Não dá pra exigir empatia de um povo que sempre foi exterminado pelo Estado

Queria que 54 mil mortos parassem o país, fosse um choro coletivo, intenso – mas como, se o Estado sempre exterminou o preto e o pobre?

Ilustração para coluna do Anderson França de 26/06/2020Gui Prímola/Metrópoles

atualizado 26/06/2020 11:14

Quando eu morei na Vila Aliança, acordava às 5 da manhã pra ir andando por 40 minutos até a estação de Bangu, e lá pegava o segundo ou terceiro parador pra Central do Brasil.

Ia, com o céu ainda escuro, num silêncio absoluto, as ruas vazias. A Estrada do Taquaral, a Estrada da Água Branca.

Eu sabia que aquele silêncio não era sinônimo de paz. Nos becos, sempre três ou quatro mininos, com pistola, rádio, uma Kalashnikov modelo 1947, a temida AK-47, carregada, pronta pra cantar.

Era a iminência.
A qualquer momento, o Bope cruzava a esquina. Você se acostuma, e aprende que, numa situação dessas, tem 5 a 10 segundos para analisar a cena, olhar pra viatura – não perca de vista a viatura –, os minino, qual sua posição entre os dois, e encontrar um muro pra se encostar. Não existe muito isso de deitar, a rapaziada se encosta num muro, se abaixa atrás de uma mureta, entra numa casa, num canto de buteco, embaixo de mesa de sinuca, igreja, qualquer coisa.

De tanto que acontece, você se acostuma. Você passa a ter um protocolo na mente. Se o Bope vem pela frente, você já tem um ou dois lugares pra ir. Se vem por trás, outra estratégia. Indo pro trabalho, 5 da manhã, o pique era esse.

Quando você saía depois do pipoco da madrugada, você só precisava desviar dos corpos. Às vezes um, às vezes cinco. Amontoados, espalhados. Numa esquina que você virava, dava de cara com um. Deitado, ainda saindo o sangue das carnes.

Eu ia, trabalhava, pegava um ônibus pirata que na época custava 2 reais, uma fortuna, mas deixava praticamente na porta. Ia diretão, da Central, até a Taquaral, já dentro da favela.

Voltava pela mesma rua, 9 da noite.
O corpo, no mesmo lugar, agora coberto com folhas de jornal. De vez em quando uma vela. A gente passava quieto. Que Deus conforte.

Na manhã seguinte, o corpo ainda estava lá. Ia ter talvez um outro, novo, perto dele, fruto do pipoco da madrugada. Voltava do trabalho, o corpo de duas noites atrás, do começo dessa crônica, ainda lá. A vela, apagada, só o cotoco no chão sujo. O corpo, mais jornal, uma outra camada, ou um lençol sujo. Às vezes, uns saco de lixo aberto, em cima do rosto.

Vila Aliança é vizinha de Vila Kennedy. Zona Oeste, isso aí era no início dos anos 2000.

Às vezes levava uns 3, 4 dias pra aparecer um rabecão da Defesa Civil, e levar os corpos, já duros. Secos, cheiro de podre.

O que eu quero dizer é o seguinte: pedir empatia pras pessoas, num país onde milhões veem isso todos os dias, amigo, fica difícil. As pessoas nem sabem o que é empatia. É pena? Adianta o quê?

Eu sei que você tem suas teorias, eu tenho as minhas. Queria que 54 mil mortos parasse o Brasil, fosse um choro coletivo, intenso. Mas quando eu paro pra pensar que muita gente se acostumou com uma cena como essas, eu penso se não tô sendo hipócrita. Não dá pra exigir empatia, quando o Estado e o Brasil, mesmo nos melhores anos de Lula, não teve com o povo. Porque o Estado sempre matou e exterminou o preto e o pobre.

Infelizmente, a Covid tem mais jeito de política pública que de doença. De certa forma, essas pessoas esperavam morrer. O abandono é total. A Covid é o mais novo funcionário público brasileiro.

E tá trabalhando bem.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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