Parasita Brasileiro. O filme da nossa vida

Vendo Guedes na TV, percebo que a melhor forma de vingança continua sendo a sétima arte

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atualizado 14/02/2020 12:50

Eu hoje vou mostrar pra vocês o roteiro de um filme incrível que eu vou pedir pra Coreia do Sul filmar.

Claudete. Nossa heroína.
Claudete é doméstica, mas uma doméstica diferente.

Outro dia, eu a vi lendo A Arte da Guerra.
Não é estranho?
Porque aprendemos com Caco Antibes e Paulo Guedes que doméstica só lê revista de novela.

Paulo Guedes e Bolsonaro começaram seu projeto de poder bem antes de Sai de Baixo, e sem dúvida alguma Sai de Baixo foi uma grande catarse do ódio naquele Brasil da década de 1990.

Um Caco Antibes louro, comedor de brioche, o ídolo do brasileiro que, em 2016, vestiu camiseta da CBF na Paulista. Porque todo brasileiro queria ser o Caco. Lindo, ao mesmo tempo detestável. Mas os detestáveis, se louros e brancos, são maravilhosos exemplos a serem seguidos nesse esgoto de safadeza e chinelagem.

Picareta, sim. Mas sempre com uma piada de pobre na ponta da língua.
Um sujeito que com certeza inspirou a existência avassaladoramente ignorante e medíocre, pequena, broxante, cachorrinho fia da puta, de Danilo Gentili.

Danilo é um Caco da década passada. Vai ter o fim ostracizado de uma camisinha depois de uma transa malfeita e mal gozada, vai restar no chão de uma calçada. Danilo humilhou pobre a vida inteira. Pobre, preto, mulher, gay. E descobriu essa semana que o limite do humor é rir de um cara cuja Lamborghini de 1,6 milhão de reais ficou toda cagada por causa das enchentes em São Paulo.

Piada com pobre, preto, mulher, gay, gordo, de boa.
Lamborghini, não.

E olha que Danilo nem é o dono do carro.
Abre parênteses: quem compra uma Lamborghini de mais de milhão e não faz um seguro, minha Mamãe Oxum? Desculpa. Sinto pena não.

Corta pra Claudete, que terminou a faxina na biblioteca e tá levando o balde com água sanitária pra cozinha. Não sei se você reparou, enquanto a gente falava, que ela deixou um bilhete em cima da mesa.

Agora o filme avança. Claudete tira seus minutos de almoço, comendo miojo e acompanhando seus investimentos de day trader.

Doméstica investindo?
Sim.
Domésticas se uniram aos funcionários públicos – vulgo parasitas – e elaboraram um plano de vingança cabulosa. Teve conselho da Bettina, da Bel Pesce, do Primo Rico, fizeram até pacto com Satanás cantando dentro da estrela de cinco ponta, numa calçada em Irajá, meia-noite. E Claudete era a líder da rebelião.

Um dia, Satanás ajudou Claudete. Ganhou milhões na Bolsa. Na Bolsa de Frankfurt. Em euro. Caralho, o Oscar é nosso.

Enquanto Guedes dava coletiva dizendo que NÃO EXISTE ISSO DE CÂMBIO A R$ 1,80, Claudete terminava a faxina na casa dele, riquíssima.

Apagou a luz. Pegou a bolsa. Desceu pro Leblon de meu Deus, terra de criminosos perigosíssimos, e sentou na areia da praia.

Guedes chegou em casa, à noite. Casa limpa. Pega um whisky. Vai pra biblioteca, senta na mesa e fica olhando o mar do Leblon.

Ops. Um papelzinho. Um bilhete.
Guedes abre, lê. Arregala os olhos. Sente o miocárdio contrair com a força de uns 40 Jurandir apertando o coração, seu nariz começa a escorrer sangue. Ele cai, e vê Claudete gargalhando, na areia.

Claudete comprou a Bozano Investimentos, o BTG, acabou com os investimentos do Guedes, faliu a porra toda dele, pegou o apartamento do ministro na penhora.

Claudete, A Doméstica Que Foi Pra Disney Quatro Vezes em 2010, voltou pra se vingar.

Doméstica cuja filha passou pra UFRJ. Que comprou DOIS perus Sadia no Natal, QUITOU a Riachuelo e mobiliou a casa numa porrada só. Doméstica que comprou um Iphone, tornando-se oficialmente comunista.

Bilhete que a minha mãe, doméstica, adoraria deixar pra ele.
Bilhete que lava a alma do espectador.

“Disney é coisa do passado. Agora, eu vou pra NASDAQ.”

Guedes apaga. Espumando de ódio, de ódio de pobre. As chamas sobem.
Claudete gargalha, com milhares de funcionários públicos que surgem na última cena.

Toca Emicida. Boa Esperança.
Fade out.
Sobem os créditos.

Vem, Oscar.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

SOBRE O AUTOR
Anderson França

Ativista social, roteirista e escritor, indicado ao Jabuti pelo livro Rio em Shamas

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