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O centro do Rio de Janeiro foi tomado neste sábado (10/2) pela multidão. O Cordão da Bola Preta, o maior e mais antigo bloco da cidade, completa, em 2018, 100 anos de história. Desde bem cedo, os foliões já vinham chegando para acompanhar o momento marcante. Mas foi pouco após as 10h da manhã que o presidente do bloco, Pedro Ernesto, anunciou o início do desfile, e os cinco carros de som entraram em movimento na Rua Primeiro de Março. Os organizadores esperavam 1,5 milhões de pessoas.

O cortejo teve início com um Parabéns pra você!, seguido de Cidade Maravilhosa, samba que é conhecido como um hino popular do Rio de Janeiro. Já bastante animados, foliões fiéis ao bloco ficaram ainda mais agitados ao início da terceira canção: a Marcha do Cordão da Bola Preta, composta Nelson Barbosa e Vicente Paiva e considerada o hino do bloco. “Quem não chora não mama, segura meu bem a chupeta. Lugar quente é na cama ou então no Bola Preta”, diz o refrão.

“É o melhor e mais animado bloco do Brasil”, se emocionou Cátia Guimarães, motorista de van escolar que integrava uma turma de mulheres fantasiadas de cozinheiras, em trajes nas cores do Bola Preta: preto e branco. “A ideia surgiu porque é um bloco que reúne as famílias. Então, tem que ter o tempero das cozinheiras. Todos os anos nós viemos assim. Mudamos apenas detalhes e os temas do avental”, disse.

Alguns deixaram as fantasias em casa e vestiam a camisa comemorativa do centenário, desenhada pelo cartunista Ziraldo. Mas uma das principais marcas do Cordão do Bola Preta é mesmo o número considerável de foliões que usam a criatividade para homenagear o bloco.

Um exemplo era a turma do vendedor ambulante Thiago Santos Leal, com o corpo todo pintado de preto e com adereços de homens das cavernas. Diziam ser os Uga Uga do Catiri, vila situada no bairro de Bangu. “Todos os anos, os Uga Uga estão presentes. É uma tradição já, desde os anos 1990. Vem de pai para filho. E é isso, estamos aqui para zoar e curtir o carnaval na paz”, disse Thiago.

Outro grupo peculiar, da técnica de enfermagem Selma Souza Silva, participava com fantasias da personagem Minnie, com saias de bolinhas pretas. “É o bloco que mais representa o Rio de Janeiro”, avaliou a foliã. De fato, o desfile contava com moradores de todas regiões da cidade, mesmo as mais afastadas.

“A fantasia é característica do subúrbio do Rio. Trouxemos o carro do ovo, que vende 30 ovos a R$ 10 reais. A dona de casa deixa louça na pia, deixa a comida queimando, mas quando passa o carro, ela corre para pegar a promoção. Lembrando que são 30 ovos, R$ 10 reais. Dá para metade do mês”, explicou o segurança privado Diego Felipe da Silva.

O grupo dele, que chamava bastante atenção e arrancava a gargalhada geral, é mais um dos fiéis ao Cordão da Bola Preta. “A gente sai há mais de 10 anos. Sempre traz alguma coisa do momento, que seja característica da zona norte do Rio de Janeiro. E faz a alegria da galera. O carnaval é pra divertir e vamos esquecer um pouco dos problema que nós temos vivido devido à violência”.

Em cima do carro de som, iam distribuindo acenos os famosos que acompanham o Cordão da Bola Preta. A rainha do centésimo desfile é a atriz Cris Vianna. Junto a ela, estavam a cantora Maria Rita, madrinha, e a também atriz Leandra Leal, porta-estandarte há 10 anos. O padrinho é o Neguinho da Beija-Flor.

“Eu amo carnaval. Para mim, é a melhor época do ano, mais até do que o aniversário ou o réveillon. Eu emendo, de bloco em bloco. Você vê as pessoas celebrando, sonhando, se divertindo. Você vê a avó pulando junto com os filhos e os netos. Eu acredito na magia do carnaval. E estar aqui no centenário deste, que é o meu bloco desde criança, é especial. Acho que vou chorar muito”, dizia Leandra Leal, antes de subir no carro.

História

O Cordão da Bola Preta foi fundado em 1918 e é o último representante remanescente dos antigos cordões carnavalescos que existiam no Rio de Janeiro, no início do século 20. O bloco atravessou os seus 100 anos trazendo uma história de resistência. Já na sua estreia, em uma época de repressão ao carnaval, autoridades policiais chegaram a tentar impedir o desfile.

“A arte muitas vezes é incompreendida. Tudo o que envolve cultura enfrenta, em algum momento, dificuldades, limitações, falta de boa vontade daqueles que podem ajudar. E o Bola Preta nasceu quando o chefe de polícia do Rio de Janeiro não queria permitir a criação de novos cordões. Felizmente, os fundadores peitaram essa decisão absurda”, diz o presidente Pedro Ernesto.

O Cordão da Bola Preta também sobreviveu a uma época de escassez de blocos de rua. “Na década de 90, havia pouquíssimos blocos e o Bola Preta era praticamente o único que desfilava no centro do Rio de Janeiro. É difícil chegar a 100 anos. Nós chegamos. Passamos alguns momentos de muita dificuldade, mas em nenhum momento nos curvamos”, lembra o presidente.

Segundo ele, a decisão de aquirir um imóvel para instalar a sede própria foi fundamental, já que muitos cordões acabaram por não dar conta de arcar com os aluguéis. O Bola Preta, porém, passou por dificuldades financeiras e sua histórica sede, na Avenida 13 de Maio, foi a leilão em 2007. Mas, há alguns anos, o bloco já tem novo endereço: Rua da Relação, na Lapa.

Outro segredo da longevidade foi o apego à tradição e o compromisso com um dos principais objetivos dos fundadores: preservar a música do carnaval. “Valorizamos as marchinhas, o samba-enredo, e isso faz a nossa potência. O Bola Preta nunca se enveredou por outros ritmos, o que poderia decretar o seu final porque perderia sua identidade”, acrescentou o presidente do bloco.

 

 

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