam a equipe do Metrópoles na Casa do Pequeno Polegar para contar a bela história de uma família que tem a solidariedade como prioridade. Tudo começou devido à doença da mãe de Júlia, Ruth Passarinho. Ela contraiu tuberculose enquanto estava grávida, há 70 anos. À época, o risco de vida era enorme.

Com pouca chance de cura, Ruth chegou a ir ao sanatório em busca de tratamento. A mulher do ex-ministro Jarbas Passarinho perguntou ao médico quanto tempo precisaria para ficar sem indícios da doença. A resposta? No mínimo seis meses. “Anote na minha ficha que, em seis meses, vou sair daqui curada e ter meu filho saudável”, contou Júlia Passarinho.

Assim aconteceu. Após o exato período, Ruth estava curada e fez várias promessas durante o tratamento. Uma delas foi de ajudar as famílias contaminadas pela tuberculose.

A família Passarinho mudou-se para Brasília em 1967 e inaugurou A Casa do Pequeno Polegar, que surgiu para coroar esse compromisso de amor com as crianças que sofriam e as que perdiam os pais em Brasília. “O Núcleo Bandeirante era uma região com o foco da doença”, relatou Júlia.

Nova sede

A Casa do Pequeno Polegar foi fundada para cuidar de crianças saudáveis que tinham pais com tuberculose. À época, a doença dizimava núcleos familiares. Ruth fundou a organização e trabalhou com terapêuticas para erradicar a doença no Núcleo Bandeirante.

Ela foi ao governo à procura de ajuda. Na ocasião, conseguiu a doação de uma casa na Vila Planalto para criar uma instituição. Com estrutura de madeira, a residência pertencia aos bombeiros. As crianças ficavam em sistema de internato até os pais obterem a cura.

Depois de ser atingida por um raio, o lar pegou fogo. Desesperada, Ruth subiu na boleia de um caminhão e pediu ajuda aos comerciantes da região para não deixarem as crianças com fome. O marido da filantropa era ministro e solicitou socorro às senhoras ligadas ao governo. As 100 crianças foram acolhidas e transferidas para uma igreja na L2 Sul.

Após um tempo, a instituição recebeu um lote no Lago Sul, onde está instalada há 52 anos. Na região, em que só existia o aeroporto, havia muitos terrenos baldios.

“Um gesto de amor multiplica os amigos”. Esse foi o lema de vida de Ruth Passarinho. Novamente, a fundadora da instituição recorreu a amigos e mobilizou várias pessoas para ajudá-la a construir o seu sonho. Ela buscou assistência com o projeto de arquitetura, a construção e a decoração da casa. Para inaugurar a sede em grande estilo, produziram uma peça teatral com senhoras da sociedade de Brasília.

Perda de Ruth Passarinho

Foi em uma viagem a Minas Gerais, durante compras de roupas para os pequenos, que Ruth descobriu ter câncer no cérebro. Ela faleceu dois anos depois, aos 62, deixando a obra de amor e de solidadriedade para a família tomar de conta. Os filhos se uniram para que o belo trabalho não acabasse.

Júlia já trabalhava com educação. Ela tem sua própria escola, o Indi. Quando assumiu, a creche ainda funcionava em sistema de internato. Contudo, depois de mudança na legislação, a Casa do Pequeno Polegar precisou alterar o estatuto para se adaptar às novas leis. A educadora renovou convênio com o Governo do Distrito Federal (GDF). A qualidade de ensino da instituição é equivalente à da escola particular dirigida por Júlia. Os professores são preparados por ela.

As irmãs ajudaram. Angélica, a mais nova, era presidente até a morte de Ruth. “Foi duro e difícil para nós. Uma das coisas que não podíamos deixar à deriva era exatamente a obra. Para nós, sempre será um legado de amor”, acredita Júlia.

Nova administração

Depois de 52 anos de história, é impressionante como a qualidade de educação em uma obra como essa consegue se manter. Segundo Júlia, o segredo da longevidade é a colaboração de todos os envolvidos com o lema de Ruth. A máxima realmente funciona e faz com que as pessoas se sintam úteis e parte de uma causa maior.

“Quando a situação está muito difícil, dizemos: ‘Pronto e agora?'”. De acordo com Júlia, do nada, chega um amigo, que leva outro e, juntos,  conseguem solucionar o problema em voga. Tudo isso amplia a teia de suporte, sustentando e fortalecendo a instituição.

Ao ver o empenho dos voluntários, as crianças acabam refletindo o amor que recebem. “Elas têm esses gestos de carinho conosco. Volta e meia recebemos um ‘ex-Polegar’ com ensino superior. Para nós, é um acalento para o coração”, contou Júlia. Missão cumprida quando veem tais casos.

Os administradores da Casa do Pequeno Polegar atuam como voluntários. O corpo de funcionários é remunerado, porém, como a verba é insuficiente,  fazem bazares, almoços e outras atividades, além de pedir ajuda, para arrecadar os recursos. “Precisamos ter humildade de pedir. Quando as pessoas vêem e conhecem o que é a obra, conseguimos arregimentar.”

A caçula da família, Angélica Passarinho, era a presidente até o ano passado. Ao dar prosseguimento à história, Júlia se emociona e, em meio a lágrimas, diz amar o que faz.

“Minha mãe morreu aos 62 anos e deixou esse legado. Chamaram e veio a família. Não podíamos deixar de estar juntos aqui. As três mulheres trabalharam, mas, ao longo da vida, perdi as minhas duas irmãs”, revelou. Atualmente, Marina Abdo está na presidência, o posto maior da instituição.

Com a missão da Casa do Pequeno Polegar nas veias, Júlia atua como vice-presidente desde o falecimento da irmã. “Para manter todo o trabalho e essa história”, frisou. Ela afirma que não vive uma solidão profunda porque trabalha de corpo e alma nesse grande objetivo, e adquiriu irmãos de alma e da vida.

Voluntariado

Para Júlia, os comunicadores conseguem mobilizar e sensibilizar as pessoas que podem ser voluntárias de várias formas. Se alguns indivíduos ficam apreensivos na hora ser colaborador em instituições, a filantropa explica alguns tipos de suporte: “Você pode ser voluntário no aspecto de multiplicar as campanhas e de arrecadar renda ou alimentos”.

Há épocas em que a Casa do Pequeno Polegar fica carente de materiais e, por isso, a única opção é pedir. Júlia também incentivou os voluntários a levarem sobremesa para as crianças. “Não precisa esperar um Cosme e Damião para pagar uma promessa e levar docinhos”, apontou.

Outro modo de colaborar é com brinquedos ou roupas. “Nós temos o nosso brechó, que as crianças chamam de shopping”, destacou Júlia. O brechó, ou melhor, o “shopping”, foi montado em homenagem à fundadora e diretora da obra, Altina Paoli.

Ela sempre batalhou e buscou maneiras para tornar a atividade uma forma de arrecadar recursos financeiros. “É algo que ‘pinga’ o ano inteiro, porque as próprias famílias vêm aqui”, descreveu. Quem desejar contribuir pode entregar roupas, sapatos, adereços e móveis.

Com o método, as famílias têm a oportunidade de adquirir peças que não teriam como comprar em lojas. Os itens doados não ficam somente à venda. Os voluntários distribuem entre os atendidos.

No entanto, de acordo com a vice-presidente, quando uma pessoa decide ser voluntária frequente, a principal convicção que deve ter é a responsabilidade e o compromisso, pois são criados vínculos com os pequenos. “Eles têm uma carência afetiva enorme. Todo mundo que chega ganha abraços, beijos, as ouve cantar. As crianças fazem questão de agradecer dessa forma afetuosa”, enfatizou Júlia.

Marina Abdo – Gestão da Casa do Pequeno Polegar

Depois que Angélica faleceu, Marina Abdo tinha a pretensão de entregar o cargo de vice-presidente. Ao ouvir a súplica de Júlia, mudou de ideia. Sem ter experiência administrativa em uma escola, a gestora se aventurou ao descobrir, na prática, como funciona a importante função.

“É um desafio, porque você tem diversos problemas, além de buscar atrações para as crianças”, contou Marina.

A presidente afirmou que a Casa do Pequeno Polegar passará por um processo de transformação por exigências da Secretaria de Educação do Distrito Federal. Entre as mudanças, está a redução de idade de 5 anos para 3.

“Nós teremos alunos com até 3 anos. Com isso, vamos precisar transformar o nosso estatuto, pois viraremos creche. Hoje, estamos como pré-escola. Isso terá que ser transformado”, salientou.

A instituição também precisará adequar o espaço físico e criar outras salas para atender os estudantes. “Se perdermos alunos, não compensa a manutenção da creche. O espaço é grande. Temos condições de oferecer mais”, reforçou Marina. Antes de assumir o posto de presidente, a casa atendia crianças com até 7 anos. “Elas saíam daqui lendo e escrevendo”, lembrou a gestora.

No corpo de profissionais, há 42 pessoas, entre pedagogos, monitores, jardineiro, motorista e menor aprendiz. No quesito voluntários, são 10. Ainda há a parte de costura e pintura em que todos participam.

O calendário de eventos conta com dois almoços beneficentes. “Tivemos a sorte de descobrir um chefe que cozinha superbem. Ele é professor do Senac e oferece seu trabalho para os nossos encontros”, ressaltou a presidente.

Para participar, é preciso pagar o quantia simbólica de R$ 35, como forma de ajuda. No valor, está incluso a refeição e uma sobremesa, com bebida à parte. Os presentes também participam de sorteios de brindes arrecadados, além de cantarem e dançarem ao som de uma atração musical.

“Toda doação para a instituição é extremamente bem-vinda. Pode ser de roupa, sapato ou brinquedo”, contou Marina.

As peças recebidas são vistoriadas e lavadas antes de ficarem disponíveis no brechó. Os preços variam de R$ 5 a R$ 30. “Isso se torna acessível aos pais. A criançada fica encantada de olhar o que tem”, destacou a administradora da Casa do Pequeno Polegar.

Para ajudar, basta passar na secretaria da instituição, localizada na QI 5 do Lago Sul, e avisar que levou uma doação ou entrar em contato pelo telefone (61) 3248-1217.

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