Vai ter vacina para a Covid-19. Para a matança da PM, não

Morte por racismo é uma comorbidade que temos, já deixou de ser novidade, e, infelizmente, não tem vacina

João Pedro, João Vitor, Ndeye Fatou Ndiaye.
Vítimas do racismo brasileiro.
Preto, seja pobre, seja rico, vai ser morto, ou violentado por pessoas brancas.

Essas pessoas morreram e foram violentadas pelos brancos privilegiados brasileiros, cujos filhos abrem a boca para dizer que preto vale menos que um chiclete, ou pelos brancos que sustentam as polícias, cuja grande vocação institucional é matar e exterminar inocentes nas periferias.

Eu na verdade nem sei se isso pode sair num veículo de imprensa. Porque numa hora dessas a imprensa mais desinforma que informa. E eu trabalho num veículo de imprensa, sei disso, e não penso que é honesto da minha parte não chamar as coisas pelos nomes.

E a imprensa não consegue dar o nome exato das coisas, quando falamos de pauta de violência nas favelas.

João Pedro, 14 anos, foi assassinado pela polícia.
Assassinado. Esse é o termo, a palavra, a tipificação penal, o FATO, inclusive.
Foram SETENTA E DOIS TIROS na casa dele, onde ele se encontrava, estudando.
Alguns veículos deram como “bala perdida”.

Setenta e duas balas perdidas?

Numa operação policial em plena pandemia, as polícias Civil e Federal, apoiadas pela Polícia Militar do Rio, executaram João Pedro dentro de casa e forjaram uma narrativa que “foram recebidos a tiros por um bandido”, é o que desabafou Neilton Matos, pai do menino, no programa da Fátima Bernardes.

O G1 e o Correio Braziliense deram que João Pedro, 14, foi baleado em operação, ou “desaparecido” em tiroteio e o corpo depois “foi encontrado, morto”.

Como colunista em início de carreira, e quem sabe já no final, tive que lidar com restrições de redações e percebi que os jornalistas que dependem desse trabalho devem passar por uma depressão intensa, de saber exatamente o nome das coisas, mas não poder dizer, porque o jornal não vai aprovar.

No Rio, não se diz o nome de facção. Ou seja, é a notícia sem noticiar.
Se o Comando Vermelho se envolve em conflito com o Bope, vai registrar que “Bope realiza operação contra facção em favela”.

Que facção?
E por que é importante dizer o nome?
Por que não se pode dizer o nome da facção, dos líderes, explicar exatamente o que está acontecendo?

A notícia não pode, NA TEORIA, ser cooptada pelos interesses empresariais de quem se propôs informar a sociedade de forma imparcial. Jornalista adora dizer que é imparcial com a notícia, assim como marido que trai gosta de usar adesivo no carro “Amo Minha Esposa”.

Neilton disse, à Ponte Jornalismo, que esperava que seu filho fosse o último a ser morto. Os policiais mataram, e o corpo só “reapareceu 17 horas depois. Mas na sequência, nem bem o luto foi consumado, interrompendo a distribuição de mantimentos e cestas básicas, a polícia assassina outro João. Jovem, 18 anos, João Vitor não era traficante. Era um morador. Os voluntários da Frente CDD realizavam sua ação de distribuição de alimentos para moradores que encontraram dificuldades financeiras neste período de pandemia em que Auxílio Emergencial nunca chega, e foram surpreendidos por uma operação, perdão,

surpreendidos não, né chefe,
a bem da verdade, esse tipo de ação já não surpreende mais ninguém no morro.

Salta pra trás um pouco, nem uma semana, e foram 13 os mortos no Complexo do Alemão, corpos espalhados pelo chão, que moradores recolheram e desceram do alto do morro, enfileirando todos eles na calçada. Um pouco mais, 28 de abril, e policiais militares de São Paulo jogaram bombas em moradores da Favela do Moinho.

“Nós somos alvo.
E eu não quero te perder, mano”.

Foi o que um jovem voluntário da Frente CDD disse pro seu amigo, após a morte de Vitor.

Não acabou, não.

Sai da favela, sai de São Gonçalo, Cidade de Deus, Alemão, Favela do Moinho, vem para o bairro de Laranjeiras.

Aquele bairro da música do Nando Reis.
Bairro de bacanas. Famílias tradicionais. Até de esquerda, burgueses, superinformados na vida.

Nesse bairro, o Colégio Franco Brasileiro.
Tradicionalíssimo, e caro, muito caro.
Onde estudam os filhos de uma classe média mais alta e outros mais ricos.

Uma jovem, negra, de origem senegalesa, foi violentada por alunos, colegas de sala.
Praticaram o pior tipo de racismo, e se orgulharam disso.
Escreveram coisas que não vou reproduzir aqui.
Mas penso que, no ensino médio, onde estão matriculados, não entenderam ainda, pelo papo, que esse tipo de coisa não diz, não será agora que diálogo vai resolver.

Tem que ter lei aí. Punição na forma da lei, exemplar. Expulsão dos quadros da escola. O Franco Brasileiro estava outro dia divulgando material da escritora Conceição Evaristo. A equipe pedagógica sabe muito bem o que está fazendo para puxar os temas da diversidade. Então, quando esse esforço não funciona mais, é hora de aplicar a lei. Sem relativizar.

Porque nessa hora eles vão ser chamados de “crianças”.
Não são.
Os pais desses jovens também devem ser responsabilizados.

Por que o jovem branco e racista é “criança”, mas o jovem negro morto é “traficante”?

Essa jovem não mora no morro. Sua família é de classe média alta. Algo pouco visto no Brasil, negros de classe média alta. E o racismo não a poupou.

Senegal é um exemplo de luta anticolonial e antirracista no mundo, eu peço desculpas ao pai dessa menina por meu povo ser tão ignorante e racista. Eu espero que esses jovens sejam punidos e o racismo seja extinto do país.

Mas veja bem, seja na favela, seja, como o caso de João Pedro, uma família de classe média, uma vez que Neilton é comerciante, ou seja uma família de classe média alta,

negros são o alvo.

Nenhuma pessoa branca é executada dentro de casa com 72 tiros numa operação no Leblon, e, amigo, tem ladrão nesse Leblon, viu.

As mortes por coronavírus são terríveis. Mas são o que há de novidade na mortalidade brasileira. Porque morte por racismo é uma comorbidade que temos, já deixou de ser novidade, e infelizmente, não tem vacina.

Vai ter vacina pra Covid-19.
Pra matança da PM, não.