No Brasil, todos os amanhãs vieram juntos. O pior: Bolsonaro é o presidente

Pandemia. Ciclone bomba. Casos explícitos e diários de racismo. O fim da normalidade democrática. A crise das instituições. O fim da paz

atualizado 03/07/2020 10:00

Divulgação/Pixabay

Eu lembro da primeira vez que peguei as barcas, na Praça XV, com destino a Niterói, no Rio de Janeiro.

Era o meu primeiro passeio marítimo. Algumas cidades no Brasil possuem transporte público fluvial e as barcas levavam do Rio a Niterói em 40 minutos – quando o tempo estava bom, a espera era reduzida para 30. É muito tempo para os padrões de hoje. As novas barcas fazem o mesmo trajeto em 15, 20 minutos. Se a barca estiver vazia, o mar calmo e o piloto neurótico, bota aí uns 10 minutos.

Aí você vê o Rio, o Pão de Açúcar, a pista do aeroporto Santos Dumont, se tiver sorte, vê um avião pousando. O prédio da Cândido Mendes, a Ilha Fiscal. Que coisa bonita. Ali, no meio da Baía de Guanabara, só ouve o barulho das águas, vê o céu e o mar por onde chegaram um dia os portugueses que fizeram uma lambança histórica nessas bandas. Mas aqui em Lisboa tem barcas também.

Elas são chamadas de barcas e catamarãs – igual no Rio.

A Praça XV daqui fica no Cais do Sodré. Eu ainda não sei quem é esse Sodré, mas é o nome dado ao lugar onde ficam as barcas e os trens. Então é como se a Central do Brasil e a Praça XV ficassem no mesmo lugar. Uma boa para os trabalhadores que vêm de longe, precisam chegar a Lisboa – cidade mais cara, com mais turistas – e precisam trabalhar.

Lisboa é meio que um centro do Rio. Comércio, bancos, empresas, está tudo aqui. Apesar de ser menor que o Rio, lembre-se de que Portugal inteiro tem 10 milhões de habitantes, e só o Rio, a cidade, tem 7 milhões.

Moram em Lisboa uns 3 ou 4 milhões de pessoas, o número de habitantes da Zona Norte do Rio. Do outro lado do rio Tejo, que é largo e lembra a Baía de Guanabara, tem a Margem Sul, a “Niterói” deles.

Na Margem Sul, há um bairro chamado Barreiro. Bairro dos comunistas. O Partido Comunista Português guarda relações históricas e afetivas com esse bairro, de classe operária e trabalhadora, de portugueses e migrantes.

Tem isso. O capitalismo opera de maneira similar em todo o mundo. Tem os mais ricos, tem os mais pobres. Aqui em Lisboa, os mais pobres moram na Margem Sul, Odivelas, Amadora. Regiões do entorno de Lisboa, onde há mais africanos, brasileiros, árabes, indianos. Como não há um incentivo no fortalecimento de uma identidade suburbana e local, nós, imigrantes, não nos falamos.

Não há, em Portugal, trocas culturais intensas, ninguém vira amigo. Chineses para um lado, indianos para outro, africanos para outro, e portugueses sempre sendo portugueses, isolados em seus mundos, suas tascas, tabernas, famílias. Estão na própria terra, não querem se envolver com ninguém. Nem entre eles há muita interação, são um povo reservado – e isso não significa que sejam grosseiros – mas não podem ser medidos pela nossa régua.

Nós somos do tamanho de um continente. Somos emocionalmente enormes, queremos abraçar o mundo. Eles já foram um império mundial. Aprenderam que essa não é a sua vocação. Hoje, preferem estar quietos.

Esses dias eu conversei com uma amiga que me disse ter vontade de pegar uma barca, botar a pistola na cabeça do capitão, roubá-la, expulsar todo mundo de dentro e fazer uma curva na Baía de Guanabara, em direção ao Atlântico, para ir embora do Brasil. Nos mantimentos, Coca-Cola e Cheetos.

Quando a gente fica muito cansado da realidade, a gente quer ir embora. Ir embora pode significar muita coisa. Pode ser desde um sonho escapista até a criação de um mundo imaginário ou fantasioso no qual vivemos para suportar a realidade. Infelizmente, em  alguns casos, há o suicídio. Me parece que, no Brasil, todos os “amanhãs” chegaram juntos.

Pandemia. Ciclone bomba. Casos explícitos e diários de racismo. O fim da normalidade democrática. A crise das instituições. O fim da paz social. O confinamento. A recessão. O aumento da miséria. O desemprego em massa.

Então, é nesses tempos que nos voltamos para as fantasias. E me parece que Jair Bolsonaro está fazendo isso também. O mundo de fantasia que ele criou para viver está refletido nos áudios em que ele responde sobre obras que ele não fez para pessoas que não existem. Ou na decisão de migrar do Twitter para uma rede social onde a extrema-direita fala para si mesma. O mundo da fantasia, a Disneylândia dos neofascistas: a Hitlerlândia.

Ao ver que seus filhos, e ele, podem ser responsabilizados pelos crimes que são investigados, em algum momento pode ter dado conta de que são meros amadores políticos, sem aliados da base original, pois desfizeram laços com praticamente todos, sem apoio dos investidores que os elegeram, sem apoio popular significativo nas ruas, exceto pelos que também migraram para fantasia, e sem partido.

O presidente é um político tão desprovido, tão despreparado, tão pé-de-chinelo, que nem partido tem. É Jair Bolsonaro (sem partido). Um presidente sem partido. Ou seja, não representa nada, ninguém, ou qualquer proposta. Acho que para a gente voltar à realidade a melhor coisa mesmo seria, em vez de nós entrarmos nessa barca em direção ao nada, colocar Bolsonaro e os pingados de sua ideologia dentro dela, e enviá-los pro Atlântico, sem Cheetos e sem Coca-Cola – essa última, inclusive, parou de dar dinheiro para o Facebook diante dos discursos de ódio da direita global que repercutem na rede.

É como um conto, em que o feitiço sobre a aldeia se desfaz quando o mago do mal morre. Uma pena que ainda não exista um catamarã para levar de vez os malditos. E se tivesse, ia lotar.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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