Do pós-treino à hora de dormir: aprenda a fazer “um ritual do chá” em casa

A coluna conversou com a chazeira Eloína Telho para saber sobre sua relação com a bebida, uma das mais celebradas no mundo

Fazer um chá é o ato de infusionar folhas, flores ou raízes de plantas em água quente, fria ou fervente. Ele é mais que um ritual simples. Envolve aspectos culturais, sociais e até nutritivos.

A ingestão simboliza uma mistura de aromas, sabores, texturas e temperaturas, e engloba processos de socialização e relaxamento.

A bebida, muito recomendada pelos profissionais da saúde, apresenta inúmeros benefícios ao corpo e ostenta uma legião de fãs, que dedicam tempo e dinheiro ao estudo profundo do chá, além de pesquisar novas experiências e sabores mundo afora.

Em Brasília, Eloína Telho se destaca por sua paixão pelos chás. A servidora pública mergulhou no universo das infusões. Hoje, comanda o Instagram @chazeira, que encanta mais de 9 mil seguidores.

Criado em 2016, o perfil na rede social surgiu como uma maneira de organizar e registrar suas experiências diárias com o chá. A princípio, a conta servia apenas como um álbum de fotos, mas, surpreendentemente, muitos internautas expressaram interesse na página que passou a ser um canal de informações sobre chás e infusões.

Eloína Telho é idealizadora do perfil no Instagram @chazeira

Nascida em Cuiabá, Eloína radicou-se na capital, após idas e vindas frequentes devido aos trabalho dos pais. Por fim, em 2012, estabilizou-se na capital e, de lá pra cá, nunca mais saiu.

O encantamento pelos chás veio por afeto. “O ritual ganhou meu coração a partir de um presente, um livro muito especial, ‘Alice no País das Maravilhas’, que ganhei de uma tia muito querida, em 1984. Imaginar aquela mesa, as xícaras, o universo do chá, marcou, de algum modo, o meu coração”, disse à coluna Claudia Meireles.

Alice no País das Maravilhas

Aos 15 anos, a cuiabana foi passar uma temporada em Oxford, na Inglaterra, coincidentemente a terra da Alice que originou a história. “Lá, tive o presente de morar na casa de uma pessoa incrível e cheia de sensibilidade, minha mãe inglesa, Sue Hearne, que todos os dias me acolhia na volta da escola com chá!”, relatou.

Eloína e Sue costumavam conversar sobre diferentes assuntos, sempre acompanhadas de chá preto inglês tomado nas louças que foram da mãe da anfitriã.

Ao voltar para o Brasil, ela trouxe na mala chás da loja inglesa Whittard. Mas com poucas opções de consumo na terra natal, o hábito de Eloína adormeceu por um tempo.

Até que uma viagem à Índia, em 2012, mudou o destino da chazeira, que logo teve a oportunidade de conhecer o Masala Chai, chá preto com especiarias feito no leite.

“Fiquei enlouquecida com as possibilidade e, a partir daí, passei a estudar, comprar todos os livros a respeito de chá que encontrava pela frente, procurar cursos on-line e presenciais, no Brasil e fora, no Japão, na China, e conhecer plantações pelo mundo”, contou a influenciadora, que compartilhou no Instagram um pouco de cada experiência.

Masala Chai

Para Eloína, não há apenas um chá preferido. “Acho que tudo depende do dia, de como nos sentimos e do que meu corpo ou ocasião pedem”, comentou. Junto aos sobrinhos, a chazeira aposta no Bubble Tea. Já ao lado da mãe, a pedida é o chá oolong. Para começar o dia bem, não pode faltar o matchá. “Nós não somos os mesmos, por que o chá deveria ser, não é mesmo?”, brinca.

Benefícios do chá

As infusões contam com propriedades funcionais dos mais variados tipos. “A família de ‘chás verdadeiros’, aqueles que vêm todos de uma única planta, a Camellia Sinensis (branco, verde, amarelo, oolong, preto e escuro), tem cafeína, por exemplo, que estimula o metabolismo e dá a sensação de alerta”, informa a cuiabana.

Ela, entretanto, expôe que a substância, associada à L-Theanina, faz com que a absorção da cafeína seja lenta, bem como que não haja picos de alerta, como acontece com o café, o que também traz a sensação de relaxamento associada. “Não à toa, os monges budistas usam o chá-verde para estimular o estado meditativo”, pontua.

O matchá é uma boa alternativa para acordar, pois é um chá-verde moído que apresenta boa concentração de cafeína. Já as opções de infusões, como o sul-africano Rooibos, da planta Aspalathus Linearis, são indicadas para a noite e carregam antioxidantes e sais minerais. Ele também pode ser usado como pós-treino natural, “em substituição a bebidas cheias de componentes artificiais.”

A clássica infusão de camomila traz conforto e relaxamento. Já o gengibre e a cúrcuma podem ser excelentes opções para dar uma ajuda à imunidade. “O ideal é que a cúrcuma seja consumida com um pouquinho de pimenta, para que seja absorvida com maior eficácia”, resume. Contudo, a chazeira destacou que cada indivíduo deve consultar um médico ou nutricionista para que possa orientar esse consumo.

Chá de camomila

Apesar dos benefícios, Eloína se relaciona com a bebida de maneira sensorial. “Gosto de analisar nuances de sabor, tão ricas como as já apreciadas com esse foco, como o vinho e o café, por exemplo”, ressalta. “E, para isso, existem fichas técnicas de avaliação específicas, em que analisamos folhas secas e úmidas, gostos, sabores, licor…”, completa.

Onde achar

Em Brasília, Eloína lista marcas voltadas às especiarias. São elas:

  • Tea Shop, com chás puros, de origem, e em folhas soltas;
  • Moncloa, detentora de boa quantidade de blends deliciosos e uma linha de acessórios que tornam o momento mágico ainda mais especial;
  • Vai Té Chá, que oferece mais de 250 opções trazidas por Fábio Pedroza de suas viagens pelo mundo, como raridades taiwanesas e o chá gaseificado;
  • Tê Chás, que tem feito misturinhas de chás inspiradas nas aves do cerrado brasileiro;
  • Cinclos, que desenvolve infusões com base na medicina tradicional chinesa;
  • Adorável Chá, com blends inspirados nas estações do ano;
  • KurTea Station, que homenageia pontos importantes de Brasília em seus pacotinhos;
  • E, pela internet, a Catherine Fine Teas e a Inovamate, marcas cheias de personalidade.
Chá Moncloa

“Temos que provar de tudo, pois só assim descobrimos do que, de fato, gostamos”, lembra.

Aprenda sobre o assunto

No Instagram, Eloína divulga conteúdos que envolvem dicas de leitura para crianças, utilização do chá em receitas culinárias, lugares pelo mundo para tomar a bebida, cosméticos fabricados com o elemento, leitura técnica sobre o assunto, entre outras temáticas que caíram no gosto dos seguidores da influenciadora. “Pelo retorno que tenho das pessoas, em comentários e mensagens de carinho, acredito que tenha uma boa aceitação”, celebrou a chazeira, que concretizou amizades através da rede social.

Confira, no vídeo a seguir, a receita da pipoca de matchá latte:

Cerimônias de chás

Algo bastante curioso a salientar são as cerimônias de chás realizadas pelo mundo, carregadas de formalidades e significados. A cuiabana destaca, principalmente, a comemoração japonesa, que requer um estudo específico por ano. A bela cerimônia, baseada no matchá, inclui vestimentas e utensílios próprios.

A China segue o mesmo caminho, prezando pela completa atenção no preparo e valorizando o significado e o estudo.

O jeito “abrasileirado” de se celebrar a infusão seria, de acordo com a servidora pública, as rodas de chimarrão. Apesar de não se tratar de chá, mas sim da infusão da Ilex Paraguariensis, é “apreciada na América do Sul e originária dos índios guaranis.”

Chimarrão

“Nesse ritual, as pessoas se sentam em círculos para degustar o chimarrão na mesma cuia, que vai sendo reabastecida com água quente enquanto a conversa se desenvolve, começando pela pessoa mais velha, por respeito, e terminando na mais nova. A roda só se desfaz quando a última pessoa toma sua cuia e depois de muita conversa sobre a vida e os dias”, exemplifica.

Ritual de chá

Eloína faz pequenos rituais de chá diariamente, sem estabelecer regras rígidas. Ao degustar um chá japonês, ela tenta se cercar de utensílios com características japonesas: acende um incenso e coloca uma trilha sonora que combine com o momento. “Se escolhi um chá chinês, me apego ao Gaiwan, uma xícara com tampa, para honrar a sua origem”, diz.

Para receber amigos, a chazeira serve à moda ocidental: separa um bule bonito, as melhores xícaras e capricha nas flores. “O importante é preparar o momento! Prestar atenção em si, no outro, nos detalhes, no preparo… O melhor chá vai ser aquele feito com cuidado, com atenção à temperatura da água, quantidade de folhas, tempo de infusão, faz a experiência única e inesquecível, como todos queremos e merecemos”, frisa.

Ritual de chá

Agora, é sua vez! Faça, você mesmo, um ritual de chá, conforme as dicas da expert no assunto:

  1. Prepararás o momento com o teu coração;
  2. Colocarás atenção em cada detalhe;
  3. Não desperdiçarás nem murrinharás;
  4. Cuidarás da temperatura com devoção;
  5. Controlarás o tempo de infusão;
  6. Darás espaço para que as folhinhas se abram;
  7. Guardarás todo o aroma para o momento da degustação;
  8. Experimentarás ao menos uma segunda infusão;
  9. Não terás preconceito;
  10. Serás feliz até a última gota.

Para saber mais, siga o perfil da coluna no Instagram.