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Certa vez, cuidei da casa de um colega enquanto ele viajava. Molhei as plantas e dei comida para o gatinho nas minhas horas de almoço, por duas semanas. Nesse meio-tempo, acompanhada de uma amiga, fomos na casa dele rapidinho, resolver o rango do gato, aguar as plantas e correr para algum restaurante. Foi só abrir a porta do apartamento que minha amiga soltou um “pelo amor de Deus, casa de homem com paninho de crochê sobre a mesa não dá, que cafona”. Eu ri e saímos de lá para almoçar.

Quando meu colega chegou de viagem, eu o encontrei em sua casa e não conseguia tirar o olhar do paninho de crochê. Realmente era uma cena singular. Um cara jovem, moderno e seu paninho de crochê na mesa de jantar. Aproveitei para perguntar, ali, tecendo um elogio pretensioso para a decoração da casa dele, qual era a história por trás daquele paninho. E me senti o pior dos seres humanos por ter rido do comentário da minha amiga. O crochê era de uma tia-avó muito querida que morreu e ele quis ficar com o pano como lembrança das férias que passava com ela.

Fiquei pensando como somos rápidos em julgar as escolhas das pessoas. E como ousamos julgar o lar de alguém. Já ouvi tanta gente falar mal da casa dos outros. Tanta gente na internet detonando o estilo e as escolhas de quem abriu as portas da sua casa publicamente. Já me vi nesse lugar de fala horroroso também. Casa é um lugar tão íntimo, tão sagrado, tão pessoal… que não cabe a ninguém tecer qualquer tipo de juízo de valor.

A casa que te faz bem tem de ter a cor que você quiser, os móveis que você quiser e, especialmente, as lembranças que você quiser. Desde então, fiquei com a ideia do paninho fixa na cabeça. Passei a reparar nesses pedacinhos de história que a casa das pessoas entrega, e a ficar imaginando, quando não tinha oportunidade de perguntar, a história por trás daqueles objetos. Até as baias de trabalho dos outros, cheias de apetrechos (às vezes, alguns um pouco esquisitos), eu passei a admirar.

Nós não escolhemos à toa as coisas que expomos nos lugares em que vivemos. Assim como os outros. Se alguém quis um sofá de R$ 30 mil na sala de estar, ela o quis por acreditar que, de alguma maneira, aquele objeto traria alguma felicidade. Assim como o colega do paninho. Um item fora de moda, tido como cafona para o mundo contemporâneo, mas que lhe trazia uma sensação boa.

Pratique essas escolhas de felicidade. Especialmente as mais simples, pois elas nos conectam com o que temos de mais verdadeiro. Conectar a casa com nossas emoções é um exercício lindo para viver melhor.



 


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