Bate-papo com o premiado artista plástico João Angelini

Natural de Planaltina, ele dispara: "Acho preocupante ser o único artista dessa cidade que consiga ter canal com o circuito de São Paulo"

atualizado 09/12/2019 17:09

Hugo Barreto/Metrópoles

João Angelini é um dos mais importantes artistas brasileiros da atualidade. Seu ateliê, Pé Vermelho, foi recém-inaugurado próximo à Praça São Sebastião, em Planaltina (DF). A cidade o marca de diferentes maneiras. Foi onde ele nasceu, no início dos anos 1980. Hoje, se orgulha de fazer parte de um movimento que a situou como um polo de concentração de artistas nacionais em torno de pesquisas em linguagens da arte contemporânea.

Lançado nacionalmente pelo projeto Rumos – Itaú Cultural, Angelini  assina obras que integram diversas experimentações, como desenhos, animações em stop-motion, vídeo-arte, objetos, instalações, pintura à seco e performances. Foi membro do premiado Grupo Empreza com performances radicais. Suas criações integram importantes coleções institucionais e particulares, no Brasil e no mundo.

João Angelini recebeu a Coluna Claudia Meireles em seu ateliê para um bate-papo sobre o mercado das artes, carreira, processo criativo e como é ser um artista plástico morando em Planaltina, fora do eixo Rio-São Paulo.

Artes plásticas

Angelini estudou artes visuais na Universidade de Brasília (UnB) em 2003, em um panorama relevante para assuntos sóciopolíticos e para o mercado das galerias de arte. “Foi muito interessante começar a minha formação antes [desse momento]”, problematiza.

Curiosamente, o ofício de artista ainda não tem uma regulamentação. É um trabalho no qual a estabilidade financeira é incerta. Angelini lembra como foi a reação dos familiares ao saber da sua escolha profissional. “Quando se anuncia à família que, de certa maneira, fará da arte uma profissão, há uma estranheza até com nós mesmos”, confessa.

Grupo Empreza

O Grupo Empreza, coletivo de performance goiano, foi muito importante na carreira do artista. Ele estava prestes a desistir da profissão quando se sentiu inspirado em fazer parte da produção.

“Desisti de ser artista, profissionalmente, em 2007. O sistema de arte é feio, existem alguns modos de operar que não são dos circuitos das artes, mas acabam usando de ferramentas ideológicas do sistema capital, do lobby do contato, mas com discurso em prol da arte”, desabafa Angelini.

No entanto, se sentiu tocado ao assistir uma apresentação do coletivo enquanto trabalhava como videomaker.  Contratado para filmar e fotografar o evento Eixo de Foraviu-se completamente encantado com o trabalho. Não demorou até entrar para a turma, primeiro como técnico e, depois, como artista. “Eles me ensinaram a ser individual, e me salvaram como artista”, define.

“Não-sudestino”

Quem está fora do mercado das artes não se dá conta de como é difícil ser reconhecido morando fora do eixo Rio-São Paulo. Angelini se autodenomina “não-sudestino” e problematiza esse fato.

“Nós não fizemos os cursos das Belas Artes, nem da FAAP, nem do [Instituto] Tomie Ohtake, nem aquela cadência que te dá acesso às pessoas que promovem as grandes mostras. As pessoas não sabem os nossos nomes, não sabem da nossa cara. Isso é muito legal por um lado, porque o nosso trabalho chega antes de nós. Acho que tem um pouco de dignidade nisso, também”, conta.

Obras 

O trabalho de Angelini é produzido com várias técnicas integradas e inclui animação, lascas de paredes, pedaços de concreto e gravuras. O artista realiza seus vídeos a partir de uma sequência de imagens estáticas – desenhos e fotografias –, criando stop motion.

Em seu ateliê, exibe alguns exemplos de vídeo-arte. Na sala principal, uma tela mostra a animação de duas mãos manuseando uma arma invisível. Em outro ambiente, há duas mãos tirando par ou ímpar em um vídeo. Depois, a imagem de um fósforo aceso em uma caixa de papelão, peça que chama atenção.

Outro interesse de Angelini é pensar em camadas. Em um ato manual, ele “escava” a superfície de objetos para revelar “outras cores, outros tempos e outras histórias”. Trabalha texturas em lascas de parede, em diferentes camadas.

Pé Vermelho

O Pé Vermelho é um projeto de vida. Angelini é enraizado em Planaltina e desejava ter um espaço permanente na cidade para que suas obras tivessem um local para permanecer e amadurecer.

Lá, pode receber outros artistas para residência em um intenso processo de troca, o que, na visão do artista, é importantíssimo. “Um espaço que também desse retorno para essa cidade e para essa região”, completou.

 

Acho muito curioso e preocupante que eu seja o único artista dessa cidade que consiga ter canal com o circuito de arte hegemônico de São Paulo

João Angelini

 

 

 

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Colaborou Carlos Silva

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