Ativista social, roteirista e escritor, indicado ao Jabuti pelo livro Rio em Shamas

A falta de oxigênio é real, nos hospitais e nas democracias. Estamos asfixiados

O que estamos vendo em Manaus é uma representação material do que está acontecendo no ocidente

atualizado 17/01/2021 17:37

Gui Prímola/Metrópoles

Pra escrever nessa coluna, um dos trabalhos que mais gosto de fazer, eu agora tenho a seguinte estratégia: deixo a ideia vir, e não escrevo. Espero um dia. Pra rever, dentro de mim, se o sentimento que tenho é o que deve guiar o texto. E pra fazer um exercício que aprendi anos atrás com o Ricardo Guimarães, uma pessoa que conheci em Vigário Geral, quando trabalhei no AfroReggae.

Ricardo é um estudioso do comportamento humano. Trabalha na Thymus, e tem uma tese fundamental: nós estamos em evolução, e precisamos olhar para os pássaros para entender que não precisamos de líderes, mas nós podemos ser interdependentes.

Eu era um ninguém, quando Ricardo me convidou no escritório dele, na Faria Lima, um lugar onde eu nunca tinha posto os meus pés suburbanos. Quando cheguei no prédio, de boné, camisa de hip-hop, saído de um clipe de Snoop Dogg, os seguranças me disseram que motoboys entravam pela porta lateral. Eu disse que ia me encontrar com o Ricardo Guimarães, a recepcionista riu. Pediram meu RG, disseram que eu não poderia subir.

Então desce o Ricardo, pelo elevador, e de braços abertos, me recebe.
Esse é o Ricardo.

Educador, generoso, que recebeu um sujeito de periferia para falar com ele, por uma hora, sobre algo que, 10 anos depois, decidi escrever:

O zeitgheist.

Eu não aprendi essa palavra na faculdade, porque não sou uma pessoa de faculdade.

Aprendi ali, com o Ricardo.
Ele tinha uma parede, onde fixava todas as notícias da semana. E olhava praquilo, buscando entender pra onde o mundo ia. Qual o ESPÍRITO do mundo. Esse trem é o zeitgheist.

E pegou um helicóptero de brinquedo, e me disse: Dinho, às vezes a gente tem que sair da realidade, no sentido de subir, olhar do alto, olhar de fora, pra entender.

Então, é isso que tenho feito.

E é simples o que vim dizer aqui hoje: o que estamos vendo em Manaus é uma representação material do que está acontecendo no ocidente, pra não dizer no mundo, em termos afetivos, políticos, psicológicos, espirituais, relacionais.

NÓS TODOS ESTAMOS ASFIXIADOS. E alguns, literalmente. E morrem. E sofrem imediatamente a dor, a morte, e nós nos culpamos por não poder ajudar essas pessoas que são nossas irmãs. Crianças, bebês, filhos da pandemia, concebidos no confinamento, sem oxigênio, num mundo sem oxigênio. Num mundo sem oxigênio de empatia, de humanidade, de respeito, de amor pelas pessoas e pelas minorias, sem amor pela arte, sem espaço para o diferente, sem valorizar o simples, mas valorizando o dinheiro, servindo o dinheiro, adorando o dinheiro e morrendo abraçado ao dinheiro.

A asfixia de Manaus é inaceitável. Doria deu um murro na mesa, indignado com isso, e eu espero REALMENTE que tenha sido indignação e não cena pra campanha de 2022, que todos nós sabemos que ele já está fazendo.

Até porque o Doria comprou 41.123 armas pra polícia militar de São Paulo DURANTE A PANDEMIA, incluindo 10 fuzis NEGEV, israelenses, capazes de fazer um corpo humano virar CALDO em exatos 38 segundos, porque dispara SETECENTAS BALAS POR MINUTO.

E Doria colocou esse armamento na mão de policiais despreparados e cheios de ódio, num país mergulhado no ódio. Então, Doria se indignar pelos bebês de Manaus, mas fazer uma compra milionária de armas pra São Paulo, não muito honesto.

Os Estados Unidos vão empossar um presidente no meio de um cerco militar com mais de 20 mil soldados. Tem mais soldados no Capitólio hoje que no Afeganistão. No país que asfixia homens negros no chão, a democracia deles está asfixiada. Como asfixiada está a nossa, com Bolsonaro mentindo sobre a pandemia, mentindo ao dizer que o STF o proibiu de agir, mentindo dizendo que fez o que pode, mentindo dizendo que existe tratamento precoce, mentido de manhã, mentindo de tarde, mentindo de noite, e liderando um exército de mentirosos, no Planalto, no Congresso e muitas vezes, na sua casa.

A asfixia que a extrema-direita e os supremacistas brancos impõem aos outros humanos nunca foi tão visível, exceto quando um outro branco supremacista aprisionou pessoas em câmaras para asfixiá-las na Alemanha.

Nós estamos cansados e sem ar. Lutando pra entender como, já no quinto dia seguido com mais de mil mortes no Brasil, com diversos bairros em São Paulo com UTIs lotadas e indicando um pré-colapso no Estado, com Manaus ainda no começo de uma crise que pode durar de dez dias a um mês, o Rio, por exemplo, abre as áreas de lazer nesse domingo, para que as pessoas se aglomerem, como fizeram ontem no Engenhão, como fizeram ontem no Hotel Fasano.

No meio disso, mesmo com todas as divergências que tenho com eles, vi Felipe Neto e Whindersson mobilizarem artistas e pessoas para levantarem mais de cem mil reais e levarem cilindros pra Manaus. Enquanto isso, muitos artistas continuam alienados, como se estivessem num paraíso com os luxos que conseguiram como fruto do amor do mesmo povo que agora eles deixam morrer.

Sensação de asfixia, e asfixia real.
Nós não podemos respirar.

E quando todos os cilindros de oxigênio afetivo, político, relacional, civilizacional acabarem, não terá onde comprar.

Nunca antes, a expressão “estamos no sufoco”, foi tão verdadeira e visível.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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