Pra quem come a vida dura, vacina russa é maria mole

Chegamos num tempo em que Putin, montado num urso e com uma seringa na mão, virou uma esperança

atualizado 13/08/2020 21:05

vladimir putin montado em urso com seringa nas costas Reprodução

Uma vez eu comia maria mole. Não sei que vento bateu, caiu no chão. Eu era dessas crianças bem atrapalhadas. E tinha meu universo particular.

Aos 16, no antigo segundo grau, eu ia na cantina, buscava um copo de café e, enquanto todos os outros alunos faziam rituais pré-sexuais, onde 80% deles estariam na gravidez no segundo ano, eu abria um jornal na sala de aula e fingia ler a seção de Economia, vendo os números da extinta Bolsa do Rio e a de São Paulo.

Petrobras PP, Paranapanema ON, Banespa labaxúrias, esse linguajar maroto-tinhoso que o Guedes usou pra engabelar todo mundo e conseguir emprego de ministro. Não governa, não diz coisa com coisa, mas já deve ter favorecido a boiada que o Salles passou mudando o regramento.

Porque Agro é tech, agro é pop, mas agro é grana, bitola larga, na Bolsa de Mercadorias e Futuros. O Guedes é tão safadonauta, ou seja, um astronauta do planeta dos safados, que ele taxou livro em 12% e banco em 5,8%.

Eu com 16 anos, no recreio, bebia café no copo, abria jornal e bancava o mentiroso fingindo que tava ocupado com notícias que aquelas crianças não tinham maturidade pra entender, na verdade, era inveja mesmo, as referidas crianças se pegavam umas as outras no baile, e eu ficava acompanhado por Jesus e minha Bíblia.

Parto do princípio que todo grêmio ou DCE de direita é de gente que não transa. Assim como parto do princípio que DCE de esquerda é de gente que transa mal, para no meio, chora, se despenteia. E se mete em terapia, pra resolver os problema da cabeça, porque na assembleia da faculdade disse que a mulher dar de quatro é fetiche de submissão machista, e Sheila AMA dar de quatro.

Sheila fica num conflito e segue feminismo que não dá de quatro, ou dá de quatro bebaça e feliz. Depois, propõe uma vertente progressista dog style.

Veja você, que me escreve toda a semana pedindo pro Metrópoles me mandar embora, eu não estou dizendo que terapia é ruim. Mas que a pessoa pensa muito, e isso atrapalha a hora da saliência. A esquerda se perdeu quando decidiu ser uma régua moral pra sociedade, tentando ocupar um lugar antes exclusivo da igreja. E a esquerda quer ser igreja.

A gente tá perdendo um tempo, meus amigo, eu nem te falo. Mundo acaba amanhã, e as pessoas debatendo se o menino do Uber que levou esculacho do racista de Valinhos é preto ou branco, light skin, bege, afrobege, ladrone de protagonisme, e Bolsonaro, dizem, volta a recuperar sua imagem na opinião pública por ter mantido o auxílio-emergencial pras classes D e E, ou seja: fez o que o Lula fazia.

Dizer que existe um racha no governo não é nada, eu quero que digam onde que não tem, onde a peça tá inteira. É uma direita autofágica, que conquista voto, mas não consolida seu poder. Cresce no vácuo que a esquerda cria, não falando com o pobre, mas se autodestrói no poder, e surgem novos mitos, dissidentes dos mitos antigos.

Mujica disse esses dias, porém, que a esquerda está se infantilizando. E Orlando Silva, PCdoB, que a esquerda “perdeu contato com o povão”. Não sobra ninguém. Nessa tentativa de civilizar e moralizar pessoas, a esquerda do PSol sacaneia Thaís Ferreira, porque não a considera negra o suficiente. Isso porque Thaís cursou o RenovaBR.

RenovaBR é uma baita de uma furada? É.

Mas eu conheço a Thaís, um monte de gente no Rio a conhece, e ela foi pra aprimorar seu fazer politico, que já existia ANTES do Renova. É muita estupidez, mesquinhez, ignorância e elitismo o PSol carioca impedir Thaís de se lançar candidata pela legenda, APENAS PORQUE ELA FEZ RENOVABR.

Mano, ela foi estudar política. Não conseguiu estudar pra passar nesse vestibular pro IFCS, abençoado do papai. Ela pegou a oportunidade que veio, e foi aprender. Mas se perguntar na rua, ela continua conectada com o povo que representa.

A gente tá muito perdido.

A história de uma jovem do Twitter que foi salva pelo amigo, quando leu Aracaju-se, pensou que se tratava de uma versão de Noronhe-se,
mas um amigo a salvou e disse: Amiga, Aracaju – SERGIPE.

Ôta porra.

Jovens, tenham amigos pra fazer a revisão dessa problematização aí. Antes de dar um enter, liga pra alguém da sua confiança.

Mas a maria mole. O marshmelow suburbano, que eu deixei cair no chão. Você sabe que maria mole é um doce de cor branca. E que, ao cair no chão cheio de terra fica sujo, e cinza-merda.

Aos 9 anos, olhei a maria mole, e nenhum de vocês me avisou que o diabetes seria meu destino, 30 anos depois. Então eu abaixei E COMI A MARIA MOLE. Virei o olhinho, sentindo a terra ESFOLIAR meus dentes.

Não morri.

Vacina russa, pode vir.

É uma esperança, pra quem botou pra dentro uma maria mole com terra.

Chegamos num tempo em que Putin, montado num urso e com uma seringa na mão, virou uma esperança.

Ê, 2020.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

Últimas notícias