Vídeo: homem faz apelo antes de morrer em hospital público do Rio

Paciente conta que ficou de um dia para o outro sem medicação para o coração: "Vão me entubar e esperar morrer para dizer que foi Covid?"

atualizado 23/04/2021 13:43

Reprodução

Rio de Janeiro – Um desabafo, misto de emoção, desesperança e raiva, dá o tom do quem sentem os pacientes do Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, zona norte do Rio. O senhor Joaquim Rodrigues Cajueiro gravou um vídeo reclamando da situação. Pouco depois, ele morreu.

Cajueiro estava internado na Unidade Coronariana do hospital quando, com o diagnóstico positivo de Covid-19, precisou ser transferido para um setor específico a fim de tratar da doença. Isso fez com que o exame de cateterismo pelo qual aguardava fosse adiado.

E foi aí que Joaquim acabou esquecido pela equipe, ficando entre 18h e 12h do dia seguinte sem receber a medicação indicada para seu problema cardíaco.

“Só me trouxeram porque eu pedi um remédio para a febre. O médico passou, me olhou dois segundos e foi embora. Vão esperar eu tossir, ser entubado e morrer para dizer que foi Covid, pois nem os remédios do coração estou recebendo”, diz o paciente em um vídeo gravado e endereçado ao prefeito do Rio, Eduardo Paes (DEM), e ao secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz.

Na gravação, o paciente mostra o setor para onde foi transferido, uma ala especial para pacientes com Covid-19. O local é administrado pela RioSaúde e que não conta com escalas completas em todos os plantões, segundo o sindicato dos enfermeiros.

Nas imagens, o paciente mostra que havia leitos livres na enfermaria e narra sua situação, sem apresentar sinais de alteração na fala ou dificuldade respiratória.

No entanto, Joaquim morreu no último domingo (18/4), às 3h09. A causa da morte não foi revelada pela secretaria de Saúde.

Veja o vídeo:

“Devidos cuidados”

Em nota, a pasta diz que “toda a conduta terapêutica referente ao problema cardíaco, que já havia sido definida na Unidade Coronariana, foi mantida no leito para onde ele foi transferido, inclusive a medicação já prescrita, que continuou a ser administrada, sem interrupção”.

“O senhor Joaquim recebeu os devidos cuidados para os quadros de Covid-19 e cardíaco. Infelizmente, não resistiu e faleceu neste fim de semana”, diz o texto da secretaria.

Principal emergência da região, referência em neurocirurgia e em atendimento de trauma, o Hospital Municipal Salgado Filho funciona acima da capacidade e, segundo funcionários, sofre com falta de insumos e material básico de rotina e com sobrecarga aos profissionais, que chegam a atender mais de 19 mil por mês.

“É nesse ambiente de muitas dificuldades que os profissionais trabalham, dando tudo de si para não deixar que casos assim aconteçam. Mas em alguns casos não é possível. Falta muita coisa”, afirma a presidente do Sindicato dos Enfermeiros, Mônica Armada.

No vídeo, no qual o paciente não mostra seu rosto, ele pergunta ao prefeito Eduardo Paes quanto tempo ele esperaria para morrer. “Vão esperar eu me f* aqui para dizer que sou mais um que morreu de Covid?” e “Cadê o secretário de saúde. Manda ele vir aqui”.

A reportagem do Metrópoles procurou familiares do paciente, mas eles não foram localizados.

“Denúncias como esta são feitas com frequência, mas não são registradas, o que nos impede de adotar ações mais contundentes para exigir dos gestores públicos respostas imediatas para os casos e para que busquem soluções para os problemas de rotina dos hospitais, em especial no Salgado Filho”, completa Mônica.

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