Selfie no ménage. O fim dos tempos

Como ativista e sacerdote do ménage, eu tô putíssimo com essa palhaçada do novo secretário da Secom

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atualizado 14/02/2020 12:52

Eu queria escrever sobre pautas mais nobres, o que neste 2020 pode ser o BBB.

Acabaram-se as pautas nobres. Aquelas que guardávamos a tarde inteira para levar pro buteco e defender com paixão luterana, como um protestante amarrado num toco de pau, dentro de uma fogueira, na noite de São Bartolomeu.

Em 2004, tu defendia Terra plana, eu chegava com um paralelepípedo no meio dos teus peito. Hoje, a gente é obrigado a procurar uma foto do planeta, só pra certificar que tudo continua como conhecemos. Embora o horóscopo tenha dominado a cena e, como todos sabem, o horóscopo é a Terra plana que toleramos. Porque o destino de 7 bilhões de cabeças ser definido por 12 signos, ah, sim, mas você acredita que a Terra é redonda, então tudo bem, você é supertaurina, mas não é terraplanista – ufa!

Agora a gente chegou no estrago.

De primeiro o povo dizia: “Eu gosto é do estrago”. É isso. Estamos nele.

Eu poderia revirar meu pâncreas tentando entender por que Bial, Bolsonaro e Zé de Abreu precisam ter atitudes tão similares com mulheres, no que diz respeito às suas críticas a Petra, Greta e Regina.

Bial disse que Petra miava. Bolsonaro chamou Greta de pirralha. Zé falou tanta coisa de Regina que tem grupo de colecionador dos tweets dele. Os cara tão imprimindo e trocando, igual figurinha. E toda hora alguém acha algo novo.

É possível criticar uma pessoa – homem, mulher, trans, Pablo Vittar – sem ultrapassar a linha que divide a pessoa pública do indivíduo por trás da ação? Precisa chamar Greta de pirralha? Precisa dizer que Petra é uma infantil? Ou mostrar Regina pelada?

Acho que Zé não fez isso, mas alguém da massa ignara da esquerda que a linchava fez.

Eu não fecho com as FORMAS com que Greta propõe as pautas. Isso dá outra coluna. Mas não acho que o caminho seja falar da jovem, dela, pessoa. Isso não cabe.

Isso seria uma pauta mais nobre.

Ou o guarda-roupas de Ilze Scamparini.

Desde que me conheço por pessoa mastigada pela cultura greco-romana, sempre que alguém fala “Roma” ou “Vaticano”, eu penso na Ilze com aquele cabelão meio acaju maravilhoso, segurando o microfone e dando o papo retíssimo do que o Papa tá aprontando.

Tem que ter uma estátua da Ilze em Roma.

Ou mesmo, depois de assistir à final do Superbowl com J Lo e Shakira, eu poderia dar mais uma cutucada nos artistas brasileiros que não se posicionam, usando como exemplo a cena em que J Lo entra no palco com crianças latinas dentro de jaulas, e a filha dela jogando no meio da cara da sociedade americana que ela e a mãe poderiam ser alvo das políticas muquiranas de imigração da administração Trump.

Rapaz, eu poderia estar debatendo tudo isso.

Mas eu não consigo me libertar de uma inquietação cavernosa.

Por que em nome do Deus Todo-poderoso uma pessoa faz um menáge com um celular na mão e, NO MEIO DO MENÁGE, FAZ UMA SELFIE?

Que tipo de pessoa, meu dels, está num MENÁGE e para tudo pra fazer uma foto? Que qualidade de pessoa, gente, que qualidade de menáge é esse, que você precisa ficar com um celular na mão?

Eu poderia me dedicar a pautas mais nobres.

Mas como ativista e sacerdote do ménage, eu tô putíssimo com essa palhaçada.

A direita nem transar sabe. Não sabe filmar, não sabe escrever, não sabe fazer ménage.

A foto do ménage do novo secretário da Secom, liberada pelo Frota, nem me indigna. Essa classe política moralista é com certeza um conto de Nelson Rodrigues, daqueles que a gente se excita só de ler. Nada no mundo dá mais certo na literatura que hipocrisia e putaria juntos.

O que me indigna é o cara, num momento desses, sacar um Motorola e fazer uma selfie.

Acabaram-se as pautas nobres.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Metrópoles

SOBRE O AUTOR
Anderson França

Ativista social, roteirista e escritor, indicado ao Jabuti pelo livro Rio em Shamas

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